No seu relacionamento com Deus, Deus não deixa de ser Deus e o homem, de ser homem.

INTRODUÇÃO

– Na continuidade no estudo de pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido distorcidos pela teologia da prosperidade, estudaremos hoje a “teologia da barganha” ou “lei da reciprocidade”.

– Jamais Deus e homem se relacionam numa relação de “toma-lá-dá-cá”, uma das muitas mentiras da teologia da prosperidade.

I – A SOBERANIA DIVINA

– Na sequência de nosso estudo neste segundo bloco do trimestre letivo, em que estamos a analisar alguns pontos específicos da doutrina bíblica da prosperidade que têm sido particularmente distorcidos pelos “teólogos da prosperidade”, estudaremos a questão da chamada “teologia da barganha” ou “lei da reciprocidade”, um dos pontos fundamentais de todo o raciocínio deste falso ensino.

– Para iniciarmos o estudo deste tema, que tanto prejuízo tem causado aos crentes hodiernos, é preciso, antes de mais nada, rememorarmos o que a Bíblia Sagrada ensina a respeito da soberania divina. O que as Escrituras dizem sobre Deus?

– A Bíblia nos ensina que Deus é um Ser distinto daqueles que Ele criou. Deus não Se confunde com a Sua criação, ao contrário do que ensinam, equivocadamente, os chamados “panteístas”, aqueles que confundem Deus com a natureza, pensadores, aliás, que estão muito em voga nos nossos dias, principalmente entre os adeptos da Nova Era.

– Que Deus não Se confunde com a criação vemos logo no primeiro versículo do livro do Gênesis, que nos informa que “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn.1:1). Ao assim descrever o processo da criação, as Escrituras mostram que Deus é distinto dos “céus e a terra”, ou seja, da criação, seja dos seres celestiais, seja dos seres terrenos. Céus e terra tiveram princípio, mas Deus já era desde sempre. Céus e terra foram criados, Deus é o Criador.

– A esta circunstância os teólogos costumam denominar de “transcendência” de Deus, ou seja, Deus está além da Sua criação, é maior do que ela. A palavra “transcendência” vem do latim “transcendere”, cujo significado é “cruzar a fronteira”. “…Uma das ideias básicas é que a deidade que o indivíduo busca está muito acima do inquiridor. A superioridade e independência do Ser divino é contrastada com a humilde posição do inquiridor, confinado a esta esfera terrestre.…” (CHAMPLIN, R.N. Transcendente, transcendência, transcendentais. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.6, p.474).

– Esta transcendência divina é muito bem explicitada pelo profeta Isaías que traz uma mensagem divina que mostra como Deus está além do que criou, “in verbis”: “Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos, diz o Senhor, porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos (Is.55:8,9).”

– O próprio Jesus, em uma de suas múltiplas declarações em que afirma ser Deus, também mostrou que estava além de Seus discípulos, quando, por exemplo, lavou os pés de Seus discípulos. Naquela oportunidade, assim Se manifestou Nosso Senhor: “O que Eu faço não o sabe tu agora, mas tu o saberás depois” (Jo.13:7).

– Como Deus não Se confunde com a Sua criação, temos que Deus e a criação se relacionam entre si, e, neste relacionamento, há, de pronto, uma assimetria, ou seja, o relacionamento entre Deus e Sua criação não é uma relação de igual para igual, mas um relacionamento onde Deus mantém uma posição superior que jamais pode ser alcançada pelas criaturas. Tanto assim é que, no relacionamento com sua criação, Deus revela a nós algumas qualidades que mostram, claramente, que jamais a criação, mesmo a coroa da criação terrena, que é o homem, pode chegar aos pés do Senhor. Senão vejamos.

– A primeira dessas qualidades é a onipotência. No relato da criação, vemos que Deus do nada fez tudo, algo que ninguém jamais poderia nem poderá fazer. Deus tem todo o poder, daí porque um de Seus nomes é “Todo-Poderoso” (“ ‘El Shaddai” – ??????- Gn.17:1; 28:3; Jó 5:17; 6:4,14), nome, aliás, que é abundante no livro de Jó, considerado o mais antigo livro das Escrituras. A propósito, “’El-Shaddai” é um título divino característico da época dos patriarcas (Ex.6:3).

– A onipotência de Deus ensina-nos que Ele tem todo o poder, ou seja, não existe ser mais poderoso do que Ele. Daí porque ter o Senhor, por boca do profeta Isaías, ter afirmado: “operando eu, quem impedirá?” (Is.43:13 “in fine”) ou ter o apóstolo Paulo, ao verificar esta verdade bíblica, ter indagado: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm.8:31), bem como o apóstolo João ter ressaltado que “Filhinhos, sois de Deus e já os tendes vencido, porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo.” (I Jo.4:4).

– A onipotência de Deus ensina-nos que todo o poder pertence a Deus (Sl.62:11). Um dos graves equívocos do ser humano é tentar construir estruturas de poder fora de Deus. Em Babel, a rebeldia se iniciou quando Ninrode começou a irrogar o poder para si (Gn.10:8). O orgulho, a soberba e a arrogância do homem, que o levam a se achar poderoso e a querer a glória para si, ao invés de reconhecer a onipotência de Deus e a glória que só a Ele é devida, tem sido a principal causa de derrota e fracasso na vida de tantas pessoas. Que Deus nos guarde de assim agirmos, correndo o risco de virarmos animais (Dn.4:30-37), como Nabucodonosor ou sermos comidos de bicho como Herodes (At.12:21-23).

– A segunda dessas qualidades é a onisciência. Deus conhece e sabe todas as coisas (Sl.139:1-6; I Jo.3:20), nada se Lhe pode ocultar  (Sl.38:9; 139:15,23,24; Mt.6:6). Porque Deus sabe todas as coisas, é ele a fonte de toda a ciência, conhecimento e sabedoria, razão pela qual jamais as manifestações do conhecimento humano, quando verdadeiras, se chocarão com a Palavra de Deus, pois Deus é o próprio autor do conhecimento, da ciência e da sabedoria.

– A onisciência de Deus, aliada à Sua eternidade, faz-nos conceber a presciência de Deus, ou seja, Deus já sabe, de antemão, o que irá acontecer, porque, para Deus, não há tempo, sempre é presente, um eterno presente. Assim, Deus conhece o futuro, pois, para Ele, passado, presente e futuro são uma só coisa. Por isso, pode nos revelar, como nos revelou, as coisas que ainda iriam acontecer, na dimensão dos homens.

