Dizimar e ofertar nada mais é que reconhecer o senhorio de Deus sobre os bens materiais sob administração do homem.

INTRODUÇÃO

– Na sequência do estudo de pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido alvo de distorções da “teologia da prosperidade”, estudaremos hoje a doutrina bíblica dos dízimos e ofertas.

– Ao contrário do que ensinam os “teólogos da prosperidade”, dízimos e ofertas não são ingressos para uma vida regalada, nem instrumentos de barganha para com Deus.

I – O ENSINO BÍBLICO A RESPEITO DOS BENS MATERIAIS

– Para que possamos entender o que a Bíblia diz a respeito da conduta do ser humano frente aos bens materiais é imperioso verificarmos a própria declaração primeira da revelação de Deus ao homem. Em Gn.1:1, a Bíblia deixa claro que Deus criou os céus e a terra, o que repete em Gn.1:31-2:3. Assim, tanto no início quanto no término do relato da criação, a Palavra não deixa qualquer dúvida de que Deus é o Senhor do Universo, ou seja, o dono de tudo.

– Assim, não deve causar espanto a declaração do salmista (Sl.24:1), segundo a qual “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam”. Com efeito, por ter criado o mundo e tudo o que nele há, Deus é o legítimo dono de todas as coisas.

– Se isto é assim, o homem é apenas um administrador da criação. Com efeito, ao criar o homem e a mulher, Deus concedeu a eles o domínio sobre toda a criação (Gn.1:26,28), domínio este que não representa senhorio, mas uma autoridade, uma autorização para administrar a criação terrena (observemos que no mandato dado ao ser humano por Deus não se incluem as criações celestiais. É por isso que o salmista afirma que o homem foi feito pouco menor do que os anjos – Sl.8:5).

– Partindo deste pressuposto, não pode o homem achar-se dono de coisa alguma sobre esta terra e deveria comportar-se desta maneira, ou seja, plenamente consciente de que é apenas um administrador daquilo que Deus lhe deu. É exatamente esta a consciência do cristão, a de que é apenas um mordomo, um despenseiro de Deus ( I Co.4:1,2; Tt.1:7; I Pe.4:10).

– Assim, se temos a capacidade, dada por Deus, de sujeitarmos à nossa vontade os bens existentes na natureza (e bem, aqui, é tudo o que pode suprir as nossas necessidades e nos trazer alguma utilidade) e isto é o princípio da propriedade (por isso o jurista alemão Windscheid conceituava propriedade como a sujeição absoluta de algo à vontade de uma pessoa), ao mesmo tempo devemos observar que a propriedade não é um fim em si mesma, mas tem a função de, por meio desta sujeição, tornarmo-nos um instrumento da vontade divina.

– É, por isso, que a propriedade deve ser considerada como um direito natural, um direito inerente à pessoa humana, devendo ser respeitada e garantida, não tendo cabimento nem qualquer respaldo bíblico qualquer iniciativa que tenda a suprimi-la dos indivíduos, mesmo se o fizer em nome de uma suposta igualdade social (como o fizeram os comunistas marxista-leninistas no século XX), por ser algo contrário à ordem estabelecida por Deus ao gênero humano, mas, ao mesmo tempo, não se pode conceber uma propriedade que não tenha por objetivo a realização da vontade divina na humanidade. Assim, tão contrário à Bíblia como a supressão da propriedade privada é a sua exacerbação, a busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas e de posses em detrimento do próximo e da sociedade.

OBS: “…O capitalismo, como princípio básico, sem os seus abusos, concorda com os ideais do cristianismo. O conceito de propriedade privada era uma das vigas mestras do judaísmo. Cada família contava com a sua propriedade particular, protegidas pelas leis da herança. O ideal era e continua sendo que cada homem tenha a sua própria vinha e a sua própria figueira ( I Rs.4:25; Mq.4:4). Porém, é deveras instrutivo ver como a legislação mosaica também defendia os direitos dos pobres. De acordo com o cristianismo, o conceito de propriedade privada não somente é exposto como normal, mas, igualmente, como meio de proteger o indivíduo de medidas ditatoriais do Estado (…)O Novo Testamento, naturalmente, combate os típicos abusos do capitalismo, como a desconsideração pelos direitos do indivíduo e a escravização dos mais pobres pelos ricos, mediante medidas econômicas.(…)Adam Smith, que tinha um ponto de vista otimista da natureza humana, supunha que, – finalmente, surgiria do mercado livre uma espécie de harmonia automática, visto que o homem seria essencialmente bom em sua natureza, a qual controlaria os seus interesses pessoais. Mas o cristianismo ensina que isso só começa a ser curado com a conversão espiritual. Esse preceito, pois, volta-se tanto contra os abusos do capitalismo como contra o ateísmo do comunismo, sistema este que supõe que o mundo é governado por princípios econômicos, e não por princípios espirituais.” (CHAMPLIN, R.N. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, p.646).

– Assim, ao mesmo tempo em que a Palavra de Deus garante a cada ser humano a possibilidade de sujeitar bens de acordo com a sua vontade e de deles usufruir para a satisfação de suas necessidades, também estabelece que o objetivo do homem e da mulher não deve ser o acúmulo de riquezas para si ou a sua exaltação por causa dos bens que tenha a seu dispor, mas que tudo isto seja um instrumento para que a glória de Deus se manifeste na administração destes bens que lhe forem confiados por Deus, o único e verdadeiro dono de todas as coisas.

– Entretanto, o homem sem Deus e, consequentemente, sem uma dimensão da eternidade, tem sua vista obscurecida pelas coisas temporais e passageiras e, portanto, acaba se deixando dominar pela avareza, pelo desejo de acumulação de riquezas, que é uma insensatez total, como deixou bem claro Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21), “porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”(Lc.12:15).

