Preludiarei esta disciplina de introdução àHomilética compartilhando algumas histórias interessantes (e talvez cômicas) a respeito de pregadores e suas pregações. Poderia evidentemente empregar outro estilo de abordagem prefaciai. Acredito, todavia, que esta também será indispensável.

Uma vez um clérigo anglicano preguiçoso. Há muito abandonara o trabalho de preparar seus sermões. Bastante inteligente e excelente orador por natureza, sua congregação consistia em pessoas simples. Assim, seus sermões despreparados eram razoavelmente bem aceitos. No entanto, para poder conviver com a própria consciência, fez um voto: sempre pregaria extemporaneamente e confiaria no Espírito Santo. Tudo corria bem até que, certo dia, poucos minutos antes de começar o culto matinal, quem entrou na igreja e sentou em um dos bancos? O bispo! Estava desfrutando de um domingo de folga. O pastor ficou constrangido. Durante anos, conseguiu blefar sua congregação inculta, mas estava bem menos seguro quanto à capacidade de ludibriar o bispo. Foi, então, dar boas vindas ao visitante inesperado e, num esforço para diminuir as possíveis críticas da parte deste, contou-lhes sobre o voto solene que fizera no sentido de sempre pregar sermões extemporâneos. O bispo parecia compreender, e o culto começou. No meio do sermão, entretanto, o bispo se levantou e saiu, deixando o pregador muito consternado. E depois do culto, achou na mesa da sala pastoral um recado que o bispo rabiscara rapidamente:

“Absolvo você do seu voto!”

Havia, ainda, um jovem pastor presbiteriano americano, cujo pecado dominante não era a preguiça, mas a presunção. Frequentemente, jactava-se em público que o único tempo que precisava para preparar seu sermão de domingo eram os poucos momentos necessários para andar até à igreja, a casa vizinha. Talvez você possa imaginar o que os presbíteros fizeram: compraram para a igreja uma casa pastoral a oito quilômetros de distância!1

Pregação – e Pregadores – em Crise!

As referidas históricas, compartilhadas pelo egrégio John Stott, um gigante do púlpito dessas últimas décadas, reiteram duas grandes verdades nesta era pós-moderna:

  1. A pregação evangélicas está em crise em muitas igrejas. E quais são os principais culpados? Deus? Jesus Cristo? O Espírito Santo? Ou seria Satanás? Os demônios, talvez? A igreja? Ou os grandes culpados são, na verdade, os próprios pregadores? E será que é possível, além de identificar os culpados, encontrar a saída para esta terrível tragédia que invade as comunidades de fé?
  2. Os pregadores evangélicos, pelo menos muitos deles, também vivem uma fase crítica. A crise na pregação, na verdade, deve-se irrefutavelmente a crise que atingiu os próprios expoentes da Palavra de Deus; uma coisa leva a outra, principalmente nesse caso, haja vista que pregador e pregação devem estar sempre coesos, em compasso, em perfeita harmonia.

As ilustrações supracitadas, embora cômicas, são terrivelmente trágicas. Elas refletem a indesejável e preocupante realidade de vários segmentos evangélicos atuais. A pregação também está em crise em outras ramificações denominacionais. Conquanto Stott tenha citado a título de exemplo pregadores de igrejas históricas, a situação é similar no Pentecostalismo e, pior ainda, no Neopentecostalismo brasileiro. Há, inclusive, quem vaticina o fim da pregação; dizem, alguns, que a prédica cristã não terá vida por muito tempo. E esperar pra ver. Ressalto, porém, que o fracasso atual da pregação não está acontecendo por acaso. Vários fatores estão comprometendo sua eficiência e eficácia.

Por que a Pregação Está em Crise? Quais São os Principais Responsáveis?

A crise da pregação não ficou circunscrita às denominações tradicionalmente históricas. Atingiu em cheio também as comunidades de confissão pentecostal, especialmente aquelas de segunda geração. Presumo, porém, que a situação é mais grave nas igrejas neopentecostais; basta observar o conteúdo de tais mensagens para entender minha pressuposição.

Enquanto alguns pregadores de igrejas históricas engessaram suas mensagens porque não querem atualizar seus métodos discursivos, alguns oradores pentecostais destacam-se exatamente porque são expertsem inovação discursiva. Um problema grave, nesse caso, é falta de conteúdo bíblico e teológico; quanto a vários pregadores da ala neopentecostal (que segundo as últimas estatísticas é o que mais cresce no Brasil), a deficiência crucial também está no conteúdo da mensagem: suas “prédicas”, se é que posso assim classificá-las, são meras citações de textos fora do contexto que prometem ao povo sucesso financeiro, saúde, felicidade plena, etc.

Não é sem razão que boa parte dos sermões pregados atualmente não ajuda a igreja a adorar a Deus (na vida e no culto!), não favorece a evangelização, não edifica os santos nem incentiva à ação social (aréa esta imprescindível num país com tamanhas desigualdades sociais, como o Brasil). E qual é a utilidade de um sermão que não traz à memória da Igreja suas funções cruciais nem a capacita a realizá-las, conforme os propósitos de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador?

Após pesquisar algumas obras de especialistas neste assunto cheguei a algumas conclusões. As mesmas, conquanto tenha o respaldo de outros pesquisadores, podem ser percebidas por qualquer pessoa atenta. A seguir ressaltarei sucintamente quatro fatores que estão comprometendo a pregação cristã. Confira-os:

  1. Falta de conversão genuína dos próprios pregadores.
  2. Excesso de “espiritualidade” (e falta de preparo).
  3. Desprezo à capacitação bíblica e teológica.
  4. Pluralismo e pragmatismo religioso: diluir a Palavra de Deus para não perder fiéis.

1. Falta de Conversão Genuína dos Próprios Pregadores

O descompasso entre a prédica e a vida do pregador é um dos principais responsáveis pelo fracasso da pregação evangélica em nossos dias. A sociedade está saturada de gente que prega, mas não vive, fala, mas não faz. E tolice pensar que todos aqueles que pregam a Palavra do Eterno também praticam-na. Grassa nas igrejas evangélicas os oradores profissionais, animadores de auditórios, pregando sermões com as piores motivações possíveis: ganância, inveja, sede de poder, busca de popularidade, etc. E, uma motivação pecaminosa seguida de um comportamento similar, só poderia ser trágico.

Al Martin alertou que todos os fracassos na pregação de nossos dias envolvem, basicamente, as falhas do homem que prega e da mensagem que ele anuncia. E a menos que queiramos degradar a pregação ao nível de mera arte da elocução, nunca podemos olvidar-nos de que o solo onde medra a pregação poderosa é a própria vida do pregador. Essa é a grande questão que faz a arte da pregação ser diferente de todas as demais artes de comunicação. 2

César Cézar reitera que não existe nada que pregue mais alto do que uma vida vivida segundo a vontade do Senhor, cheia de testemunho, repleta de experiências que enriqueçam até o mais indouto ouvinte.3

Hans Ulrich Reifler, autoridade neste tema, arremata: O pior que pode acontecer ao pregador do evangelho é proclamar as verdades libertadoras de Cristo e, ao mesmo tempo, levar uma vida arraigada no pecado e em total desobediência aos princípios da Palavra de Deus. Por isso, Paulo escreveu: “(…) esmurro o meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1 Co 9.27).4

O Dr. Russel Shedd, pregador raro, ao destacar a autoridade da Palavra, diz: “Mostre-me um crente que vive santa e piedosamente e eu lhe mostrarei uma pessoa que leva a Bíblia a sério. Karl Rahner disse que os cristãos são a razão de existirem ateus no mundo. “Aqueles que proclamam Deus com a boca e o negam com o estilo de vida é o que mundo incrédulo, acha incrível”.5

2. Excesso de “Espiritualidade” – Desculpa Para Não Estudar a Palavra de Deus com Zelo e Constância!

Este fator é oposto ao anterior. Se há, de um lado, pregador das Boas Novas fracassando na exposição da mensagem por falta de genuína conversão de vida, também há, de outro, um grupo igualmente significativo tornando-a infrutífera por se achar “espiritual”, “santo”, “puro” demais a ponto de não precisar estudar a própria Bíblia.

Há, sim, curiosa e lamentavelmente, “pregador” que presume erroneamente que sua “santidade” basta para transformá-lo num “gigante do púlpito”. Imagina que quando tiver a oportunidade de pregar uma mensagem precisa somente abrir a boca e as palavras divinas, inspiradas pelo Espírito Santo, sairão naturalmente. Pensa que, mesmo jamais fazendo sua parte, o Espírito Santo lhe dará uma unção especial e o sermão será um sucesso retumbante. Ledo engano! Esta mentalidade displicente precisa ser corrigida urgentemente!

Não há dúvida de que a “santidade” é uma exigência de Jesus Cristo a qualquer pessoa que, tocada pelo Espírito Santo, confessa-o como Senhor e Salvador e decide servi-lo. Em Lucas 14.25-33 há algumas condições imprescindíveis para o discipulado:

  1. Um amor sem rival (afeições do coração).
  2. Levar a cruz (a conduta no viver).
  3. Uma entrega sem reservas (bens pessoais).6

Novidade de vida é, sobretudo, característica de quem de fato renasceu. O êxito na prédica bíblica, no entanto, depende também de outros fatores: um deles é o estudo minucioso das Escrituras.

John Calvino, o egrégio reformador, declarou com veemência: “Ninguém chegará a ser bom ministro da Palavra de Deus a não ser que seja, em primeiro lugar, um estudioso da mesma”. Charles H. Spurgeon, um dos maiores pregadores de todas as épocas, acrescentou: “Aquele que cessou de aprender cessou de ensinar. Aquele que já não semeia na sala de estudos, não mais semeará no púlpito”.7

Pregador algum terá a aprovação de Deus se não for santo; e, pregador algum, terá a legitimação do público se preparar! Junte, então, as duas coisas! Faça, pregador, uma junção de zelo e inteligência, santidade e capacidade, poder e saber, pregação e prática…

3. Falta de Capacitação Bíblica e Teológica

Durante muitas décadas parte considerável das igrejas evangélicas brasileiras desprezou a capacitação bíblica e teológica. Julgava tais práticas irrelevantes e, em alguns casos, perniciosas à manifestação do Espírito Santo.

Presumindo que a “letra” poderia sufocar a espiritualidade do rebanho (e por ainda não ter conseguido se libertar de algumas ideias oriundas do catolicismo romano, principalmente aquela que alegava ser exclusividade da liderança religiosa a capacidade de estudar, assimilar e ensinar a Palavra de Deus), repudiou-se categoricamente o estudo bíblico e teológico e disciplinas afins.

Tal postura não atenuou a expansão quantitativa da Igreja no Brasil; revelou, no entanto, sua profunda deficiência bíblica, teológica e prática. A Bíblia, conforme foi dito na disciplina de Hermenêutica, ainda é um livro desconhecido para muitos evangélicos. Falta leitura sistemática, interpretação correta e prática condizente. O numericismo, em suma, não favoreceu o conhecimento bíblico-teológico.

Pastores, teólogos, sociólogos, entre outros, concordam que o vertiginoso crescimento numérico da Igreja Evangélica Brasileira revelou sua capacidade de arregimentar novos súditos, bem como sua visível fragilidade bíblica, teológica, doutrinária e prática. 8

O Dr. Wander de Lara Proença, pesquisador deste tema, cita alguns dos principais fatores que ocasionam tal situação:

  1. Facilidade para se exercer o pastorado no Brasil (pessoas ainda neófitas ou sem o mínimo de preparo bíblico e teológico auto intitulam-se pastores/as, alugam um salão e logo passam a ter um grupo de seguidores).
  2. Interesse em fazer a igreja crescer a qualquer preço (líderes, seduzidos pela tentação dos números, tornam superficial o ensino da Palavra).9

Imagina, então, o que acontece quando há facilidade para se exercer o pastorado (além de fácil acesso, é promitente), o clima é marcado pela competição e a concorrência, os pressupostos capitalistas (números são indicadores de sucesso) moldam a visão e ação dos pregadores? O resultado está diante dos olhos de quem quer ver.

4. Pluralismo e Pragmatismo Religioso: Diluir a Mensagem de Deus Para Não Perder Fiéis!

Outro problema gravíssimo que a pregação autêntica da Palavra de Deus enfrenta em nossos dias é movimento filosófico-teológico; mencionarei, apesar da existência de outros, o pluralismo. Seus pressupostos adentraram sorrateiramente os portais cristãos e, alteraram, inclusive, o conteúdo da prédica. A mensagem, que deveria preservar os ensinos de Jesus e dos apóstolos, não passa de um discurso que apenas promete sucesso econômico, saúde física e bem-estar à pessoa que assume o papel de herdeira de Deus. Este é um dos fatores que estão no subsolo da conversão em massa nas igrejas evangélicas brasileiras atualmente.

Para piorar a situação parte da liderança cristã, que infelizmente já ingressou no ministério tendo uma motivação pecaminosa (ganhar dinheiro, ter visibilidade, projeção social, etc), vendo que o homem pós-moderno tem a disposição várias opções e pode fazer suas escolhas preferenciais, entrou pra valer na competição. Não aceita perder fiéis para os seus concorrentes seja ele tradicional, pentecostal ou neopentecostal. Parece que vale tudo: desconstruir a imagem do concorrente através de programas radiofônicos e televisivos, jornais, revistas, livros… e, simultaneamente, usar os recursos midiáticos, para exaltar a eficiência e eficácia da sua própria marca no afã de manter os seus, atrair novos, e arrancar alguns adeptos que estão vinculados à concorrência. Ademais, como diz Rubem Amorese, perder é um péssimo negócio, afinal o desligamento de uma pessoa da igreja traz vários prejuízos: perde-se em animação e movimento; perde-se prestígio diante de outros ministros da cidade; perde-se sua capacidade de influir na política local; perde-se, na geração de receita.

As principais minudências do pluralismo, mesmo o religioso, são as vastas alternativas oferecidas ao homem. O problema é quando o pregador dilui a mensagem de Deus para “fidelizar” a clientela. Logo igreja vira empresa, púlpito vira balcão, crente vira cliente, sacerdócio vira negócio, vocação vira profissão, pastor vira mero gestor… A busca por números a qualquer preço tem levado à ruína milhares de oradores. E não é somente no Brasil.

Warren W. Wiersbe exortou que são numerosos os erros cometidos quando o objetivo do líder é apenas “conseguir resultados”.

Em primeiro lugar, a pessoa preocupa-se com números. Depois começa a substituir a realidade espiritual por estatísticas, o que é semelhante a alguém ler a receita em vez de alimentar-se. Quantas pessoas estiveram presentes? Quantas se decidiram? Quantas se tornaram membros? De quanto foi a oferta? Todas essas coisas eram mais importantes do que se estávamos ou não glorificando a Deus durante a reunião. Não demorou muito para que a igreja deixasse de ser considerada pessoas em assembleia; tornou-se nomes e números num arquivo e, mais tarde, num computador. As pessoas já não eram uma finalidade em si mesmas; tornaram-se meios para um fim – conseguir multidões maiores e mais resultados”.

Howard Crosby, chanceler da Universidade da Cidade de Nova Iork, há décadas já havia denunciado que as as igrejas estavam cheias de apelo aos desejos carnais e aos paladares estéticos; oratória brilhante, música científica, tópicos sensacionais e bancos de igrejas modernos são iscas para atrair as pessoas; e, pior, uma igreja é chamada próspera quando esses dispositivos miseráveis fazem sucesso.

“(…) Expedientes humanos são muito ilusórios e atrativos, mas, infelizmente, muitos pregadores os empregam. Eles pensam que atrairão multidões e encherão os bancos da igreja; e, na verdade, isso até pode acontecer, mas estes não são os objetivos para os quais o Senhor enviou seus arautos. O sucesso não deve ser calculado por meio de casas cheias e aplauso popular, mas por meio de corações convictos e convertidos, assim como pelo fortalecimento da fé e da piedade do povo de Deus”.

Esses são, em suma, alguns fatores responsáveis pela crise.