– A onisciência de Deus traz-nos a necessidade de termos um comportamento distinto dos homens que não conhecem a Deus. Como Deus sabe todas as coisas e conhece tanto o passado, quanto o presente e o futuro, algo que não temos sequer condição de saber, pois nem sempre avaliamos bem o passado (e a memória pode trair-nos, fazendo-nos esquecer aspectos importantes e relevantes deste passado), muitas vezes ficamos atônitos com relação ao presente, sem saber o que fazer e o futuro a nós escapa totalmente, precisamos confiar n’Ele e, nas adversidades e momentos difíceis da vida, lembrar que Deus, e só Ele, sabe todas as coisas. Se bem avaliarmos a onisciência divina, certamente que poderemos marchar na dura caminhada pelo deserto desta vida certos de que, onde quer que as circunstâncias nos levem, a direção e orientação parte de quem sabe todas as coisas e que prometeu que somente nos daria o melhor (Rm.8:27-30).

– A terceira qualidade ressaltada pelas Escrituras no relacionamento entre Deus e as Suas criaturas é a onipresença, ou seja, Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? Diz o Senhor. Porventura não encho Eu os céus e a terra? Diz o Senhor” (Jr.23:24).

– Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. Esta presença de Deus é total, pois, como diz a referência que transcrevemos, Ele enche os céus e a terra. Na verdade, como afirmou Salomão na oração que fez para a dedicação do templo, nem mesmo os céus e a terra O podem conter (I Rs.8:27).

– Esta presença de Deus, porém, não se dá com o mesmo propósito. Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas com diferentes propósitos e finalidades. Assim, por exemplo, Sua presença em Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, assim como no mundo antediluviano, tinha como propósito a verificação do abuso dos limites do pecado, com a determinação de destruição daqueles impenitentes. Já no que se refere ao povo de Israel, como testemunhou Moisés, a presença de Deus tinha o propósito de fazer o povo descansar (Ex.33:14). A presença de Deus é sempre uma bênção para aquele que dirige os seus caminhos segundo a vontade do Senhor (II Rs.3:14; 5:16; 13:23; II Cr.27:6). Seu objetivo, ao mostrar a Sua presença, é mostrar a Sua força aos Seus servos (II Cr.16:9) bem como criar oportunidades para que os que não O conhecem, venham a fazê-lo (At.17:27; Rm.10:6-8).

– A quarta qualidade ressaltada nas Escrituras no relacionamento entre Deus e Suas criaturas é a Sua fidelidade. Deus é fiel (Dt.7:9; Is.49:7; I Co.1:9; 10:13; I Ts.5:2; II Ts.3:3;  I Pe.4:19; I Jo.1:9; Ap.19:11). A fidelidade de Deus garante-nos que Ele cumpre todos os compromissos assumidos com o homem, que é leal em seus pactos e alianças. Ele vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12). Se o homem falhar, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm.2:13).

– A quinta qualidade divina em relação a Sua criação é o amor. Deus é amor (I Jo.4:8 “in fine”) e, por isso, Suas ações em relação ao homem sempre foram de amor. Todo o plano da salvação do homem é decorrência deste amor sem igual, sem qualquer comparação (Jo.3:16). O amor divino não é apenas um sentimento, mas um sentimento acompanhado de ações concretas e atitudes reais. Por isso, ao amar o mundo, enviou o Filho para que pudéssemos ter a vida eterna. Por isso, o Filho Se humanizou e morreu em nosso lugar. Por isso, Deus Se fez carne e preço para o pagamento dos nossos pecados e a nossa redenção. Isto é o verdadeiro amor, um amor de gestos, de atitudes, não de palavras ou sentimentos que não ultrapassam o campo das emoções (I Jo.3:18,19).

– A sexta qualidade divina em relação a Sua criação é a justiça. Deus não somente é amor, mas, também, é justiça. Como já dissemos, uma das maneiras de Deus Se revelar ao homem é por intermédio da consciência, este tribunal que Deus pôs em cada um de nós para nos dizer o que é o certo e o que é o errado, o que é o bem e o que é o mal. Ora, ao estipular o que é o certo e o que é o errado, Deus, também, determinou o que é o justo e o que é o injusto e, como Ser Supremo, assumiu a única posição que Lhe cabe, qual seja, a de justo juiz (Sl.9:8; 50:6; Jr.11:20; II Tm.4:8). Deus é justiça, ou seja, tem de dar a cada um o que é seu (Gn.18:25; Jó 8:3;Sl.31:1; 35:24).

– Muitos não conseguem entender como Deus pode ser amor e justiça ao mesmo tempo, porque, equivocadamente, acham que ter amor é “ser bonzinho”, é perdoar sempre e invariavelmente, sem jamais aplicar um castigo ou uma penalidade e, muito menos, lançar uma condenação eterna. Para estes, se Deus é amor, todos serão salvos ao final, todos alcançarão a bem-aventurança de viver eternamente ao lado do Senhor. Entretanto, não é isto que nos mostra a Bíblia Sagrada. Deus é amor, e isto provou ao pagar o preço dos nossos pecados, humanizando-Se, morrendo por nós. No entanto, exatamente porque tomou esta atitude radical, a de Se fazer homem para nos salvar, é que, por justiça, deve condenar a tantos quantos se neguem a obedecer-Lhe e a desfrutarem deste amor.

– Deus, Que não muda, afirmara que, em dando o livre-arbítrio ao homem, faria com que este respondesse pelos seus atos. Assim, todos quantos recusarem o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário terão de responder perante o justo juiz, que tem levado adiante a Sua misericórdia e a Sua verdade. Tendo vindo morrer por nós, tendo levantado um povo para pregar esta boa-nova e tendo enviado a Pessoa do Espírito Santo para convencer os pecadores, Deus mostra que a Sua iniciativa é de amor, que adiante d’Ele vão a misericórdia e a verdade. No entanto, dias chegarão, e estão muito próximos, em que esta oportunidade se findará e em que chegará o momento do acerto de contas, o instante do juízo e da justiça, em que cada um responderá pela opção que fez. Misericórdia e verdade foram à frente, mas a base do trono de Deus é de justiça e de juízo (Sl.89:14; 96:13). Aproveitemos, enquanto é tempo, o ano aceitável do Senhor, antes que chegue o dia da vingança do nosso Deus!

– A sétima qualidade de Deus em relação à Sua criação é a verdade. Deus é a verdade (Dt.32:4; Jr.10:10). “Verdade”, em hebraico,  é “ ‘emet” (???), cujo significado é o de garantia futura de imutabilidade, de invariabilidade. Ao Se afirmar como a Verdade, Deus mostra aos seres criados que Ele não muda e que o que prometeu, fará. Temos, assim, na Verdade, a demonstração, a um só tempo, da imutabilidade e da fidelidade divinas. Ora, a máxima demonstração da verdade para o homem está na Bíblia Sagrada, na Palavra de Deus, que é a verdade (Jo.17:17). As Escrituras são a suprema garantia que Deus dá ao homem de que é um ser verdadeiro. Por ser a Verdade, Deus abomina a mentira e só é mentiroso aquele que se apartou do Senhor. Daí porque o primeiro ser a se apartar d’Ele, ou seja, o diabo, ser chamado de o pai da mentira, precisamente porque não há verdade nele (Jo.8:44).