– Lamentavelmente, não são poucos os que acabam se perdendo na caminhada para o céu por causa dos bens materiais e por causa do dinheiro. A Bíblia revela que a ganância pelas coisas, que a avareza tem sido um obstáculo para muitos alcançarem a salvação, como nos casos do mancebo de qualidade (Mt.19:22; Lc.18:23), de Judas Iscariotes (Lc.22:3-6; Jo.12:4-6), de Ananias e Safira (At.5:1-5,8-10),  de Simão (At.8:18-23) e de muitos outros, como afirmou Paulo em sua carta a Timóteo (I Tm.6:9,10).

– O dinheiro não é um mal em si.  A riqueza é uma bênção de Deus, tanto que Deus a concedeu a Salomão (I Rs.3:13), mas, e aqui está um caso típico, não podemos pôr nas riquezas o nosso coração (Mt.6:19-21). Devemos, sempre, buscar servir a Deus e Lhe agradar. Esta deve ser a intenção do cristão. Se Deus nos conceder a riqueza, que nós a usemos para agradar a Deus. Se nos der a pobreza, que nós a usemos para agradar a Deus.

O importante é que não façamos dos bens materiais o objetivo e a intenção de nossas vidas. Quem passa a viver em função dos bens materiais, quem passa a pôr o seu coração nos tesouros desta vida, passa a ser um avarento, um ganancioso e, como tal, será um idólatra (Cl.3:5) e, assim, está fora do reino dos céus (Ap.22:15).

– Neste ponto, devemos, pois, contrariar ensinamentos a respeito da “opção pelos pobres”, que tem sido o mote da teologia católico-romana, principalmente após o Concílio Vaticano II, com especial ressonância na Igreja Romana da América Latina. Em momento algum, na Bíblia Sagrada, Deus manifesta Sua opção em favor dos pobres, em detrimento aos ricos. A Bíblia, aliás, expressamente, afirma que Deus fez tanto o pobre quanto o rico (Pv.22:2) e seria injusto caso preferisse um ao outro, se ambos são obra de Suas mãos.

– Buscam os idealizadores desta “opção pelos pobres” fundamentação na passagem do mancebo de qualidade em que Jesus afirma que dificilmente um rico entrará no reino dos céus (Mt.19:212-26). Tal afirmação de Jesus é uma constatação, porquanto a existência de riquezas, diante da natureza pecaminosa do homem, faz com que o ser humano seja mais facilmente enganado pela sensação de autossuficiência, que conduz à perdição eterna, mas, em momento algum, revela que Deus tenha feito uma opção pelos pobres em detrimento dos ricos. Tanto assim é que a Bíblia está repleta de homens que gozavam de confortável situação financeira e que serviam a Deus, como são exemplos, para ficar só no ministério de Jesus, José de Arimateia, Nicodemos e as mulheres que acompanhavam o Mestre e que, diz a Bíblia, serviam-nos com suas fazendas, ou seja, com seus recursos financeiros.

– A Bíblia nos mostra que a aquisição de bens materiais é uma necessidade para o homem depois da sua queda, pois deverá, do seu trabalho, obter o seu sustento (Gn.3:19). Deste modo, a obtenção dos meios necessários para a nossa sobrevivência deve vir do trabalho. É por isso que Paulo, numa afirmação dura, mas que é a verdade nua e crua, disse que “se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (II Ts.3:10), máxima que foi, inclusive, incorporada em várias Constituições de países comunistas no século XX, mas que traduz um princípio bíblico.

– Portanto, a primeira fonte de aquisição de bens materiais deve ser o trabalho, devendo, pois, o cristão valorizar o trabalho e buscá-lo como forma de sustento seu e de sua família. É, aliás, este traço da ética cristã que foi objeto de estudo do sociólogo alemão Max Weber, que, em seu livro, “A Ética Protestante e o Capitalismo”, que foi considerado um dos principais livros do século XX (foi considerado a maior obra de ciências humanas daquele século), entendeu que, graças a este valor dado pelos cristãos ao trabalho, em virtude do que diz a seu respeito a Bíblia Sagrada, que foi possível o surgimento dos países desenvolvidos da Europa Ocidental (Inglaterra, França, Holanda e Alemanha, fundamentalmente) e, posteriormente, a grandeza dos Estados Unidos da América.

– Assim, o cristão deve, sempre, dignificar o trabalho, valorizá-lo e, através dele, obter o seu sustento, levantando-se contra toda estrutura sócio-econômica que venha a desprestigiar o trabalho. Neste passo, é dever de todo cristão incentivar e estimular o aumento da oferta de emprego, bem como resistir a toda prática que vise a supressão de postos de trabalho sem a devida compensação. As políticas compensatórias, ademais, não devem ser de cunho meramente assistencialista, mas devem sempre ser tais que incentivem e estimulem a busca de novos empregos, ainda que se tenha de preparar convenientemente o desempregado.

– Neste ponto, aliás, como a busca pelos bens materiais deve ser com vistas à satisfação de Deus e não a uma incessante corrida pelo prazer, pelo luxo e pela autossuficiência, temos que há uma clara distinção entre a ética cristã e a ética do capitalismo. O capitalismo é um sistema econômico em que se busca, sempre, o máximo lucro com o menor custo, com o aumento incessante da produção e do consumo. Dentro da lógica do capitalismo, é preciso sempre produzir cada vez mais, com o maior lucro e com a redução crescente dos custos. A ética cristã, entretanto, é bem diversa: não há que se buscar o máximo lucro, mas, bem ao contrário, deve-se buscar o suficiente para se ter uma vida digna, uma vida sossegada, mas sem a “febre do ouro” que tem dominado o mundo de hoje. Diz o sábio Salomão que devemos, sempre, buscar a “porção acostumada de cada dia” (Pv.30:8,9) e ninguém melhor do que Salomão para nos afirmar que a posse de riquezas em demasia não representa bem algum para a alma humana…

– Não se está aqui afirmando que o cristão não deve procurar uma melhoria de vida, um melhor emprego, capacitar-se para obter melhores posições, ou seja, em absoluto se nega ao servo de Deus a busca de melhores oportunidades, um progresso maior, até porque o filho de Deus não é cauda, mas cabeça (Dt.28:13), mas se está afirmando, isto sim, que não devemos colocar como alvos únicos e exclusivos de nossas vidas uma prosperidade material, como objetivo as benesses desta vida (Pv.27:24). Nunca nos esqueçamos que, se cremos em Cristo só para esta vida, seremos os mais miseráveis de todos os homens! (I Co.15:19).

– Quando o homem tenta progredir na vida material tendo consciência de que existe uma dimensão eterna, de que é mero administrador do que Deus lhe confiou, ele jamais se comporta de forma nociva ao seu semelhante, jamais busca usar de todos os métodos, lícitos ou não, visando à acumulação de riquezas, pois tem pleno conhecimento de que nu saiu do ventre de sua mãe e de que nu terminará a sua existência (Jó 1:21; I Tm.6:7). Como dizem as Escrituras, aqueles que se envolvem na ilusão das riquezas, trazem para si somente males e problemas, já nesta vida, que dirá quando se encontrar com o reto e supremo Juiz de toda a terra (Pv.28:22; I Tm.6:9; Hb.9:27).

– Dentro desta perspectiva, o cristão deve, consciente de que o que tem amealhado de bens materiais, é para ser um instrumento de satisfação da vontade divina, administrar o seu patrimônio de forma a obter este agrado de Deus, fazendo-o conforme a Sua Palavra.

– Em virtude deste ensino bíblico a respeito dos bens materiais, vemos claramente que os propagadores do evangelho da prosperidade esquecem-se de dizer aos seus ouvintes  que, em vindo a prosperidade material solicitada, o “novo rico” não será um senhor de riquezas, não será sequer o proprietário de todos os bens que o Senhor lhe conceder.

– A mensagem do evangelho da prosperidade faz questão de alardear que Deus tem obrigação de nos dar bens e uma vida regalada, pois ” é o dono de toda prata e de todo o ouro” e que nós somos ” filhos do rei”, o que, em parte, é uma realidade e uma verdade constante das Escrituras, mas não dizem que, quando ganharmos toda esta prosperidade, o Senhor continua sendo Senhor, continua sendo o ” dono de todo o ouro e de toda a prata”, assim como, também, continua sendo o ” Rei dos reis” e ” Senhor dos senhores”, ou seja, ao contrário do que querem fazer crer os evangelistas da prosperidade, ser rico, ser próspero materialmente não é um privilégio ou um direito do cristão, mas, muito mais do que isto, é uma obrigação a mais que o servo do Senhor assume diante do seu Deus. Quem tem riquezas, passa a ser mordomo destas mesmas riquezas diante do Senhor e, como tal, assume muitas outras obrigações que, se pobre fosse, não teria diante de Deus.

OBS: A partir desta ideia é que se desenvolveu o conceito da ” função social da propriedade”, concebida a partir da doutrina social católica e que encontrou sua expressão jurídica nos ensinos do jurista francês Léon Duguit e que se encontra, hoje, em todas as constituições e legislações dos países, inclusive na Constituição da República Federativa do Brasil. Em nosso país, a propriedade só é considerada direito se atender à sua função social, ou seja, se cumprir com os objetivos maiores a respeito da circulação de bens e de riquezas em nossa sociedade.

– Já os judeus, na sua compreensão ainda parcial da revelação divina, tinham obtido esta concepção. Diz o enciclopedista judeu Nathan Ausubel que os judeus acreditavam que “…se a pobreza existia, era principalmente a sociedade que deveria ser responsabilizada, uma vez que permitia a opressão dos pobres e fracos. Esta situação era tida como uma violação da lei natural, e a prática difundida da benevolência servia, meramente, como forma de expiação e aprimoramento. Quando o salmista cantava: ‘ A terra é do Senhor e tudo o que nela se encontra’, o princípio daquele direito estava claramente indicado. O mesmo princípio adquiriu força de lei no texto das Escrituras: ‘ Minha é a prata e meu é o ouro, disse o Senhor das Hostes’.

E., obviamente, uma vez que Deus havia dado a terra com ‘ todas as suas riquezas’ – a prata e o ouro – somente aos ricos e poderosos, os Sábios deduziam daí que Deus tinha uma dívida material para com os pobres que tinham sido deixados de mãos vazias. Por consequência, fazer com que essa dívida fosse paga aos pobres pelos ricos constituía um ato de ‘ justiça’ e, portanto, de ‘ virtude’ [ daí porque da palavra hebraica para caridade, a saber, ‘ tzedakah’, que tem este duplo significado de justiça e de virtude – observação nossa]. Além disso, acreditavam que quando Deus havia dado a riqueza aos abastados, não as havia entregue em caráter definitivo, nem como recompensa por suas ações ou por qualquer mérito especial.

Era somente para que a retivessem em custódia para os pobres! Os ricos seriam, assim, meros agentes fiscais de Deus, por assim dizer, em favor dos pobres! Estender a tzedakah aos pobres ‘ com todo o coração’ tinha, portanto, a significação intrínseca de um ato de ‘ virtude’. Daí ter-se desenvolvido o axioma que, se os ricos fossem realmente honestos e tementes a Deus, distribuiriam prazerosamente a riqueza que retinham em custódia de Deus, entre os inúmeros credores de Deus – os pobres, os doentes, os desamparados, os necessitados etc.…” (Caridade. In: JUDAICA, v.5, p.114).

– Como se pode verificar, portanto, a prosperidade material traz ao homem uma nova obrigação, qual seja, a de repartir com o próximo esta sua prosperidade, de maneira a que haja uma melhor distribuição de renda e sejam amenizadas as necessidades do outro. A prosperidade que tem sido pregada por aí é para que alguém viva de forma regalada e despreocupada, desfrutando de um “paraíso terrestre”, algo que apenas revela o grau de egoísmo e de amor do dinheiro destes pretensos ” filhos de Deus conscientes de seus direitos”.  Na verdade, como ensinou o grande reformador João Calvino, “…não há um caminho mais direto (à gratidão)  do que o de tirarmos nossos olhos da vida presente e meditar na imortalidade do céu. Disto se deriva(…) que devemos aprender a suportar a pobreza quieta e pacientemente, e desfrutar a abundância com moderação. Aquele que nos ordena a que usemos este mundo como se não o usássemos, não somente nos proíbe toda falta de moderação em comer e beber, nos prazeres indecorosos e excessivos, na ambição, no orgulho e na fastuosidade em nosso lar, como também em cada cuidado e afeto que faça diminuir nosso nível espiritual ou que ameace destruir nossa devoção.…” (A verdadeira vida cristã, p.73).

– Nada é mais contrário ao cumprimento da mordomia da prosperidade do que o cristão abençoado pelo Senhor passar a ostentar sua riqueza e a viver regaladamente, esquecido dos mais necessitados e da moderação, que deve acompanhar, como qualidade, o verdadeiro e sincero servo do Senhor. Assim, a prosperidade, antes de ser um privilégio para o cristão, é antes uma nova obrigação, pois a posse de riquezas torna o seu detentor como responsável direto para a melhoria das condições de vida dos menos afortunados. Na história do rico e Lázaro, vemos como o Senhor prestou muita atenção à forma como o rico tratou o pobre mendigo Lázaro durante a sua existência! (Lc.16:19-21,25).

– Se quisermos ser prósperos materialmente, podemos pedi-lo a Deus que, segundo a Sua vontade (pois não tem qualquer obrigação de enriquecer materialmente quem quer que seja), poderá nos conceder esta bênção, mas, lembremo-nos de que, uma vez tornados ricos, assumiremos a mordomia da prosperidade e deveremos responder diante de Deus pelo uso que fizermos das riquezas que angariarmos.

II – O SIGNIFICADO DO DÍZIMO NA BÍBLIA

– Dízimo é palavra portuguesa que traduz palavras hebraicas e gregas das Escrituras cujo significado é o de “décima parte”, “um décimo”.  Dízimo, portanto, segundo a origem da palavra, quer dizer a décima parte, um décimo de algo. Assim, se dividirmos uma laranja em dez partes, cada uma delas será um dízimo da laranja.

– O dízimo é um ato pelo qual alguém entrega a melhor porção de seu patrimônio para Deus, a fim de ser destinado ao sustento daqueles que estão envolvidos no trabalho do Senhor, como reconhecimento de que Deus é o Senhor de todas as coisas, em agradecimento por Deus ter provido o sustento daquele que está a dizimar, bem como um ato de fidelidade e testemunho do compromisso que existe no relacionamento entre Deus e aquele que está a fazer a oferta.

– O dízimo, portanto, apresenta-se como um ato pelo qual o homem reconhece que não é dono de coisa alguma que amealhou com o seu trabalho. É por isso que o dízimo é uma demonstração material, um ato efetivo e concreto de mordomia, pois, embora tenha angariado os recursos que chegam à sua mão com seu suor, o homem, ao entregar a décima parte na obra de Deus, diz, com este gesto, que está a reconhecer que do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Sl.24:1).

– O dízimo, também, é um ato de gratidão a Deus, de agradecimento pela concessão dos meios pelos quais se podem amealhar os recursos financeiros necessários à nossa sobrevivência. Quando dizimamos, estamos agradecendo a Deus, porque Lhe devolvemos a décima parte do que Ele nos deu, para que a Sua obra, que, como uma atividade feita entre os homens, depende de recursos financeiros para a sua manutenção, possa ser realizada. Deus tem escolhido homens e mulheres para que se dediquem ao reino de Deus, para que se envolvam com as tarefas destinadas à salvação e aperfeiçoamento espiritual das vidas e, por causa deste envolvimento, tais pessoas não têm condições de obter, para si, um sustento, de efetuar um trabalho material que lhes possa proporcionar o pão de cada dia. Quando dizimamos, estamos permitindo que estas pessoas possam continuar atendendo ao chamado do Senhor e supram as suas necessidades. Demonstramos estar agradecidos a Deus quando mantemos o sustento daqueles que por Ele foram chamados para dedicação integral à obra do Senhor.

– O dízimo também é um ato de fidelidade e de compromisso com Deus, pois, à medida que separamos parte do nosso patrimônio para o sustento da obra do Senhor, com certeza estamos demonstrando que não somos indiferentes à obra de Deus, damos uma prova concreta de que estamos comprometidos e envolvidos com os planos e propósitos de Deus para a humanidade. A fé sem obras é morta (Tg.2:17) e, quando dizimamos, estamos praticando uma atitude que mostra que temos uma verdadeira fé, revelamos que amamos a Deus. Não somos indiferentes, como eram os homens dos dias do profeta Malaquias.

– O dízimo, também, é uma demonstração de honestidade, um indicador de moralidade. Com efeito, ao dizimarmos, reconhecemos, como dissemos, a soberania de Deus sobre todas as coisas, bem assim a propriedade divina sobre os bens materiais. Quando dizimamos, estamos devolvendo a Deus o que Lhe pertence, não retendo aquilo que não é nosso, mas é devido ao Senhor.

– Visto o que o dízimo é, devemos, agora, observar o que o dízimo não é. O dízimo não é um investimento, como muitos têm pregado por aí. Verdade é que Deus tem prometido bênção de abastança para os dizimistas (Ml.3:10), mas isto não quer dizer que devemos dizimar visando obter maiores lucros, como se o dízimo fosse uma aplicação financeira ou um investimento de grande retorno.

– Os teólogos da prosperidade têm, muitas vezes, dito que o dízimo ou “o sacrifício” (nome como muitos têm denominado a contribuição bem superior à décima parte, envolvendo, não poucas vezes, todo o patrimônio de alguém, ” o seu tudo” , como dizem) é o caminho mais rápido e eficaz para a riqueza e para a ampla prosperidade material. Não devemos dizimar para nos tornarmos mais ricos, mais prósperos, mas devemos dizimar em gratidão a Deus, em reconhecimento à sua soberania. Dízimo não é investimento, nem um modo santo de se canalizar a ganância, algo que é próprio dos mais miseráveis de todos os homens (I Co.15:19).

– A bênção da abastança não é o acúmulo de riquezas, mas, sim, a suficiência, a vida digna e razoável sobre a face da Terra, o necessário para a sobrevivência, a “porção acostumada de Agur” (Pv.30:8), algo que o apóstolo Paulo reiterará ao falar da fidelidade nas contribuições, em II Co.8:14,15. Por isso, aliás, o mesmo profeta Malaquias fala da repreensão do devorador (Ml.3:11), ou seja, de todo fator que venha a trazer carência e necessidade aquém do mínimo necessário, como vem, por exemplo, nos dias de Joel (Jl.1).

– Dízimo não é uma fonte de obrigações para Deus. Muitos acham que, dizimando, criam para Deus obrigações. Assim, entregam seus dízimos porque, assim, Deus estaria obrigado a lhes dar bênçãos de prosperidade material, de saúde ou, até mesmo, de salvação. Pensam que o dízimo vincula Deus a seus caprichos, desejos e aspirações. Pensam até que o dízimo é o caminho para sua salvação. Para estes que assim pensam, podemos fazer uma pequena ilustração. Digamos que sejamos donos de dez bolas e que as confiemos a uma criança nossa conhecida, mandando que ela tome conta delas para nós. Pouco tempo depois, a criança vem e nos entrega uma das dez bolas, e nós a recebemos. Por um acaso, surgiu, aqui, alguma obrigação de nossa parte em relação à criança por causa da nossa bola que ela nos devolveu?  Logicamente que não! Assim ocorre com Deus. Deus recebe de volta algo que Lhe pertence. Estaria Ele, então, obrigado a nos fazer algo que queiramos por causa desta devolução? Deus prometeu dar aos dizimistas a bênção da maior abastança e, com relação a isto, há um dever divino, não em relação a nós ou por causa da nossa vontade, mas em virtude de Seu próprio caráter moral. Maior abastança não significa outra coisa senão ter além do necessário, além do suprimento das necessidades. Vimos, aliás, que, quando isto ocorre, passamos a ter uma obrigação a mais da parte de Deus, qual seja, a de socorrer os necessitados. Assim, ter tantas bênçãos que não tenhamos onde guardá-las (como diz tanto o texto da NVI de Ml.3:8 quanto a própria tradução inglesa do rei Tiago), não é viver regaladamente e no luxo, como propalam os teólogos da prosperidade, mas assumir o encargo de auxiliar os menos afortunados.

– Dízimo, também, não é meio de salvação. Todo salvo é dizimista, mas nem todo dizimista é salvo. Querer dizer que, com a entrega do dízimo, estaremos dando passo importante para a nossa salvação é o mesmo que dizer que, pelas obras, nós seremos salvos, é ressuscitar o odioso conceito da doutrina das indulgências que fez com que Deus levantasse homens como Martinho Lutero para recuperar a santidade e a biblicidade na Sua Igreja. O dizimista é alguém que compreende que o Senhor é o dono de todas as coisas, mas não é, por isso, alguém que deixe Deus governar a sua própria vida.

– O próprio Jesus mostrou que não se pode fazer qualquer oferta a Deus sem que, antes, não se esteja em santidade (Mt.5:23,24). Esta é a maior demonstração de que nada podemos oferecer ao Senhor se não estivermos em comunhão com o Senhor, amando a Deus, cumprindo Seus mandamentos (Jo.14:23; 15:14) e, simultaneamente, amando ao próximo (I Jo.4:20,21).

– Dízimo não é um meio de enriquecimento de inescrupulosos e mercenários da fé. Muitos têm se aproveitado da doutrina do dízimo para amealharem riquezas e fazer do evangelho um negócio rentável e cada vez mais crescente. Esta possibilidade não passou despercebida do Senhor que, em Sua Palavra, já nos primórdios da fé cristã, já advertia os crentes que muitos seriam feitos negócio com palavras fingidas de pessoas inescrupulosas (II Pe.2:3). Antes mesmo de nossa dispensação, o profeta Ezequiel já indicara a existência de pastores infiéis, que têm como objetivo tão somente explorar as ovelhas (Ez.34:4). Todavia, não é por causa destes que devemos de deixar o nosso compromisso diante de Deus. Façamos a nossa parte, que é entregar os dízimos na casa do tesouro (Ml.3:10), ou seja, na nossa igreja local. Este dízimo é santo (Lv.27:32) e pertence a Deus, Que, certamente, tratará com aqueles que o tiverem a incumbência de administrá-lo, pois, além de perderem sua condição de pastores (Ez.34:9,10), melhor lhes fora, diz Jesus, que lhes pusessem ao pescoço uma mó de atafona e fosse lançado ao mar (Lc.17:1).

– O dízimo, pelo que verificamos, na Bíblia Sagrada, é muito mais do que uma despesa ou um tributo de dez por cento do que ganhamos, é muito mais do que uma simples cláusula contábil. Deus não precisa do nosso dinheiro para sustentar a Sua obra, pois é o dono de todo ouro e de toda a prata (Ag.2:8), mas é através do dízimo que revelamos aquilo que está dentro de nosso homem interior, o conceito que temos de Deus e de nós mesmos, se nos consideramos mordomos do Senhor ou “donos dos nossos próprios narizes”.

III – O DÍZIMO E A OFERTA NA BÍBLIA

– Pelo que podemos deduzir das Escrituras Sagradas, desde os primórdios da civilização, ainda na primeira geração de homens após a queda do Éden, havia o costume de se cultuar a Deus com a apresentação de produtos do trabalho humano, como demonstração de gratidão e de reconhecimento da soberania de Deus sobre todas as coisas. Assim, vemos Caim e Abel, os dois filhos mais velhos do primeiro casal, apresentando ofertas ao Senhor, num gesto que se infere fosse costumeiro e resultado do ensino dos pais a estes filhos. Entendemos, desta forma, que o primeiro casal tinha plena consciência de que Deus era o dono de todas as coisas e que o resultado do trabalho humano, que Deus dissera que seria penoso, era fruto da misericórdia divina que, apesar do pecado, não tinha deixado de amparar o homem.

– De pronto, pois, observamos que a oferta era apenas uma demonstração material de reconhecimento da soberania divina. Não se procurava agradar a Deus com bens, pois Deus, sendo o dono de todas as coisas, não precisava de qualquer bem que lhe seja trazido pelo homem, até porque o bem que, eventualmente, for trazido não é do homem, mas já é do Senhor (I Cr.29:11-14; Sl.24:1). Deus Se agrada do gesto de gratidão e reconhecimento, do que está no coração do homem, não do que está sendo apresentado em termos materiais. Tanto assim é que, ao indagar Caim sobre sua oferta, Deus diz que ele deveria ter feito bem, ou seja, não como um mero formalismo, não como um mero ritual, mas como algo espontâneo e que proviesse do fundo da alma, pois, somente neste caso é que haverá aceitação por parte do Senhor (Gn.4:7). No Novo Testamento, este Deus que não muda nem n’Ele há sombra de variação (Tg.1:17), torna a nos ensinar que Ele ama àquele que dá com alegria (II Co.9:7).

– Este gesto de reconhecimento da soberania divina através da entrega de uma parcela do produto auferido pelo trabalho, portanto, vem desde o início da história da humanidade e é encontrado, mais tarde, entre os povos do Oriente Próximo. Abraão, diz-nos a Bíblia, deu o dízimo de tudo a Melquisedeque, por reconhecer nele um sacerdote de Deus (Gn.14:20). Isto nos mostra, claramente, que o dízimo era um costume comum aos povos daquela época, pois, não só Abraão deu o dízimo a Melquisedeque, como este o recebeu, o que prova que se tratava de algo público e notório naquela época. Aliás, este costume é relatado pelo historiador grego Heródoto, conhecido como o “pai da História”, em sua obra “História”, em mais de uma passagem, com relação a diferentes povos.

– Pelo que se pode observar, portanto, o gesto de se dar parte do produto auferido pelo trabalho para a obra de Deus é algo que acompanha a própria história humana, tendo sido fixado o percentual de dez por cento como patamar mínimo de tal contribuição, daí porque ter sido tal parcela sido denominada de “dízimo”.

– O dízimo, observado que era por Abraão (o que, certamente, mostra que se tratava de prática já existente entre os caldeus que, por sua vez, eram os sucessores diretos da comunidade humana única pós-diluviana), passou a seus descendentes, de modo que vemos, logo em seguida, notícia de que Jacó também conhecia esta prática, tanto que a prometeu (Gn.28:22).

– Este pequeno relato histórico faz-se necessário porque há muitos que, hodiernamente, afirmam que o dízimo é um dispositivo previsto na lei de Moisés e que, portanto, não é algo que deva ser observado pela Igreja, que vive a dispensação da graça. Criticam as denominações evangélicas que adotam o dízimo, chegando, mesmo, a chamá-los de “judaizantes”, quando não de mercenários. No entanto, pelo que podemos verificar, não só pelas próprias Escrituras, como também na própria história da humanidade, o dízimo é uma instituição que já existia bem antes da lei de Moisés e que não está circunscrita ao povo judeu, o que faz cair por terra todas estas argumentações que são trazidas, às vezes, por pessoas bem-intencionadas, que querem impedir qualquer conotação materialista ao evangelho, mas que, no mais das vezes, apenas se afiguram como justificativas de pessoas que, tal qual nos dias de Malaquias, querem dar vestes teológicas à sua falta de amor a Deus

– Quando Moisés incluiu o dízimo na lei, por determinação divina, nada mais fez senão incorporar no código legal organizado uma prática que já era costumeira e adotada não só pelos israelitas, como por todos os povos então existentes. Como o dízimo, e isto nos mostram tanto Abraão quanto Jacó, tinha como finalidade a manutenção da obra de Deus, era preciso reconhecer a sua prática e destiná-la para o sustento da tribo de Levi e, dentre os seus membros, aos sacerdotes, já que estes não poderiam se dedicar senão ao serviço do Senhor.

– A primeira referência que a lei de Moisés faz aos dízimos encontra-se, precisamente, no livro de Levítico, onde estão as normas a respeito dos sacerdotes. O dízimo é tratado no final do livro, a partir do versículo 30 do capítulo 27. Isto é importante porque mostra que, embora Deus não tenha deixado de prever o sustento dos sacerdotes, que estavam envolvidos no culto a Deus, não deveriam pôr o sustento material como prioridade em suas vidas. Deus não deixa de cuidar do assunto, de providenciar os meios, antes de encerrar o código de normas e condutas do sacerdote, mas não coloca isto como algo que deva estar em primeiro lugar. Primeiro deveria vir o dever dos sacerdotes, seu serviço diante de Deus. Depois, o cuidado com o seu sustento.

– Lamentavelmente, muitos ministros têm cedido ao espírito materialista que impera nos nossos dias, buscando, antes de tudo, ocupar-se de como se sustentar, de como angariar meios para a sua sobrevivência, para só depois se ocupar do seu trabalho diante de Deus. O obreiro é digno do seu salário, mas devemos cuidar das coisas na mesma forma como Deus a estabelece em Sua Palavra.

– Segundo a norma dada no livro de Levítico, o dízimo de tudo deveria ser separado ao Senhor, pois lhe era santo. A destinação do dízimo, entretanto, encontra-se no livro de Números (Nm.18:20-32). O destino do dízimo deveria ser a tribo de Levi, pois a sua herança no meio do povo de Israel seriam, precisamente, os dízimos das demais tribos (Nm.18:21). Mas, ao mesmo tempo em que os levitas eram os beneficiários dos dízimos, também deveriam dizimar (Nm.18:26), pois também eles eram mordomos e tinham de reconhecer a soberania divina. Os dízimos dos dízimos eram destinados ao sumo sacerdote (Nm.18:28).

– Os dízimos eram, como se pode observar, destinados ao sustento dos levitas e dos sacerdotes. Esta é a destinação do dízimo segundo as Escrituras. Abraão já o havia dado para um sacerdote e, agora, Moisés determina que os dízimos tenham como finalidade o sustento da tribo separada para o serviço do Senhor, ou seja, a destinação dada pela lei mosaica não é uma inovação instituída por Moisés, não se trata de criação do legislador, nem de uma ordem divina circunscrita à dispensação da lei, mas, antes, é uma característica inerente à própria instituição do dízimo. Assim como dízimo é a décima parte, assim é destinado para o sustento daqueles que, por estarem envolvidos com as coisas de Deus, não têm condições para exercer um trabalho mediante o qual obtenham o próprio sustento.

– Em Dt.12:5-12, quando Moisés está a repetir a lei à geração que adentraria na Terra Prometida, torna a dizer que o local apropriado para a entrega dos dízimos era a casa do Senhor, reforçando, portanto, a finalidade de tal instituição.

– Mas, além de o dízimo ser determinado quanto à quantidade e quanto à finalidade, também era determinado quanto à qualidade. Dizia a lei de Moisés que se deveria oferecer “o melhor” (Nm.18:32), ” do melhor deles, a sua santa parte” (Nm.18:29). Bem ao contrário do que acontecia nos dias do profeta Malaquias, a lei prescrevia que somente poderemos demonstrar reconhecimento da soberania de Deus se a porção que separarmos para a obra do Senhor for a melhor, a de primeira qualidade. Não é outro o sentido, aliás, quando se diz que as “primícias da terra” devem ser levadas à presença do Senhor, “primícias” (Nm.18:12), aqui querendo dizer não só os primeiros frutos na ordem de aparecimento, como também na ordem da qualidade (Pv.3:9).

– Em o Novo Testamento, Jesus sancionou a prática do dízimo. Na sua duríssima crítica aos fariseus, um dos poucos pontos que Jesus aprovou em sua conduta foi, exatamente, o de serem rigorosos no dízimo. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt.23:23).

– Como se percebe nas declarações de Jesus, o fato de os fariseus dizimarem até mesmo o que era utilizado no tempero de suas comidas, é considerado algo louvável, algo que não deveria ser omitido, que não deveria ser desprezado. Jesus disse que os fariseus deveriam ser tão preocupados com o juízo, a misericórdia e a fé como eram com o dízimo destas mínimas coisas, mas, em momento algum, disse que o dízimo deveria ser omitido, mas, bem ao contrário, afirmou que o dízimo não poderia estar ausente na conduta de um verdadeiro servo de Deus.

– Assim, não tem qualquer respaldo bíblico o ensinamento que muitos propalam de que o dízimo não pertence à dispensação da Igreja, que não se encontra entre as condutas que devam ser observadas pelos salvos. Jesus disse que não devemos omitir o dízimo e, portanto, se não podemos omitir, devemos praticá-lo. O dízimo faz parte da conduta que Jesus espera de Seus servos.

– Mas, dizem os adversários do dízimo, que não há qualquer passagem bíblica do Novo Testamento que mostre que os discípulos ou os cristãos, em geral, estivessem dizimando. Dizem eles que há somente registro de coletas, de ofertas alçadas, citando, à saciedade, exemplos vários extraídos não só de Atos dos Apóstolos mas das epístolas paulinas. Assim, dizem estes, o dízimo teria sido abolido por Jesus, pela graça e agora persistiriam apenas as ofertas alçadas ou coletas.

– Tal entendimento, porém, não se sustenta. Em primeiro lugar, o dízimo,  como vimos, não poderia ter sido abolido pela graça se o próprio Jesus disse que não deveria ser omitido pelos Seus servos. Em segundo lugar, o dízimo somente poderia ser abolido pela graça se tivesse sido uma criação da lei, assim como o sábado, cuja instituição se deve aos dez mandamentos recebidos no Sinai e como sinal entre Deus e Israel. Todavia, como já observamos antes, o dízimo já era uma instituição conhecida e praticada por vários povos antes mesmo da formação da nação israelita.

– Em terceiro lugar, um pensamento desta natureza decorre do fato de se achar que dízimos e ofertas alçadas são conceitos diversos, diferentes, opostos até. Assim, dízimo seria uma espécie de contribuição, ou seja, a obrigatória porção de um décimo do que se ganha, enquanto que oferta alçada seria uma contribuição voluntária, independente e algo além dos dez por cento. Este conceito, entretanto, não tem, também, respaldo bíblico.

– Quando vemos a instituição do dízimo na lei de Moisés, percebemos que os dízimos eram entregues em forma de oferta alçada (Nm.18:24). Oferta alçada (que a versão NVI e outras versões bíblicas traduzem por “contribuição”) é um gênero que abrange os dízimos e outras contribuições feitas para o sustento dos sacerdotes. Aliás, os rabinos judeus identificam na lei vinte e duas formas diferentes de contribuição para o sustento dos sacerdotes e levitas, dentre as quais se encontra o dízimo. Assim, quando a Bíblia fala em ofertas alçadas na igreja, não está excluindo os dízimos, pois os dízimos são espécies de ofertas alçadas, cuja característica é a voluntariedade (Ex.25:2,3; 35:5,21,22,24,29;36:3).

– Em quarto lugar, diz-se que o dízimo seria uma contribuição obrigatória e que, na dispensação da graça, já não vivemos mais a obrigatoriedade, não estamos debaixo do legalismo, mas tudo se faz voluntariamente e por amor. O dízimo, entretanto, como já vimos, não é uma obrigação, mas, tanto quanto as demais contribuições, uma contribuição voluntária, resultado de uma vida de amor a Deus, um ato de gratidão e de reconhecimento da soberania divina.

– O dízimo é entregue por quem, voluntariamente e com alegria, crê em Deus e reconhece que Ele é Senhor. Não se trata de obrigação alguma, mas, antes, é um gesto de desprendimento, de compromisso para com a obra de Deus. Quem dizima, fixa em, pelo menos, dez por cento o valor com que deve contribuir para a obra de Deus, reconhecendo plenamente o senhorio de Deus sobre a sua vida. Quem não dizima, ainda que contribua, se ficar aquém do valor mínimo com que contribuíram os homens de Deus no passado, como pode dizer que está debaixo da graça de Deus, graça esta que, agora, se revelou plenamente na pessoa de Jesus Cristo? Poderia um servo de Deus na dispensação mais ampla da história da humanidade estar contribuindo menos para a obra de Deus do que os homens das antigas alianças?

– O dízimo é o primeiro gesto de administração de bens de um cristão fiel, pois, como vimos, é algo que deve ser prioritário, tanto na quantidade quanto na qualidade. O dízimo deve corresponder a dez por cento do ganho do cristão, entendido este como o ganho bruto e não o líquido, como alguns têm defendido. Com efeito, quando declaramos nossa renda ao Governo, declaramos que recebemos aquilo que efetivamente ganhamos, que é o bruto e não o líquido. Ora, se para o Governo, dizemos que nossa renda é nosso ganho bruto, por que o cálculo do dízimo se faria sobre o líquido?

– O dízimo deve ser entregue na igreja local da qual fazemos parte. Não se trata de dinheiro que tenha outra finalidade senão a de dar o sustento para as pessoas que estão envolvidas integralmente com a obra do Senhor. A obra do Senhor é feita por intermédio da igreja local, que é a agência do reino de Deus aqui na terra. Se somos membros de uma igreja local, ali devemos entregar nossos dízimos, pois é ali que cultuamos a Deus. A Bíblia não estabelece outro lugar senão este para entregarmos os dízimos. Entre os judeus, os dízimos deveriam ser levados a Jerusalém, para o templo, e apenas se permitia que, diante do fato de ser custoso o transporte dos bens até lá, se pudesse convertê-los em dinheiro ou levá-los a cada três anos ao templo, devendo ficar armazenados enquanto não se completasse o período.

– Não se constitui em dízimo, portanto, a contribuição que se dê a este título para obras assistenciais, para outras igrejas locais às quais não pertencemos, para sustento de obreiros ou quaisquer outras pessoas que estejam “vivendo da obra”. Tais contribuições são ofertas, são contribuições, mas não são dízimo. Não temos o direito, como mordomo, de darmos destinação diversa aos dízimos senão a que foi estabelecida pelo Senhor. Se somos mordomos, somos servos e, portanto, devemos tão somente obedecer ao Senhor e isto implica em não termos o poder de dizermos para onde vai o dízimo, pois ele não é nosso, mas, sim, do Senhor.

– Constitui-se, também, em atitude que não tem qualquer respaldo bíblico o uso do dízimo como forma de pressão ou retaliação junto ao ministério da igreja local onde servimos a Deus. Muitas pessoas acham que, por entregarem fartos dízimos, que representam boa parte da arrecadação da igreja local, têm o direito de opinar ou de estabelecer as diretrizes para o ministério da igreja local. Na verdade, há, mesmo, ministros do Evangelho que dão satisfações ou procuram agradar um determinado grupo na igreja local por causa do papel que eles representam no sustento seu e da obra do Senhor.

– Todas estas atitudes são amplamente reprovadas pelas Escrituras, que não admitem a acepção de pessoas e tratam aos que assim procedem como pecadores (Tg.2:1-9). Os dons divinos não se adquirem nem se exercem por dinheiro (At.8:18-23). Na igreja, cuidamos de vidas, de almas e não de cifrões ou de quantias. O dinheiro é necessário, no mundo em que vivemos, para que a obra de Deus se possa realizar, não porque Deus disto precise para cumprir o Seu propósito, mas para o próprio aperfeiçoamento dos santos, para o crescimento espiritual dos crentes e, sobretudo, para a glória de Deus.


Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco