Israel S. Reis

“Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”

(Tg 1.13)ACF

Introdução

Em 2 Samuel 24.1, lemos: “E a ira do SENHOR se tornou a acender contra Israel; e incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá”

No relato paralelo de 1 Crônicas 21.1,2 está escrito o seguinte: Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel. E disse Davi a Joabe e aos maiorais do povo: Ide, numerai a Israel, desde Berseba até Dã; e trazei-me a conta para que saiba o número deles

A redação de 2 Crônicas 21.2 é muito semelhante à de 2 Samuel 24.2; não existe uma diferença significativa. No entanto, no que concerne ao primeiro versículo de cada capítulo que estamos estudando, parece que em 2 Samuel 24 foi o próprio Deus quem incitou Davi a realizar o recenseamento, mas em 1 Crônicas 21 teria sido Satanás, o adversário de Deus. Isso não representa uma discrepância, ou será que ambas as declarações estão certas? Em nenhum dos dois livros temos um contexto definido para a idéia de realizar-se um recenseamento, e não há meios de verificar se ele ocorreu antes ou depois da revolta de Absalão. Todavia, visto que esse cadastramento induziu indiretamente à aquisição do monte Moriá, que se tornaria o local do templo e dos palácios reais, deve ter sido feito vários anos antes do final da carreira de Davi. Só assim poderia ter tido ele a oportunidade de juntar tão grande quantidade de adornos caros os materiais de construção que Salomão mais tarde usaria a fim de erigir o templo (1Cr 29.3-5). Parece que Davi não estava totalmente consciente do que se passava no íntimo de seu coração, pois estaria talvez sendo induzido pelo orgulho por causa de tudo o que havia realizado, no que dizia respeito aos sucessos militares e à expansão econômica do povo. Ele começou a pensar mais de tropas e armamentos que na, misericórdia e fidelidade de Deus.

Em sua juventude, Davi pusera toda sua confiança apenas em Deus, quer enfrentando Golias cor uma simples funda, quer lutando contra um exército inteiro de amalequitas, dispondo e apenas um punhado de soldados – ao todo quatrocentos. Todavia, nos últimos anos, ele viria a confiar mais nos recursos materiais, á semelhança de qualquer racionalista de coração endurecido. Davi acabara aprendendo medir sua força pelo padrão dos números e das riquezas. Portanto, o Senhor decidiu que chegara o tempo de Davi dobrar os joelhos outra vez, em oração e atirar-se à graça de Deus, ao longo de um período de provações capazes de esquadrinhar-lhe a alma. Portanto, o Senhor o encorajou a pôr em execução o plano que esse rei acalentara havia tanto tempo: desejava contar o povo, saber quais eram seus recursos humanos, a fim de bem planejar suas estratégias militares futuras, com vistas ao emprego mais eficiente de seus exércitos. É bem provável que tal contagem lhe proporcionasse uma base mais concreta para o cálculo dos impostos. E assim Deus, efetivamente, lhe disse: “Muito bem, vá em frente e conte o povo. Depois você verá o resultado de sua vaidade”. Embora fosse um comandante militar endurecido e ambicioso, o general Joabe sentiu certa intranqüilidade a respeito do projeto. Percebeu que Davi e seus conselheiros tornavam-se mais e mais orgulhosos por causa de suas brilhantes conquistas militares, as quais trouxeram os reinos da Palestina, da Síria e da Fenícia ao estado de vassalos de Israel. Joabe temia que o Senhor talvez não estivesse satisfeito com aquela atitude de auto-confiança e auto-estima, pelo que tentou dissuadir Davi desse propósito. Em 1 Crônicas 21.3, estão registras as seguintes palavras de Joabe:

“Então disse Joabe: O SENHOR acrescente ao seu povo cem vezes tanto como é; porventura, ó rei meu senhor, não são todos servos de meu senhor? Por que procura isto o meu senhor? Porque seria isto causa de delito para com Israel”

Existe uma razão pela qual o Senhor Deus deu a Davi uma advertência final pelos lábios de Joabe, antes de o rei comprometer-se afinal com o recenseamento. Não se diga que fazer recenseamento é inerentemente mau. O Senhor não se desagradara dos dois censos feitos na época de Moisés. Na verdade, ele mesmo deu instruções quanto à contagem de todos os efetivos militares cf. (Nm 1.2,3; 26.2), ambos no início da peregrinação de quarenta anos pelo deserto e no fim desse período, estando o povo no limiar da conquista. O segundo censo foi feito com o objetivo de mostrar que o total das forças armadas de Israel era um pouco menor que a de quarenta anos antes. No entanto, com aquele exército menor, os israelitas varreriam todos os inimigos à sua frente; o povo de Deus não se acovardaria diante da perspectiva da guerra, como acontecera com seus pais em Cades- Barnéia. O segundo censo também teria outra utilidade: seria a base para a distribuição da terra conquistada entre as doze tribos. As que tinham maior número de pessoas receberiam territórios maiores, proporcionalmente. Entretanto, o recenseamento no qual Davi havia colocado seu coração não serviria a outro propósito senão o de inflar o orgulho e a vaidade nacionais. Tão cedo a contagem estivesse terminada, Deus iria enviar uma punição – uma praga desastrosa – que causaria considerável perda de vidas e diminuição no número de seus cidadãos. Porém, quando voltamos ao primeiro versículo de 1 Crônicas 21, deparamo-nos com a declaração de que fora Satanás quem motivara Davi a realizar o recenseamento, apesar da advertência e protesto de Joabe.

O verbo hebraico traduzido por “incitou” é o mesmo nas duas passagens: (wayyãset). Por que o diabo se envolveria nesse assunto, se o próprio Deus já havia induzido Davi a cometer a tolice que seu servo tinha em mente? É que Satanás descobriu ser de seu interesse imiscuir-se. Essa situação tem alguma semelhança com aquela descrita no primeiro e no segundo capítulo de Jó, em que temos realmente um desafio de Deus ao Diabo, que induziu as calamidades sobre o paciente Jó.

O propósito de Deus foi o de purificar a fé de seu servo e enobrecer-lhe o caráter mediante a disciplina da adversidade. A intenção de Satanás era perversa; ele queria fazer o maior mal possível a Jó, na expectativa de levá-lo a amaldiçoar a Deus pelas suas desgraças. Assim, Deus e Satanás foram os que infligiram a queda e o desastre na vida daquele homem fiel. De modo semelhante, encontramos Deus e Satanás envolvidos nos sofrimentos dos cristãos perseguidos, de acordo com (1 Pedro 4.19 e 5.8).

O propósito de Deus era fortalecer-lhes o espírito, a fé, capacitá-los a partilhar seus sofrimentos por amor de Cristo, nessa vida, para que pudessem regozijar-se com ele na glória do céu que há de vir cf. (1Pe 4.13,14).

“Mas alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e alegreis. Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus; quanto a eles, é ele, sim, blasfemado, mas quanto a vós, é glorificado” (1Pe 4.13-14).

Mas o desejo de Satanás era “devorar” os crentes cf. (1Pe 5.8), isto é, arrastá-los para a amargura ou para autopiedade e puxá-los para baixo, para seu próprio nível, até a perdição eterna. No caso do próprio Cristo, o interesse de Satanás era desviar o Senhor do cumprimento de sua missão messiânica, mediante as três tentações que lhe ofereceu. Mas a intenção do Pai era que o segundo Adão triunfasse completamente sobre o tentador, que havia sido bem-sucedido em fazer cair o primeiro Adão. Também na crucificação do Senhor o propósito de Satanás era fazer com que Judas traísse a Jesus. O coração desse discípulo estava cheio de rancor e ódio, ou seja, do Diabo (Jo 13.27); mas o desejo do Pai era que o Cordeiro morto desde a fundação do mundo desse sua vida em resgate de muitos – o que foi simbolizado pelo cálice que Cristo foi convidado a aceitar no Getsêmani.

o caso de Pedro, Jesus o informou, antes que ele o negasse três vezes no pátio do sumo sacerdote: Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22.,31-32)

Temos aqui, então, cinco outros exemplos de incidentes ou situações em que tanto Satanás quanto Deus estavam envolvidos em provas e esquadrinhações da alma – Deus, movido pela benevolência, tendo em vista a vitória final e a crescente utilização do crente tão amplamente provado, e Satanás motivado pela malícia e perversidade, intencionando provocar o maior mal possível para as pessoas. Portanto, podemos dizer sem hesitação que ambos os relatos sobre a motivação que Davi recebeu estão corretos. Deus o incitou a fim de ensinar ao rei e a seu povo uma lição que precisavam aprender e humilhá-los de modo tal que promovesse seu crescimento espiritual. Satanás incentivou o rei a fim de desferir a ele e a Israel um golpe mortal; Davi ficaria com seu prestígio abalado perante seus súditos. No final (e isso é verdade a respeito de todos os exemplos), o sucesso de Satanás foi limitado e temporário; mas no fim o propósito de Deus foi bem servido, e sua causa, enriquecida. No auge da praga, que custou a vida de setenta mil israelitas (2Sm 24.15), o anjo do Senhor designou o lugar exato no monte Moriá onde a mortandade se deteve: aquele era o lugar escolhido onde se edificaria o futuro templo do Senhor

(2Sm 24.18). Esse edifício estava destinado a trazer muitas bênçãos às vidas dos crentes, do povo de Deus durante muitas gerações. Outra vez a malícia e a perversidade de Satanás foram ultrapassadas pela graça infinita de Deus.

. (2Sm 24.1)- Como pode esta passagem declarar que Deus moveu Davi a levantar o censo de Israel, se 1 Crônicas 21.1 declara que isso feito por Satanás?

PROBLEMA: Esta passagem relata o pecado de Davi em levantar o censo do povo de Israel e Judá. O versícuIo 1 afirma que Deus incitou Davi a fazer isso. Entretanto, de acordo com 1 Crônicas 21.1, foi Satanás quem incitou Davi nesse sentido. Afinal quem foi responsável por instigar Davi a agir assim?

SOLUÇÃO: As duas afirmações são verdadeiras. Embora tenha sido Satanás que diretamente incitou Davi, foi Deus que permitiu essa provocação. Embora o propósito de Satanás tenha sido destruir Davi e povo de Deus, o objetivo de Deus era o de humilhá-los e ensinar-lhes uma valiosa lição espiritual. Essa situação é bem semelhante àquela descrita nos primeiros capítulos do livro de Jó, nos quais tanto Deus como Satanás estiveram envolvidos com o sofrimento de Jó. Semelhantemente, ambos estiveram envolvidos na crucificação de Jesus. O propósito de Satanás era destruir o Filho de Deus (Jo 13.2; 1Co 2.8).

O objetivo de Deus foi redimir a humanidade pela morte de seu Filho cf. (At 2.14-39).

(Manual Popular de Dúvidas Enigmas e “Contradições” da Bíblia – Norman Geisler – Thomas Howe – Ed. Mundo Cristão).

CONCLUSÃO

Por que Deus Levaria Alguém a Agir de Forma Errada? (2Sm 24.1)

NÃO é que Deus tenha levado Davi a praticar o mal. Como qualquer ser humano, o rei era capaz de fazer o mal por conta própria. Ao contrário, Deus permitiu que ele seguisse suas escolhas pecaminosas e colhesse as conseqüências de suas ações. “Incitar” nesse caso pode significar que Deus dirigiu os acontecimentos que levaram à sua decisão. Para tornar a questão ainda mais confusa, o escritor de 1 Crônicas (21.1) diz que não foi Deus, mas Satanás quem incitou Davi a fazer o mal. O inegável conflito entre as duas passagens pode significar que Deus muitas vezes permite que Satanás faça coisas que posteriormente são vistas como provenientes de Deus. O autor de 2Samuel relata que o SENHOR estava em última análise por trás da ação de Davi, talvez mostrando que Deus lhe dera a liberdade de escolher o bem ou o mal. O escritor de lCrônicas reconhece Satanás como a tentação mais imediata por trás da decisão do rei. Ambas as idéias são corretas. No final, Deus usou os desejos pecaminosos do rei para executar juízo sobre a nação de Israel por causa do pecado. Mas algum bem também resultou desses tristes acontecimentos: por causa do que aconteceu aqui, foi adquirido o lugar em que o templo por fim seria construído.

. A ira do Senhor…incitou a Davi. Em (1Cr 21.1) lemos: “Então Satanás hb. (satan, adversário) se levantou contra Israel e incitou a Davi”. As duas expressões (idiotismos hebraicos) correspondem à frase: “Davi foi tentado”

1Cr 21.1 – Satanás. O diabo caiu devido ao seu orgulho cf. (Is 14.12-14). Apelou ao orgulho de Davi, o único motivo do censo. Davi não estava satisfeito com a promessa de Deus de que se tornaria uma “grande nação”. Satanás é o seu “adversário” cujo nome é dado especificamente aqui. É chamado por trinta nomes e títulos diferentes nas Escrituras.       Cada um desses desvenda alguma fase de sua obra. Os nomes mais significativos são: 1°) Serpente (Gn 3.4); 2°) Príncipe deste mundo (Jo 14.30); 3°) Maioral dos demônios (Mt 12.24); 4°) Deus deste século (2Co 4.4); 5); Tentador (1Ts 3.5). A passagem paralela em (2Sm 24) vai além e mostra que Satanás foi instrumento de Deus, usado para punir Israel por causa de seus pecados. cf. Jó 1.6-12 e 1Rs 22.20-22.

. 1Cr 21.3 Nada havia de inerentemente errado no censo; mas no caso de Davi, parece que ele queria saber o poder do povo armado (ver v. 5) e não manter sua fé na promessa de Deus (1Cr 27.23).

Será que Deus fez com que Davi pecasse? O Senhor nunca faz com que as pessoas errem, mas permite que os pecadores revelem a iniqüidade de seu coração através de seus atos. Deus ofereceu a Davi a oportunidade de administrar uma desastrosa tendência nacional e desejava que sua vontade se tornasse evidente. A passagem em (1Cr 21.1) diz que Satanás incitou Davi a pecar. Os escritores hebreus nem sempre fazem a distinção entre causas primárias e secundárias. Assim, se Deus permitiu que Satanás tentasse o rei, para esses escritores é como se o próprio Deus o tivesse feito.

(1Cr 21.1-3) – O texto bíblico diz que Satanás incitou Davi a levantar o censo de Israel. Satanás pode forçar as pessoas a errar?NÃO. Satanás apenas tentou Davi com a idéia, mas ele decidiu agir de acordo com a tentação. Desde o jardim no Éden, Satanás tem tentado as pessoas. O censo de Davi não era contrário á lei de Deus, mas sua motivação estava erradao orgulho por seu poderoso exército. Esqueceu-se de que sua verdadeira força vinha de Deus. Até mesmo Joabe, que jamais foi conhecido por elevados ideais morais, reconheceu que este censo seria um pecado. A partir do exemplo de Davi, aprendemos que uma ação, que pode não estar propriamente errada, pode se tornar pecaminosa se for motivada pela cobiça, pele arrogância ou pelo egoísmo. Frequentemente, nossos motivos, não a ação em si, contêm pecado. Devemos pesar constantemente nossos motivos antes de agirmos. Davi caiu na tentação de Satanás. Deus forneceu uma saída através do conselho de Joabe, mas a curiosidade de Davi foi estimulada pela arrogância. Sua fé estava em sua própria força, e não na de Deus. Se nós sentirmos auto-suficientes e depositarmos nossa confiança somente em nós mesmos, e não em Deus, logo cairemos nos enganos de Satanás. A auto-suficiência nos afasta de Deus. Quando você for tentado, examine seus desejos interiores para entender por que a tentação exterior é tão atraente cf. (1Co 10.13).

APLICAÇÃO PESSOAL: Deus pode transformar nossos pecados e falhas e retirar o bem do mal.