– Pelo que vemos de todas estas qualidades reveladas pelas Escrituras no relacionamento de Deus com a Sua criação, em especial com o homem, não há como vermos uma relação de igualdade entre Deus e o homem, pois se Deus é portador de todo o poder (onipotência), sabe todas as coisas (onisciência), está presente em todos os lugares (onipresença), é fiel (fidelidade), é amor, justiça e verdade, como o homem poderia igualar-se a Ele num relacionamento?

II – A SALVAÇÃO DO HOMEM TEM ORIGEM EM DEUS

– Uma das demonstrações desta assimetria no relacionamento entre Deus e o homem está na própria salvação do ser humano.  O homem, ao se envolver com o pecado, entrou em um verdadeiro “beco sem saída”. Ao pecar, tornou-se servo do pecado (Jo.8:34), dominado totalmente por ele (Gn.4:7), sem condição alguma de modificar esta situação.

– Entretanto, a história não terminou com esta tragédia. Bem ao contrário, a Bíblia Sagrada nos ensina que, mesmo antes da fundação do mundo, dentro de Sua presciência, Deus já havia elaborado um plano para retirar o homem desta situação tão delicada (Ef.1:4; Ap.13:8), a demonstrar, de pronto, que Deus é bem superior ao homem, haja vista que já havia arquitetado a salvação humana antes mesmo que o homem fosse criado.

– Este plano, já existente mesmo antes da criação do mundo, foi revelado ao homem no dia mesmo de sua queda, quando o Senhor anunciou que haveria de surgir alguém da semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente e tornaria a criar inimizade entre o homem e o mal e, consequentemente, amizade, comunhão entre Deus e o homem (Gn.3:15). Vemos, pois, claramente, que a salvação é algo que sua origem em Deus, que o homem não poderia, por si só, alcançar meios para restaurar a sua comunhão original com o seu Criador. Deus, pelo Seu grande amor, providenciou um plano para trazer o homem de volta ao convívio com Ele.

– Este plano de Deus para a salvação do homem, revelado à humanidade no momento mesmo da aplicação da penalidade pela prática do pecado, foi sendo executado desde então. O primeiro gesto deste plano foi a proibição de o homem ter acesso à árvore da vida por causa do pecado (Gn.3:22), acompanhado da expulsão do Éden (Gn.3:23). Com estas medidas, Deus impediu que o homem, a exemplo dos anjos pecadores, vivesse numa dimensão eterna, condenado à inevitável e sempiterna separação de Deus, possibilitando ao homem que, mediante o arrependimento enquanto estivesse na dimensão terrena, pudesse desfrutar de uma eternidade com o Senhor.

– Percebemos, assim, que, o que, à primeira vista, pareceu ser uma crueldade da parte de Deus, foi a manifestação da Sua infinita misericórdia, porquanto, caso o homem ingressasse na dimensão eterna como um pecador, não teria como se salvar, igualando-se, neste ponto, ao diabo e seus anjos, que não podem ser perdoados por causa de seus pecados, vez que habitam a dimensão eterna.

– A partir de então, o Senhor iniciou a execução de Seu plano que alcançou o seu ápice quando da própria encarnação do Deus Filho, momento que as Escrituras denominam de “a plenitude dos tempos” (Gl.4:4), instante em que Deus cumpre a Sua promessa de providenciar, da semente da mulher, o único e suficiente Salvador, Jesus, o Seu próprio Filho (Mt.1:21; Lc.2:11; Jo.3:16,17; At.4:12). Eis a razão pela qual a Bíblia, mais de uma vez, diz que Deus é o Deus da nossa salvação (I Cr.16:35; Sl.24:5; 51:14), bem como que a salvação d’Ele provém (Sl.3:8; 37:39; 62:1).

– A salvação, uma vez mais se mostra, foi obtida por intermédio da iniciativa divina. Não só Deus enviou o Seu Filho, como a obra da salvação somente se consumou porque o Filho deu a Sua vida pela humanidade (Jo.10:15-18). A salvação foi consumada na cruz do Calvário, quando Jesus morreu por nós (Jo.19:30;Cl.1:20; Ef.2:13,16). Como diz o poeta sacro: “O meu perdão foi consumado lá na cruz” (primeira estrofe do hino 397 da Harpa Cristã).

– As Escrituras mostram que Deus é a fonte, a base da nossa salvação. Em diversas passagens, o Senhor é identificado como a “rocha” ou o “rochedo” da salvação, expressão que não apenas revela que Deus dá livramentos aos homens, mas que também n’Ele se encontra o mais importante livramento de que carece o homem depois que pecou: o livramento do domínio do pecado sobre a sua vida (Dt.32:15; II Sm.22:47; Sl.18:46; 62:2,6; 89:26).

– O homem não tem condições de salvar-se a si próprio. Esta é uma das grandes verdades anunciadas pela doutrina bíblica (Sl.146:3). A Bíblia diz que Deus, ao contemplar os homens desde os céus, não viu justo algum (Sl.14:2,3) e aqueles que, por sua justiça, pudessem, de algum modo, achar graça aos olhos do Senhor, somente o fariam para si mesmos, sem condição alguma de transmitir sua justiça aos demais seres humanos (Ez.14:13-20). Por isso, se a salvação não viesse por intermédio de Deus jamais o homem poderia ter esperança de voltar a ter um convívio eterno com o seu Criador.

– Mas, precisamente porque a salvação tem origem em Deus, podemos buscá-la e ter a certeza de que seus efeitos são permanentes e duradouros.

– Notamos, portanto, que, ao contrário do que falam os “teólogos da prosperidade”, a salvação é uma ação que tem iniciativa e consumação em Deus, motivo pelo qual o homem não pode reivindicar quaisquer “direitos legais” decorrentes desta salvação, pois ela é resultado exclusivo do amor de Deus.

– Por ter origem e consumação em Deus, a salvação revela os atributos divinos, atributos estes que são intransferíveis ao ser humano, como já tivemos ocasião de observar. Destarte, no instante em que o homem se entrega a Cristo Jesus, alcançando a salvação, não está tomando posse de quaisquer “direitos legais”, como ensinam os “teólogos da prosperidade”, mas, sim, passando a desfrutar de um “favor imerecido”, ou seja, da “graça” de Deus.

– A salvação, por ter origem em Deus, é um ato de amor (Jo.3:16). A salvação é a maior demonstração do amor de Deus ao homem. Há, mesmo, quem diga que Deus permitiu o pecado para revelar este que é um dos Seus principais atributos, que não se revelaria sem que houvesse o pecado. Sem adentrarmos nesta discussão, que está além do que podemos compreender, o certo é que, através da salvação, Deus revela o Seu grande amor para com o homem, este amor incondicional e incompreensível, que se encontra muito além do nosso entendimento. O fato é que Deus nos ama tanto que Se fez homem para pagar o preço dos nossos pecados e nos salvar, para que vivamos com Ele eternamente.

– A salvação, por ter origem em Deus, é uma manifestação da graça de Deus (Tt.2:11). Deus, por intermédio da salvação, mostra que oferece ao homem um “favor imerecido”, a “graça”. A salvação não vem ao homem porque o homem a mereça (e reside aqui uma das grandes dificuldades dos homens em compreenderem a salvação, pois sempre associam a salvação a algum mérito, o que, evidentemente, está completamente fora dos padrões bíblicos e da revelação divina sobre o assunto), mas porque Deus quis favorecer o homem, por ser um Deus de graça, que foi manifestada em Jesus Cristo (I Co.1:4).

– O apóstolo Paulo é bem claro ao mostrar que a salvação vem pela graça de Deus (Ef.2:5,8), ou seja, por um favor imerecido de Deus, precisamente para que o homem não se gloriasse, achando que fosse algo que, efetivamente, não é, pois não passa de um miserável pecador (Rm.7:24), cuja justiça não passa de trapos de imundícia (Is.64:6).

– A propósito, o apóstolo, em suas epístolas, sempre faz questão de mostrar, antes de mais nada, que nosso relacionamento com Deus decorre de Sua graça e de Sua paz (Rm.1:7; I Co.1:3; II Co.1:2; Gl.1:3; Ef.1:2; Fp.1:2; Gl.1:2; Cl.1:2; I Ts.1:1; II Ts.1:2; Fm.3) ou, então, de Sua graça, de Sua paz e de Sua misericórdia (I Tm.1:2; II Tm.1:2; Tt.1:4). Não se está diante de um mero estilo retórico, mas, sim, de uma consciência do apóstolo de que o relacionamento entre Deus e os salvos em Cristo Jesus decorre, primeiramente, da graça do Senhor, trata-se de um “favor imerecido” que nos leva a ter comunhão com Deus, visto que a paz nada mais é que esta completude que se estabelece entre Deus e o homem com a retirada dos pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz do Calvário.

– Ora, se a salvação oferecida ao homem é resultado da graça de Deus, quando ela é apropriada por aquele que crê em Jesus, continua sendo um “favor imerecido”, não há qualquer modificação em sua essência, até porque, por ter origem em Deus, a salvação é eterna (Is.45:17; Hb.5:9), ou seja, não sujeita a qualquer modificação ao longo do tempo.

– Portanto, dizer-se que, uma vez salvo, o homem passa a ter “direitos legais” em relação a Deus, que pode “obrigar Deus”, é um contrassenso, visto que a salvação é um “favor imerecido” e, portanto, o homem não assume qualquer posição que lhe permita exigir seja o que for do Senhor, já que está a desfrutar de um “favor imerecido”.

– A salvação mostra que a deidade do Senhor em todo o Seu esplendor e não é porque nos entregamos ao Senhor Jesus que Ele deixará de ser Deus e de ter todos os atributos que só Ele possui. O fato de ter estabelecido uma aliança com o homem não o faz menos Deus, nem faz com que o homem seja menos homem. A aliança realizada, fruto de Sua iniciativa e por Ele próprio consumada, apenas reafirma a assimetria que existe entre Deus e o homem.

– A salvação, feita pela graça de Deus, diz-nos o apóstolo, vem “por meio da fé” (Ef.2:8). Ora, quem é o autor e consumador da fé? É o próprio Senhor Jesus (Hb.12:2), que, inclusive, transmite esta fé a cada homem (Rm.10:17), por intermédio da Palavra, que é o próprio Cristo (Jo.1:1; Ap.19:13). Assim, a própria fé é um dom de Deus (Ef.2:8), que nos permite entrar em aliança com Ele, aliança esta feita em Seu sangue vertido na cruz do Calvário por nós (I Co.11:25).

– Notamos, pois, que o Senhor tudo fez para dar condições para que fôssemos salvos, revelando, uma vez mais, a nossa absoluta incapacidade de tomar parte neste processo e o Seu grande amor, que faz com que queira que nós sejamos salvos e venhamos ao conhecimento da verdade (I Tm.2:4).

– Diante desta realidade, vemos que ao homem restou, tão somente, crer em Jesus, arrepender-se de seus pecados para alcançar a graça divina, mantendo-se obediente e fiel ao compromisso que assumir de seguir a Cristo até aquele dia. A salvação é um processo onde o homem participa tão somente com o arrependimento, a conversão e a santificação contínua até o dia do arrebatamento da Igreja, quando, com a glorificação, ficará para sempre livre de pecar.

III – A FALSIDADE DA LEI DA RECIPROCIDADE E A IMPOSSIBILIDADE DE UMA BARGANHA COM DEUS

– Temos visto que Deus é soberano, Seus atributos com relação à Sua criação mostram que Ele está além das Suas criaturas e que jamais estas poderão a Ele se igualar. Temos visto, também, que, no processo da salvação do homem, Deus igualmente manifesta a Sua soberania, tendo, por Seu amor, permitido ao homem que se salvasse, salvação que é um “favor imerecido” pelo qual o homem volta a ter comunhão com Deus, apropriando-se de uma fé que é dom de Deus, num processo onde tão somente se arrepende dos pecados, converte-se e se mantém separado do pecado até a sua passagem para a dimensão eterna.

– Dentro deste quadro, é intuitivo até que se perceba que, uma vez salvo, o homem não se apresenta em condição de exigir coisa alguma de Deus. Recebendo a fé vinda pela Palavra de Deus, crendo em Jesus e se arrependendo dos seus pecados, passando a ter uma nova direção e orientação na sua vida, mantendo-se separado do pecado, em comunhão com o Senhor, o homem tem condições de chegar aos céus.

– Dentro desta realidade, vemos que a relação estabelecida entre Deus e o homem salvo por Cristo Jesus continua sendo uma relação entre Senhor e servo, entre Criador e criatura. No entanto, por causa do perdão dos pecados, o Senhor demonstra todo o Seu amor para o salvo, preparando-o para ir aos céus para com Ele viver para sempre, mas, enquanto isto não ocorre, capacitando-o para ser, aqui na Terra, luz do mundo, sal da terra e instrumento para a salvação de outros seres humanos.

– Já no tempo da lei, o Senhor mostrava o que pedia ao povo de Deus, “in verbis”: “Agora, pois, ó Israel, que é o que o Senhor, teu Deus, pede de ti, senão que temas o Senhor, teu Deus, e que andes em todos os Seus caminhos, e O ames, e sirvas o Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor e os Seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt.10:12,13).

– O primeiro ponto que observamos é que o Senhor pede e não exige, como poderia fazê-lo, por ser o Senhor, o Soberano, o dono de todas as coisas (Sl.24:1). Fá-lo porque deu ao homem o livre-arbítrio e, portanto, tudo depende da vontade do homem em servi-l’O, ou não. Certamente que os homens responderão pelos seus atos, mas Deus não força qualquer homem a servi-l’O, pois, como é imutável, não iria Se arrepender de ter feito o homem com livre-arbítrio.

– Ora, se Deus não força o homem a servi-l’O, sendo o Senhor, como pode o homem “forçar” Deus a tomar esta ou aquela atitude? Notemos aqui como não tem qualquer cabimento a teoria de que o homem, por ser salvo, “toma posse das promessas de Deus” e, por isso, pode “exigir” que Deus faça isto ou aquilo. Se Deus que é Deus não exige, como pode fazê-lo o homem mortal em relação ao Senhor? Resta-nos aqui tão somente lembrar as palavras do profeta Isaías: “Ai daquele que contende com o seu Criador, caco entre outros cacos de barro! Porventura, dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?” (Is.45:9).

– O segundo ponto que observamos é que o primeiro pedido do Senhor era para que Israel temesse a Deus. “Temer” aqui não é “ter medo”, mas, sim, “considerar”, “ter reverência”, “obediência”. De pronto, vemos que o fato de Israel ter de “temer a Deus”, mostra que Deus continua sendo o Senhor, pois somente se reverencia alguém que está em uma posição superior a sua. É conhecida, em nosso direito civil, a figura do “temor reverencial” que é “…o receio de desgostar ascendente ou pessoa a quem se deve obediência e respeito…”(DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. 9. ed. rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil, p.154).

– Ora, “temer a Deus” é, portanto, “o receio de desgostar a Deus”, o que, de pronto, leva-nos à conclusão de que, em nosso relacionamento com o Senhor, relacionamento somente possível diante da salvação, nunca podemos de deixar de levar em consideração a vontade do Senhor, o que, de pronto, elimina toda e qualquer possibilidade de “exigirmos” ou “determinarmos” algo a Deus, uma vez que tais comportamentos desconsideram a vontade do Senhor, demonstram que são condutas de quem não teme ao Senhor.

– Alguém pode, porém, dizer que esta exigência de “temor a Deus” era na época da lei e que, agora, estamos na graça, quando não mais vigoraria tal situação. Ledo engano, porém. A exigência do temor a Deus persiste incólume na nova aliança. Em At.2:43, notamos que uma das características de todo crente na igreja de Jerusalém era, precisamente, o temor, característica presente também nas igrejas que iam surgindo na Judeia, Galileia e Samaria (At.9:31).

– O apóstolo Paulo afirma, ainda, que, em sua evangelização, sabia que se deve temor a Deus (II Co.5:11), bem como ensina que um dos meios de santificação, esta necessária atitude humana para chegar aos céus, é o temor ao Senhor (II Co.7:1). O apóstolo Pedro não discrepa deste entendimento, dizendo que os crentes devem “andar em temor durante o tempo da sua peregrinação” (I Pe.1:17). Vemos, pois, que o temor prossegue sendo uma atitude indispensável para a Igreja, o povo de Deus da atual dispensação.

– O terceiro ponto que observamos é que o segundo pedido do Senhor ao Seu povo é para que Seu povo “ande nos Seus caminhos”, ou seja, que seguisse os Seus mandamentos, que foram dados a Israel por Moisés. Hoje em dia, devemos seguir os passos de Cristo Jesus, seguir as Suas pisadas (I Pe.2:21). Aliás, o mandamento deixado pelo Senhor é bem explícito a respeito: “Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo.15:12). Nosso exemplo, nosso padrão de conduta é o Senhor Jesus e devemos andar como Ele andou (I Jo.2:6).

– E como Jesus andou neste mundo? Exigindo algo do Pai ou fazendo a Sua vontade? Evidentemente que fazendo a vontade do Pai (Jo.5:30; 6:38). Aliás, Cristo chegou a afirmar que a Sua comida era fazer a vontade do Pai (Jo.4:34), indicando que a sobrevivência espiritual de alguém é fazer a vontade de Deus.

– Portanto, ensinar que se deve desconsiderar a vontade de Deus em nossas atitudes sobre a face da Terra nada mais é que ensinar que não devemos andar como Jesus andou, que não devemos andar em Seus caminhos, em outras palavras, trata-se de um ensino que visa nos distanciar de Deus, tornarmo-nos desagradáveis a Ele!

– O quarto ponto que observamos é que o terceiro pedido do Senhor ao Seu povo é que O amassem. Ora, amar a Deus, explicou-nos o Senhor Jesus, é guardar a Palavra de Deus (Jo.14:23,24). “Vós sereis Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando” (Jo.15:14), disse o Senhor. Somente demonstraremos amor para com Deus se Lhe formos obedientes e, para tanto, precisamos ouvir a Sua voz, não endurecendo os nossos corações, tentando ao Senhor (Sl.95:7,8; Hb.3:15).

– Os “teólogos da prosperidade”, entretanto, ensinam exatamente o oposto. Vivem insuflando seus ouvintes a “pôr Deus contra a parede”, a “se revoltarem”, “não aceitarem”, “reivindicarem seus direitos diante de Deus”, ou seja, conclamam o povo a falar diante de Deus, apresentar suas queixas, sem se importar com o que Deus está a dizer. Não é isto, precisamente, fazer como fez Israel em Massá e Meribá, lugares onde os israelitas tentaram a Deus, provocaram-n’O e com Ele contenderam (Ex.17:7), episódio que os fez perder o desfrute da promessa de Abraão e terem de se submeter à lei, que não propicia salvação a homem algum (Gl.3:11)?

– Quando o homem sai de sua posição de servo e beneficiário da graça de Deus para tentar “conversar de igual para igual” com o Senhor, “exigindo-Lhe direitos”, entra num caminho extremamente perigoso, pois assume uma postura de rebeldia e de dureza de coração diante do Senhor e o resultado é que assina a sua própria sentença de morte, visto que, se formos raciocinar em “termos legais”, estaremos irremediavelmente perdidos, vez que não temos quaisquer “direitos” diante do Senhor.

– A aliança que o Senhor firmou conosco é uma aliança em que recebemos, imerecidamente, o Seu favor, temos nossos pecados perdoados e a garantia da vida eterna, mas na qual devemos nos submeter à Sua vontade, “amando-O porque Ele nos amou primeiro” (I Jo.4:19). Se existe alguma reciprocidade no relacionamento entre Deus e o homem, esta reciprocidade é o amor e, como Deus nos amou, e prova isto quando Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores (Rm.5:8), também devemos amá-l’O e amar a Deus é guardar a Sua Palavra.

– Ora, se amar a Deus é guardar a Palavra de Deus, é esconder a Sua Palavra em nossos corações para que não pequemos contra Ele (Sl.119:11), não há qualquer lugar para que nossa vontade produza “palavras inspiradas” aos quais vinculemos o Senhor, como ensinam os “teólogos da confissão positiva”. A Palavra de Deus está dada, não pode ser diminuída nem ampliada (Ap.22:18,19), é a testemunha de Cristo Jesus (Jo.5:39), as Escrituras que nos foram reveladas e que devem ser cridas em sua inteireza, sem quaisquer artifícios hermenêuticos, pois são o próprio Jesus, a completa revelação divina ao homem (Hb.1:1-3).

– O quinto ponto que observamos neste pedido do Senhor ao Seu povo é que eles deveriam servi-l’O, com toda a sua alma e com todo o seu coração, para guardar os mandamentos do Senhor e os Seus estatutos ordenados para o bem do próprio povo. Vemos, de pronto, aqui que o Senhor deixa bem claro que os israelitas permaneciam servos, apesar de serem o povo de Deus.

– Tal situação não se alterou com a graça. Muitos gostam de mencionar a expressão de Jesus aos Seus discípulos, segundo a qual não os chamaria mais de servos, mas, sim, de amigos, pois tudo quanto de Seu Pai havia ouvido, tinha-os feito conhecer (Jo.15:15). O fato de termos nos tornado amigos de Cristo, não significa que deixemos de ser Seus servos, porém.

– A primeira pessoa que é chamada de amigo de Deus nas Escrituras é Abraão (Is.41:8), assim chamado precisamente porque Deus não quis ocultar dele o que faria com as cidades da planície (Gn.18:19). No entanto, o fato de Abraão ser amigo de Deus não fez com que deixasse de ser servo de Deus e o diálogo mantido com o Senhor na intercessão pelos habitantes daquelas cidades mostra como Abraão não deixou da sua condição de servo, apesar de ser amigo do Senhor (Gn.18:23-33). Como se não bastasse isso, o episódio do sacrifício de Isaque mostra claramente como Abraão era temente a Deus e pronto a obedecer-Lhe (Gn.22:12).

– Na própria passagem em que Jesus disse que passaria a chamar os Seus discípulos de amigos, vemos que o Senhor não deixou de considerá-los Seus servos, pois, em seguida, diz que os havia escolhido e nomeado para que fossem e dessem fruto permanente (Jo.15:16), tendo ainda lhes mandado que se amassem uns aos outros (Jo.15:17), bem como os lembrado que, como servos, não poderiam pretender sofrer menos que o Senhor no mundo (Jo.15:18-20), a confirmar, pois, que eles se mantinham servos, apesar da intimidade de serem chamados de amigos.

– Os escritores do Novo Testamento, mesmo, fazem questão de mostrar que são servos de Cristo Jesus em seus escritos (Rm.1:1; Fp.1:1; Tt.1:1; Tg.1:1; II Pe.1:1; Jd.1:1; Ap.1:1), tendo o apóstolo Paulo mostrado, mais de uma vez, que o salvo em Cristo Jesus deve, antes de mais nada, ser servo de Deus (I Co.7:22; Gl.1:10; Cl.4:12; II Tm.2:24), tendo o próprio Pedro nos ensinado que, se somos vencidos por Deus, somos servos d’Ele, mas, se formos vencidos pela corrupção, dela seremos servos (II Pe.2:19).

– Ora, se somos servos, e a palavra grega para “servo” é “doulos” (??????), cujo significado é “escravo”, temos a conclusão de que quem é salvo por Cristo Jesus não tem vontade própria, faz apenas o que lhe for mandado pelo Senhor, é “propriedade de Cristo”, a Ele pertence, não é de si mesmo (I Co.6:19,20).

– Diante de um tal quadro, vemos que o relacionamento entre Deus e o homem não elimina, em absoluto, a circunstância de que Deus é o Senhor e que o homem, Seu servo; que Deus manda, e o homem, obedece; que Deus determina, e o homem, acata; que Deus abençoa porque quer e o homem é abençoado, sem merecer e na medida que Deus o quiser.

– Por isso o serviço desejado por Deus a Israel e que se estende à Igreja, que também é formada de servos, é um serviço “com toda a alma e com todo o coração”, ou seja, trata-se de um serviço que envolve todo o homem interior, pois “alma e coração” são expressões que indicam a alma e o espírito, ou seja, toda a sensibilidade, vontade, intelecto, fé e consciência do ser humano.

– Desta maneira, não há como o homem querer relacionar-se com Deus impondo ao Senhor os seus sentimentos, a sua vontade, o seu intelecto, a sua fé e a sua consciência. Tudo deve ser exercido segundo os parâmetros e as ordens estabelecidas pelo Senhor, uma verdadeira submissão.

– Estaria, pois, o Senhor escravizando ao homem? Não se teria, pois, uma situação igual àquela que o homem que vive no pecado? Não, não e não! Por primeiro, o homem se submete a Deus voluntariamente, não há qualquer imposição, tudo decorre da vontade humana em se render a Deus. “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mc.8:34b), bem ao contrário do que ocorre na vida pecaminosa, que se manifesta à revelia da vontade do homem: “…eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço, não o aprovo, pois o que quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso faço” (Rm.7:14b,15).

– Por segundo, este serviço voluntário, livre, com toda alma e coração, para guardar os mandamentos do Senhor e Seus estatutos, traz o bem ao homem, é “para teu bem”, ao contrário do pecado, que é “para morte”: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.

Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim(…).Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:18-20,24).

– Portanto, quando passamos a servir a Deus com toda a alma e com todo o coração, fazemo-lo para o nosso bem. E que bem é este? Paulo responde: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm.6:23). Este bem é a “vida eterna”.

– Deus assume um compromisso com todos os que recebem a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador: a vida eterna. Tudo, pois, que acontece na vida dos salvos nesta Terra contribui para este bem (Rm.8:28). Assim, ainda que haja tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo ou espada, nada disto poderá nos separar do amor de Cristo (Rm.8:35).

– Destarte, o que vincula Deus ao homem é o compromisso de dar a vida eterna a todos quantos receberem a Cristo Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador, vida eterna esta que será alcançada por todos aqueles que atenderem ao pedido do Senhor e, deste modo, forem tementes a Deus, andarem em todos os Seus caminhos, O amarem e O servirem com todo o seu coração e com toda a sua alma. Em outras palavras: a vida eterna será dada a todos quantos se arrependerem de seus pecados, se converterem de seus maus caminhos e se santificarem até o fim.

– Como a relação com Deus se mantém assimétrica, mesmo diante da salvação, estamos diante de um verdadeiro “contrato de adesão”, cujas principais características, segundo o grande jurista brasileiro Orlando Gomes (1909-1988) são três: a) a uniformidade, que consiste no intento do predisponente de obter, de número indeterminado de aderentes, a aceitação passiva das mesmas condições, de sorte que seja invariável o conteúdo de todas as relações contratuais; b) a predeterminação, por uma das partes, das cláusulas dos contratos a serem estipulados em série; c) a rigidez das cláusulas, impossibilitando a flexibilidade no cumprimento das avenças (Contratos, 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1996. pp.118/9).

– Se as grandes empresas neste mundo, devido a seu poderio econômico, impõem aos consumidores a sua vontade, estabelecendo “contratos” conforme a sua vontade, por que Deus, que é onipotente, haveria de Se diminuir diante do homem quando com Ele firmasse uma aliança, aliança esta estabelecida por obra exclusiva do próprio Deus, que propiciou a salvação ao homem sem que o homem merecesse ou sequer fizesse algo além de arrepender-se, converter-se e se manter separado do pecado?

– Este é o grande equívoco da chamada “lei da reciprocidade”, segundo a qual, uma vez que Deus prometeu bênçãos para o homem ao estabelecer com ele uma aliança, tem de cumprir o que prometeu. Como diz Edir Macedo: “…O ditado popular de que ‘promessa é dívida’ se aplica também para Deus. Tudo aquilo que Ele promete em Sua palavra é uma dívida que tem para com você(…)” (Vida com abundância, p.36 apud GONÇALVES, Edson Poujeaux. A teologia da prosperidade, p.10. Disponível em: http://www.slideshare.net/goiano/teolprosperidade Acesso em 04 jan. 2012).

– Nesta ideia de reciprocidade, Deus e o homem estão no mesmo nível, o que, evidentemente, não é a realidade. Deus está muito acima do homem e as promessas que faz ao homem são resultado da Sua graça, ou seja, são favores imerecidos que são dados ao homem. Mas, sendo Deus fiel, uma vez tendo prometido, não terá inevitavelmente de cumprir o que prometeu?

– Sem dúvida alguma, já vimos inclusive neste estudo, que um dos atributos de Deus no Seu relacionamento com a criação é a Sua fidelidade, que faz com que Ele cumpra o que prometeu. Este cumprimento, porém, independe do homem, decorre da própria natureza divina e, portanto, o homem não precisa “cobrar” ou “exigir” tal cumprimento, visto que ele virá inevitavelmente.

– Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, está demonstrando falta de confiança em Deus, ou seja, mostra que não tem mais fé em Deus e, sem fé, é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus, creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam (Hb.11:6).

– Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, está deixando de ser um mero servo, que não tem vontade própria, mas que passa a querer questionar o Criador, como se um caco pudesse interpelar o oleiro! Deus é fiel e assim Se revelou aos homens, de modo que devemos, ante Suas promessas, tão somente “esperar com paciência no Senhor” (Sl.40:1), mantendo com o Senhor um relacionamento contínuo, um diálogo aberto, próprio de quem tem intimidade com Deus, por meio da chamada “oração incessante”, que foi aconselhada pelo Senhor Jesus e por Seus apóstolos (Mt.7:7; Lc.11:9; 18:1-8; Ef.6:18; I Ts.5:17), oração que nunca pode desconsiderar que a vontade a ser seguida é sempre a de Deus, não a nossa (Mt.6:10; 26:42; Lc.22:42).

– Quando o homem passa a “exigir” o cumprimento da promessa divina, esquece-se de que existe para servir a Deus e não o contrário. Deus não é como os deuses dos gentios que, sendo portadores das mesmas paixões e pecados humanos, apenas têm mais poder e podem, a seu bel-prazer, trazer benefícios a este ou aquele que reclama a sua “proteção”, o seu “poder”.

OBS: Como dizia o filósofo grego Xenófanes (±570-528 a.C.): “Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm” (apud CLEMENTE de Alexandria. Tapeçarias, V, 110. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural. 5.ed., p.36). Neste pensamento, o filósofo grego mostra que os deuses dos gentios eram projeções dos homens, eram seres humanos a quem se dava o poder da imortalidade, mas havia uma essência igual entre homens e deuses, a refletir que o pensamento gentílico era o de igualar homens e deuses, precisamente o que faz a “teologia da prosperidade”.

– A chamada “lei da reciprocidade” é completamente alheia à verdade bíblica, visto que, se Deus nos tratasse conforme nós O tratamos, estaríamos irremediavelmente perdidos, visto que apenas mereceríamos a condenação eterna. Por Deus ser amor, Ele manifestou tanto a Sua graça como a Sua misericórdia e, assim, recebemos a salvação, precisamente porque Deus não nos tratou segundo o que merecíamos. Como diz o salmista: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos retribuiu segundo as nossas iniquidades” (Sl.103:10).

– Não é à toa que, como já vimos supra, o apóstolo Paulo, no início de suas epístolas, fazia questão de frisar aos salvos em Cristo Jesus que o relacionamento com Deus era decorrente da graça, da paz e da misericórdia que vinham da parte de Deus e de Cristo. Não há como falarmos em o nosso relacionamento com o Senhor, por Cristo Jesus, se não for a partir da graça, pelo qual nós recebemos de Deus o que não merecemos; da paz, pela qual nós temos comunhão com Deus e pela misericórdia, pela qual nós não recebemos o que merecemos.

OBS: “…Irmãos, fará mal qualquer um de nós que usar a linguagem do mérito diante de Deus, pois mérito algum temos e, se tivéssemos algum, não precisaríamos orar. Foi bem observado por um antigo teólogo, que o homem que pleiteia seu próprio mérito não ora, mas cobra o seu crédito. Se eu peço a alguém que me pague sua dívida, eu não sou alguém que pede, mas alguém que está a exigir os seus direitos. A oração de um homem que pensa que tem méritos é como se estivesse a entregar uma letra ao Senhor: ele não está apresentando um pedido, mas emitindo uma cobrança. O mérito, com efeito, diz: “Pague-me  o que você deve”. Pouco um homem deste obterá de Deus, pois se o Senhor apenas pagar para nós o que Ele nos deve, o lugar além de tormento será nossa rápida herança. Se durante a vida aqui nós recebermos não mais do que nós merecemos, nós seremos rejeitados e abandonados. O mais vil dos mendicantes obterá mais do que estes banidos. Até mesmo a vida, ela própria, é um presente do Criador, ‘De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um da punição dos seus pecados’. Vamos nos manter numa posição de inferioridade tanto quanto podemos, pois nós ainda temos de reconhecer que ‘As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as Suas misericórdias não têm fim’. Qualquer outra atitude que não a de humildade seria muito mal-vinda e presunçosa na presença do Altíssimo.…” (SPURGEON, Charles Haddon. Humildade: a amiga do orante. Disponível em: http://bible.org/seriespage/humility-friend-prayer-no-1787 Acesso em 11 set. 2010) (tradução nossa de texto original em inglês) (destaque original).

– Nosso relacionamento com Deus é pautado por estes três parâmetros: a graça, a paz e a misericórdia. Se formos invocar uma “lei de reciprocidade”, se formos “exigir” “direitos legais” junto a Deus, como ensinam os “teólogos da prosperidade”, estaremos abrindo mão destes três elementos dentro dos quais Deus Se relaciona conosco.

– Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar “favores imerecidos”, o que poderemos receber d’Ele? Nada, absolutamente coisa alguma, pois nada merecemos!

– Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar a Sua paz, obtida pela fé que Ele gratuitamente nos deu, o que poderemos receber d’Ele? Nada, absolutamente coisa alguma, pois sem a fé que nos é dada pela Palavra, jamais poderemos ser justificados e não teremos como ter comunhão com Deus e Deus não ouve a pecadores (Is.59:2; Jo.9:31).

– Ora, se assim for, perguntamos: se Deus deixar de nos dar a Sua misericórdia, o que poderemos receber d’Ele? A sentença de morte, pois o que merecemos é isto. Sem a misericórdia divina, seremos consumidos (Lm.3:22,23)! Se alguém tiver alguma dúvida, é só contemplar os juízos divinos ao longo da história da humanidade, como o dilúvio e a destruição das cidades da planície (Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim).

– Então, como podemos deixar de lado a graça, a paz e a misericórdia do Senhor para entabularmos com Ele um relacionamento baseado na “lei da reciprocidade”, num “toma-lá-dá-cá”, numa barganha, como defendem os “teólogos da prosperidade”? Isto não é senão jogar fora a oferta salvadora do Senhor?

– A palavra “barganha” significa “fazer troca de mercadorias”, “comerciar”. Assim, para que se possa barganhar algo, é preciso que ambas as partes tenham algo a oferecer, tenham “mercadorias”.

– Todavia, quando vemos o que a Bíblia diz a respeito de Deus, afirma-nos que tudo é d’Ele (Sl.24:1), inclusive os seres humanos. Assim, o que pode o homem oferecer a Deus. Mas, quando olhamos a Bíblia Sagrada, podemos perguntar, como o salmista: “Que darei eu ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?” (Sl.116:12).

– O próprio salmista responde: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Pagarei os meus votos ao Senhor, agora, na presença de todo o Seu povo” (Sl.116:13,14). Ou seja: o salmista chegou à conclusão de que nada tinha a oferecer a Deus, já que tudo é d’Ele e, por isso, se contentaria em servir ao Senhor, apropriando-se da salvação (o que, como já vimos, é se arrepender dos pecados, converter-se e se manter em santidade até o fim) e cumprindo tudo quanto houvesse se comprometido a fazer diante do povo de Deus, de forma incondicional e sem esperar qualquer retribuição.

– Segundo a “teologia da prosperidade”, Deus, ao ter feito promessas aos homens, é “obrigado” a cumpri-las, pois tais promessas teriam gerado “direitos”, que poderiam ser “cobrados” junto a Deus. Assim, segundo estes falsos ensinadores, o homem teria algo, sim, a saber: as “promessas de Deus”.

– Entretanto, é princípio basilar do direito que só se podem exigir direitos da outra parte quando não se tem cumprido os seus. Então, como pode o homem cobrar algo de Deus se não tem cumprido a sua parte na aliança? O homem jamais cumpriu os pactos celebrados com Deus, não tem condição de fazê-lo por si só. Como, pois, poderia cobrar algo de Deus?

– Mas, dizem os “teólogos da prosperidade”, que, quando o homem dá dízimos, ofertas, cumpre votos financeiros, está em condições de “exigir” aspromessas de Deus. MS, perguntemos: de quem é o ouro e a prata? De Deus ou dos homens? A Bíblia nos responde: de Deus (Ag.2:8). Se damos algo a Deus, isto, como nos ensina Davi, só é possível porque, antes, Deus no-lo deu (I Cr.29:10-14). Então, quando alguém faz estas coisas, não está dando coisa alguma a Deus, porque não lhe pertence, mais, sim, ao Senhor e, por isso, como poderá cobrar algo em troca?

– Mas, há ainda uma outra coisa, já analisada no estudo deste trimestre: muitas das propaladas “promessas de Deus” simplesmente inexistem para os que são salvos em Cristo Jesus. O bem prometido pelo Senhor, como já tivemos ocasião de ver neste próprio estudo, é a vida eterna, dom que é gratuito, ou seja, que não exige coisa alguma em troca. As riquezas, a imunidade às doenças não fazem parte destas “promessas” de que seriam os crentes titulares.

– Pelo que se observa, portanto, o raciocínio da “lei da reciprocidade” e da “teologia da barganha” é completamente antibíblico. Parte-se de uma inexistente situação de igualdade entre Deus e o homem; de uma inexistente situação de “legalidade”, abrindo-se mão da graça, paz e misericórdia de Deus; da inexistente condição de o homem poder cumprir, por si só, a sua parte na aliança firmada com o Senhor e de inexistentes promessas de riquezas materiais e imunidade a doenças para se defender um “toma-lá-dá-cá”. Um verdadeiro “imbroglio” “sem pé nem cabeça”, cuja única finalidade é enriquecer alguns que, esperta e malandramente, têm amealhado fortunas com estes falsos ensinos.

– Jamais nos esqueçamos de que o nosso relacionamento com Deus é fruto da Sua graça, paz e misericórdia e de que o que Deus nos promete é o “nosso bem”, ou seja, a “vida eterna”. Isto Ele certamente cumprirá, devendo nós, ante a nossa total impotência, tão somente nos apropriar da fé que Ele nos deu pela Sua Palavra, crermos em Cristo Jesus, arrependermo-nos de nossos pecados, convertermo-nos de nossos maus caminhos e nos mantermos em santidade, temendo ao Senhor, até o dia em que Ele nos levará para os céus, pois, quem perseverar até o fim será salvo (Mt.24:13). Esta é a nossa parte na aliança. Estamos dispostos a permanecer fiéis até o fim?

Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco