LIÇÃO Nº 12 – Revista CPAD – O PROPÓSITO DA VERDADEIRA PROSPERIDADE

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A verdadeira prosperidade tem como propósito a comunhão com Deus.

INTRODUÇÃO

– Na sequência do estudo da verdade prosperidade, estudaremos hoje qual é o seu propósito.

Deus concede a prosperidade para o homem para que ele ame ao Senhor e ao próximo como a si mesmo.

I – O PROPÓSITO DIVINO PARA O HOMEM

– Na sequência do estudo deste último bloco, em que estamos a analisar a verdadeira prosperidade, estudaremos, nesta oportunidade, o seu propósito.

– A palavra “propósito”, diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, significa “intenção de (fazer algo); projeto, desígnio; aquilo que se busca alcançar quando se faz alguma coisa; objetivo, finalidade, intuito; aquilo a que alguém se propôs, por que se decidiu; decisão, determinação, resolução”. É uma palavra originada do latim “”prospoitum”, “aquilo que é posto diante, exposto à vista, apresentado, proposto, oferecido, anunciado, declarado, referido, relatado, contado, narrado, fixado, marcado, determinado”.

– Pelo que se pode verificar, pois, de pronto, é que o “propósito” é uma “proposta”, ou seja, algo que alguém oferece, projeta, planeja, propõe a outrem. Neste sentido, o “propósito de Deus” nada mais é aquilo que o Senhor planejou, projetou, propôs às criaturas. Em relação ao ser humano, pois, o propósito de Deus foi aquilo que o Senhor quis em relação ao ser humano, desde o instante mesmo da sua criação.

– É fácil notarmos que o propósito de Deus em relação ao homem se encontra em Gn.1:28, quando o Senhor, ao criar o homem, os abençoou (macho e fêmea), revelando-lhes o Seu propósito, qual seja, o de frutificar, multiplicar-se, encher a terra, bem como  sujeitá-la e dominar sobre toda a criação terrena. O homem seria, pois, o mordomo de Deus sobre a face da Terra, o Seu administrador.

– Para se desincumbir desta tarefa, o Senhor criou as mais amplas condições favoráveis para o homem, formando um jardim no Éden onde pôs o homem. A prosperidade criada para o primeiro casal, num lugar de delícias onde havia bem-estar espiritual, material e psíquico, sob a condição da obediência ao Senhor, mostra, claramente, que aquele ambiente de fartura, abundância e felicidade tinha como finalidade o cumprimento do propósito divino, ou seja, de frutificação, multiplicação, povoamento e sujeição do planeta e dominação sobre toda a criação terrena.

O ambiente favorável na Terra, portanto, nada mais era que um instrumento para que se cumprisse o propósito divino. O bem-estar material e psíquico tinha como única razão de ser a criação de meios para que se pudesse, prazerosamente, atingir os objetivos previamente traçados pelo Senhor ao ser humano.

Deus, na Sua infinita bondade e misericórdia, nada impôs ao homem, mas tão somente “propôs”. Aqui é que se encontra o propósito divino: é uma proposta, uma oferta que fez ao homem, deixando, porém, ao homem o livre-arbítrio, ou seja, o poder de atender, ou não, à proposta divina, o poder de obedecer-Lhe, ou não.

Por isso, todo aquele ambiente de delícias foi mantido sob condição, representada pela árvore da ciência do bem e do mal. Se o primeiro casal cumprisse tudo quanto o Senhor lhe havia determinado, ou seja, que não comesse do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, permaneceria em comunhão com o Senhor e desfrutaria das condições amplamente favoráveis para que cumprisse o propósito estabelecido por Deus. Se, no entanto, desobedecesse, perderia aquelas condições e não conseguiria atingir o propósito divino.

– Foi, infelizmente, o que aconteceu. O primeiro casal não obedeceu ao Senhor e, por isso, perdeu as condições favoráveis de que desfrutava e, sem as quais, jamais conseguiria cumprir o propósito divino. Como consequência disto, foi expulso do jardim do Éden, sendo-lhe também negado o acesso à árvore da vida, o símbolo da comunhão com Deus. Não pôde mais frutificar, sendo que a multiplicação e o povoamento da Terra se deram em condições penosas, sem que se pudesse dominar e sujeitar a Terra como anteriormente previsto.

A perda da comunhão com Deus significou, também, a perda da comunhão entre os próprios homens, que passaram a ter um relacionamento conflituoso, a começar do primeiro casal, com a dominação do macho sobre a fêmea. Por terem cometido o pecado, os homens passaram a ser escravos do pecado (Gn.4:7; Jo.8:34), o que os impedia de agirem fraternalmente e de forma bondosa, visto que a imaginação do pensamento de seus corações passou a ser má continuamente (Gn.6:5).

– Esta triste realidade do divórcio entre o propósito divino e o propósito do homem no pecado é bem revelada no livro de Jeremias, onde a palavra “propósito” encontrada na Versão Almeida Revista e Corrigida é tradução, em quase todas as oportunidades, da palavra “sheriyruwth” (?????), cujo significado é “imaginação” (como é traduzida na Versão do Rei Tiago), “obstinação” e “dureza” (como se encontra na Versão Internacional e na Bíblia de Jerusalém), “raciocínio rebelde” e “rebeldia” (como se encontra na Nova Versão Internacional) (Jr.3:17; 7:24; 9:14; 11:8; 13:10; 16:12; 23:17).

OBS: A única passagem em Jeremias em que a palavra “propósito” é tradução de outro termo hebraico é Jr.18:12 onde o termo hebraico é “machashabah” (?????), que a NVI traduz por “planos”, o que também faz a Versão do Rei Tiago, a Nova Versão Internacional e a Bíblia de Jerusalém.

– Distante de Deus, o homem não poderia, mesmo, ter o mesmo propósito do Senhor e, escravizado no pecado, passa a ter apenas como objetivo em sua vida o fazer mal ao próximo, o de praticar a maldade, o de satisfazer os desejos perversos e incontroláveis de sua natureza pecaminosa, a “carne” de que tanto fala o apóstolo Paulo, a satisfação de suas “paixões e concupiscências” (Gl.5:24), que geram a morte (Rm.7:5), o que o salmista chama de “mau propósito” no Sl.140:8, tradução aqui da palavra hebraica “zamam” (???), que a Versão do Rio Tiago traduz por “plano maligno” e que a Nova Versão Internacional e a Bíblia de Jerusalém traduzem tão somente por “plano”.

– Já o propósito divino, despido de qualquer maldade ou egoísmo, é estabelecido para tudo que há debaixo do céu, como nos mostra Salomão (Ec.3:1). É a palavra hebraica “chephets” (???), cujo significado é “delícia”, “bom desejo”, “desejo prazeroso”, que é repetido em Ec.8:6, onde o pregador ainda acrescenta que, apesar de haver um “bom desejo” para quem guarda o mandamento (Ec.8:5), há, também, “uma grande infelicidade para o homem” (segundo a versão da Bíblia de Jerusalém).

– Notamos, portanto, que o homem, ao desobedecer a Deus e enveredar pelo caminho do pecado, tomou uma decisão que lhe retirou a oportunidade de cumprir o propósito estabelecido por Deus para ele e nada que faça, em busca da obtenção deste objetivo, será alcançado, pois a malignidade de sua natureza pecaminosa o leva, inevitavelmente, a tão somente satisfazer a carne, com suas paixões e concupiscências, ou seja, a atingir o propósito maligno que o domina. E, no pecado, o que aguarda o homem é tão somente a morte, pois é este o resultado de sua desastrada decisão, o seu “propósito” que é contra ele próprio, como se vê nos textos de Is.19:17 e 29:15, onde a palavra “propósito” é tradução do hebraico “ ‘etsah” (???), cujo significado é “decisão”, “desígnio”, como se encontra na Nova Versão Internacional e na Bíblia de Jerusalém.

– Entretanto, é propósito de Deus restaurar a comunhão do homem com Ele. Isto já demonstrou no instante mesmo do juízo em virtude do pecado, quando revelou ao primeiro casal que viria a “semente da mulher” que restabeleceria a amizade entre Deus e o homem (Gn.3:15), propósito este que é devido única e exclusivamente a Deus e independe das obras humanas (Rm.9:11).

OBS: Em Rm.9:11, a palavra “propósito” é tradução do grego “próthesis” (????????), cujo significado é “apresentação”, “plano”, “resolução”.

– Por isso, quando analisamos o propósito divino, temos de ter plena consciência de que é Seu intento reatar o relacionamento com o homem e que isso somente é possível mediante a retirada do pecado, que é quem faz divisão entre Deus e o homem (Is.59:2). Por isso, nada que é oferecido ao homem por Deus pode ter como resultado a satisfação da carne, dos desejos incontidos da natureza pecaminosa do homem.

– Em sendo assim, vemos, claramente, que a pregação apresentada pela “teologia da prosperidade”, que, de forma muito apropriada foi chamada pelo professor Aristóteles Torres de Alencar Filho (Assembleia de Deus – Ministério do Ipiranga, São Paulo/SP) como “teologia da avareza”, não pode, de forma alguma, ser considerada como proveniente de Deus e inserta em Seu propósito.

– Com efeito, a partir do momento em que se defende a obtenção de riquezas materiais para o desfrute de todos os desejos humanos, está-se diante de uma satisfação da concupiscência e das paixões humanas, ou seja, está-se diante da satisfação da carne e isto, à evidência, tem a ver com a imaginação continuamente má dos pensamentos dos corações dos homens e nunca com o propósito divino. Ora, a satisfação das concupiscências nada mais é que a manutenção do homem sob a escravidão do pecado e um tal ensino somente pode ter origem nas hostes malignas, jamais em Deus.

O propósito de Deus para o homem é o de livrá-lo do domínio do pecado, de libertá-lo mediante o encontro pessoal com Cristo Jesus, a Verdade (Jo.8:32,36) e, mediante esta libertação do pecado, fazer com que o homem volte a ter comunhão com o seu Criador e, desta forma, possa cumprir o propósito a ele estabelecido de frutificação, multiplicação, povoamento e sujeição da Terra e domínio sobre a criação terrena. Não é por outro motivo que o Senhor diz que nos escolheu para que vamos e demos fruto permanente (Jo.15:16).

II – COMO DEVE SER O HOMEM QUE ATENDE AO PROPÓSITO DIVINO

Com o retorno à comunhão com Deus, o homem é abençoado com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Ef.1:3), pois Deus nos escolheu para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor (Ef.1:4).

– Assim, o propósito de Deus é que, uma vez salvos por Cristo Jesus, nós sejamos santos e irrepreensíveis diante d’Ele, ou seja, a salvação tem como objetivo fazer-nos separados do pecado enquanto peregrinarmos nesta Terra, não tendo motivo algum para sermos censurados diante de Deus.

Ser santo é ser separado do pecado, é voltar a ser imagem e semelhança de Deus, pois Deus é santo (Lv.11:44,45; 19:2; 20:26; 21:8; Is.6:3). Ora, o homem, por si próprio não pode alcançar a santidade, necessita ser santificado pelo Senhor (Lv.21:15,23; 22:9,16; Ez.37:28; I Co.1:2; 6:11; Hb.10:10,14).

Para ser santificado, o homem precisa manter uma vida de comunhão com o Senhor, santificando-se durante todo o tempo de vida sobre a face da Terra (Ap.22:11) por meio da Palavra de Deus (Jo.17:17), da oração (I Tm.4:5), do jejum (Mc.2:20), do temor a Deus (II Co.7:1) e da participação digna na ceia do Senhor (I Co.11:23-29).

– A separação do pecado, ou seja, a santificação, que é contínua e condição “sine qua non” para se ver o Senhor (Hb.12:14), exige de cada um de nós que não nos conformemos com este mundo, mas que sejamos transformados pela renovação do nosso entendimento, a fim de que experimentemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm.12:2).

– Ora, isto é que utilizar-se da “razão”, pois o “culto racional” é este sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm.12:1), caracterizado por esta disposição de não nos conformarmos a este mundo, ou seja, de não termos a mesma mentalidade, os mesmos valores mundanos. Entretanto, não é isto que apregoa a teologia da prosperidade.

– Com efeito, a teologia da prosperidade adota os valores mundanos do “ter” em detrimento do “ser”, da idolatria do dinheiro e das posses, os valores do materialismo que, no sistema capitalista dominante em nossos dias, significa os valores do consumismo e do hedonismo desenfreados, onde as pessoas valem pelo que têm pelo que consomem, pelo que possuem, pelo que gastam, onde o prazer imediato dita as regras, sem sequer se medirem as consequências.

Quando há o estímulo ao consumo, à posse de bens materiais, à busca do prazer imediato como se isto fosse “felicidade”, estamos nos conformando ao mundo, estamos assumindo a forma, o modo de vida do mundo e, obviamente, isto é a própria negação da santificação, a própria recusa de se separar do pecado, visto que o mundo está no maligno (I Jo.5:19b).

– Quando priorizamos a ida a “shopping centers” em detrimento de um momento para estarmos com o Senhor e, pior do que isto, quando vamos a uma suposta reunião de culto a Deus para adquirirmos condição de, oportunamente, irmos nos deleitar nos prazeres mundanos, estamos a mostrar que jamais cultuamos a Deus, mas que estamos servindo à cobiça decorrente do “amor do dinheiro”. Que Deus nos livre disto, amados irmãos!

– O propósito de Deus é que nos santifiquemos, que nos separaremos continuadamente, cada vez mais do pecado, mudando nossa forma de viver a fim de que, a cada instante, a cada momento nos aproximemos mais e mais do Senhor, fazendo aquilo que Lhe é agradável.

– Mas, além de sermos santos, precisamos ser irrepreensíveis diante de Deus, diz-nos o apóstolo (Ef.1:4).

Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos um coração reto diante de Deus (At.8:21), coração este que será reto, entre outras coisas, se não acharmos que os dons de Deus se adquirem por dinheiro (At.8:20), ou seja, exatamente o contrário do que prega a teologia da prosperidade. Quem segue tais falsos ensinamentos, a exemplo do ex-mago Simão, não tem coração reto diante de Deus e, por isso, não tem parte nem sorte na Palavra de Deus e, por conseguinte, não está em comunhão com o Senhor. Lembremo-nos disto, amados irmãos!

Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos uma vida de oração. Quando vivemos de acordo com a vontade de Deus, nossas orações sobem à presença de Deus e estão em memória diante d’Ele (At.10:31; Ap.8:3,4). A oração é uma demonstração da nossa completa e eterna dependência do Senhor. Devemos entender que, pela salvação, estamos nos lugares celestiais em Cristo e, portanto, a oração é o meio pelo qual podemos entrar perante o Senhor, perante o Seu trono de graça, para buscar a satisfação das nossas necessidades, para desfrutarmos da comunhão que temos com Ele (Hb.4:16).

– Aqui, mais uma vez, vemos que a teologia da prosperidade procura nos desviar do propósito divino para o homem, já que transforma a oração em “imposição a Deus”, em “cobrança de direitos”, em “determinações” e “decretos”, algo totalmente divorciado da realidade bíblica, que nos ensina que, quando oramos, quando entramos no trono da graça, fazemo-lo para alcançar a graça e a misericórdia do Senhor, para que sejamos ajudados em tempo oportuno (Hb.4:16).

– Em vez de “reivindicar direitos”, o que o salvo faz é clamar, pedir para que receba o que não merece (graça) e não receba o que está a merecer (misericórdia). As orações são petições que precisam ser conhecidas diante de Deus, com súplicas e ações de graças (Fp.4:6) e orações por todos os homens, em especial para os que estão em eminência, porque é isto é bom e agradável a Deus (I Tm.2:1-3).

Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que tenhamos uma vida de ajuda aos necessitados. Além das orações de Cornélio, estavam, também, em memória diante de Deus as suas esmolas (At.10:31). Para sermos irrepreensíveis diante do Senhor, precisamos demonstrar nosso amor ao próximo, ajudando os necessitados.

– Se realmente estamos em comunhão com Deus e, diante desta comunhão, o amor de Deus é derramado em nossos corações (Rm.5:5) e a prova da presença do amor divino em nós é que amamos uns aos outros (I Jo.3:11,14). O apóstolo João é bem explícito: “Quem pois tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele a caridade de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (I Jo.3:17,18).

– No entanto, a teologia da prosperidade é egoísta, defende a busca desenfreada pelos “bens do mundo”, mas não tem uma só palavra de incentivo ou estímulo à ajuda aos necessitados. Os “testemunhos” que são veiculados pela mídia falam da acumulação de riquezas por parte dos “que têm fé”, mas, em momento algum, mostram estes “campeões de fé” ajudando quem precisa. Pelo contrário, os desprovidos de recursos são chamados de “incrédulos”, de “homens de pouca fé”, de “pecadores”.

– O que se tem, lamentavelmente, é um ensino e um incentivo para que todos se tornem  novos “Cains”, que não se sintam “guardadores do seu irmão”, que não estejam nem um pouco preocupados ou incomodados com o sofrimento do próximo. São ensinos que procuram fazer realçar nos salvos o velho homem que já foi crucificado com Cristo (Rm.6:6), são pregações que querem transformar os salvos em “pessoas do maligno” (I Jo.3:12).

OBS: “…Akiva ben José, o Sábio da Mishnah do século II [Mishnah – as tradições orais dos judeus – Mt.15:2 — que foram reduzidas a escrito depois da destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C., observação nossa], prezava acima de todos os mandamentos das Escrituras aquele que dizia: ‘Ama a teu semelhante como a ti mesmo’. Dizia ele que nisso se encerrava a quintessência de toda a Torah porque equiparava o amor divino de Deus com o amor terreno do homem, considerando os dois como um exercício duplo e ativo da virtude. No Talmud [segundo livro sagrado do judaísmo, que contém a tradição oral e o seu comentário, observação nossa], Deus, que representa o papel de Pai extremoso, diz aos judeus: ‘Meus filhos, meus filhos, haverá qualquer coisa que eu peça para mim a vocês? Só exijo que amem uns aos outros’. Esse princípio afirmativo do amor tornou-se o fundamento para os subsequentes valores éticos judaicos dos quais os ensinamentos de Jesus se derivaram.(…). O Guarda de Teu Irmão (Kol Israel Chaverim). Todos em Israel são companheiros. Assim dizem os credos da solidariedade judaica de grupo que foram enunciados com convicção profunda pelo povo judeu durante dois mil anos. Daí advem a obrigação fundamental de todo irmão proteger e cuidar do bem-estar do outro.…” (Valores éticos judaicos. In: A JUDAICA, v.6, pp.898-9).

Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós uma boa consciência (At.23:1). A consciência, esta “voz de Deus em nós”, é uma das faculdades do espírito humano, que nos indica o que é certo e o que é errado. A “boa consciência” é o espírito que está em comunhão com Deus e, por isso, segue a direção e a orientação do Espírito Santo (Rm.8:1,2).Quem tem boa consciência inclina-se para as coisas do espírito e não para as coisas da carne (Rm.8:5) e a inclinação do espírito é “vida e paz” (Rm.8:6b).

– A teologia da prosperidade leva os homens a se inclinar para as coisas da carne, como já temos visto, uma vez que levam os homens a correrem atrás da satisfação dos prazeres mundanos, das paixões e concupiscências, pois o “amor do dinheiro” leva o homem a muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e na ruína (I Tm.6:9), faz com que o homem se desvie da fé e se traspasse a si mesmo com muitas dores (I Tm.6:10). Em suma: a teologia da prosperidade leva o homem à morte, pois a inclinação da carne é morte (Rm.8:6a).

Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós fé, mas não a fé que se está a propalar pelos teólogos da prosperidade, que não é fé mas, sim, uma arrogância, uma dureza de coração diante da Palavra do Senhor. A “fé inteligente” que se prega por aí é uma autoconfiança, uma petulância diante do Senhor, uma “imposição” dos caprichos e desejos próprios ao Senhor, “um pensamento positivo” que se impõe a tudo e a todos. A fé de que fala a Bíblia, porém, provém do próprio Deus (Ef.2:8), da Sua Palavra (Rm.10:17) e é a confiança em Deus, a certeza de que tudo quanto Deus permite que nos aconteça é para o nosso bem (Jr.29:11; Rm.8:28). Não é um instrumento para dirigir o Senhor, mas, bem ao contrário, a tranquilidade que advém do fato de deixar que sejamos totalmente dirigidos por Ele (Sl.37:3-5).

– A teologia da prosperidade, ao defender a “fé inteligente”, o “pensamento positivo”, a “confissão positiva”, está a nos levar tão somente ao “propósito humano”, às já aludidas imaginações continuamente más dos nossos corações, pois o coração do homem é enganoso (Jr.17:9) e fonte de toda a sorte de pecados (Mt.15:18,19). O “propósito humano” é, como já se viu supra, “dureza de coração”, é fechar-se à voz do Senhor, ou seja, é precisamente o contrário da fé. Não é por outro motivo que o apóstolo Paulo diz que quem está na carne não pode agradar a Deus (Rm.8:8), posição oposta a quem tem a verdadeira e genuína fé (Hb.11:6).

– Quando damos vazão ao nosso coração, aos desejos de nossa natureza pecaminosa, deixando de atender à voz do Senhor para querermos ser atendidos por Ele em nossos caprichos e desejos, selamos, com nossa obstinação, a nossa perdição, a exemplo do que fizeram os israelitas da geração do êxodo que, por sua obstinação em Massá e Meribá (Ex.17:7; Sl.95:8; Hb.3:7,8), acabaram tombando no deserto (Hb.3:15-17), uma vez que tal obstinação não revelou fé, mas, bem ao contrário, incredulidade (Hb.3:19).

Ser irrepreensível diante de Deus é saber suportar as aflições e tribulações, aguardando o seu término apenas quando da volta de Cristo Jesus. O apóstolo Paulo assim ensinou aos tessalonicenses, lembrando-lhes que, apesar do grande crescimento da fé e do amor entre aqueles crentes, nem por isso deixavam eles de sofrer aflições e perseguições, sofrimentos aqueles que somente teriam garantia de superação quando da volta do Senhor  para arrebatar a Igreja (II Ts.1:3-7).

– A teologia da prosperidade, ao revés, ensina que o caminho do Evangelho não tem sofrimento, sendo de todos conhecido o bordão “pare de sofrer”, que se encontra nas portas dos templos de uma denominação que segue esta falsa teologia. Não só a Bíblia não fala em parada de sofrimento, como diz que saber suportar a perseguição advinda deste mundo, que nos aborrece por sermos fiéis ao Senhor (Jo.15:18-20), é uma bem-aventurança, uma característica do discípulo genuíno e autêntico do Senhor Jesus (Mt.5:10-12). Aliás, os apóstolos ensinavam que, por muitas tribulações nos importar entrar no reino de Deus(At.14:22).

Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que exerçamos piedade para com a nossa própria família bem como a recompensar os pais (I Tm.5:4). De nada adianta querermos fazer o bem ao próximo se deixamos os mais próximos a nós, que são os nossos familiares. Devemos ser piedosos, ou seja, dentro do significado da palavra grega “eusebeo” (???????), adorar a Deus, mostrar reverência e respeito ao Senhor, cuidando dos nossos familiares, em especial dos nossos pais, a quem devemos recompensar pelo cuidado que tiveram conosco.

– Mais uma vez vemos como devemos estar atentos ao cuidado do nosso próximo, algo bem diverso do egoísmo e individualismo dominantes na pregação da teologia da prosperidade, atitude que é própria dos homens que andam sem Deus e sem salvação, que amam tão somente a si próprios e que são desobedientes a pais e mães (Rm.1:29-31; II Tm.3:2).

Ser irrepreensível diante de Deus exige de nós que sejamos “o homem encoberto no coração, no incorruptível trajo de um espírito manso e quieto” (I Pe.3:4), ou seja, uma pessoa que prime por viver em santidade, na absoluta dependência de Deus e não na ostentação externa, precisamente o contrário do que ensina a teologia da prosperidade. O que é precioso diante de Deus são “as qualidades pessoais internas”, “o homem oculto no íntimo do coração”, a “incorruptibilidade de um espírito dócil e tranquilo” (como traduziu a Bíblia de Jerusalém).

– Mas tanto a santidade quanto a irrepreensibilidade que temos de ter diante de Deus, cumprindo assim o propósito divino estabelecido para o homem, devem ser exercidas “em caridade” ou “em amor” (Ef.1:4).

O amor é o ambiente onde seremos santos e irrepreensíveis diante de Deus. O amor de que aqui se fala é o amor de Deus, que foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm.5:5), o amor descrito pelo apóstolo Paulo no capítulo 13 da sua primeira epístola aos coríntios.

O amor divino é, primeiramente, sofredor (I Co.13:4), ou seja, sabe suportar o sofrimento, o que, como já vimos, permite, pois, que o salvo seja irrepreensível diante de Deus (II Ts.1:3-7). Quem não suporta o sofrimento, quem vive correndo atrás de uma vida sem qualquer dificuldade revela, com esta atitude, que não tem o amor de Deus em seu coração.

O amor divino é, em segundo lugar, benigno (I Co.13:4), ou seja, deseja o bem, quer o bem do outro. Por querer bem ao outro, o salvo pratica boas obras, ajuda o próximo, leva-o em conta, a começar por dar condições ao que o outro alcance a salvação em Cristo Jesus, o maior bem que um ser humano pode obter, sendo, pois, alguém que ajuda a sustentar a obra do Senhor sobre a face da Terra.

O amor divino não é invejoso (I Co.13:4), ou seja, o salvo em Cristo Jesus não tem inveja do próximo, principalmente daquilo que o outro venha a possuir. A “teologia da prosperidade”, entretanto, incentiva os salvos a invejarem os que têm posses, a cobiçar os bens dos outros, inclusive tendo-os por bem-aventurados e felizes, como, aliás, faziam os judeus nos dias de Malaquias (Ml.3:14,15). Tal atitude é reprovável diante de Deus e indício de desvio espiritual (Sl.73:1-3).

O amor divino não trata com leviandade (I Co.13:4), ou seja, para se utilizar aqui da expressão da Bíblia de Jerusalém, “não se ostenta”. O salvo em Cristo Jesus não quer “aparecer”, não quer ser “estrela”, não quer “ser cabeça e não cauda”, mas quer, simplesmente, que o Senhor apareça, que o Senhor seja glorificado. A busca por riquezas para que haja uma “ostentação” não é atitude de quem tenha o amor de Deus no coração.

O amor divino não se ensoberbece (I Co.13:4), ou seja, “não incha de orgulho”. A abundância material desmedida traz, como consequência, ensina-nos Agur, a soberba, a tentação de se achar que não se depende de Deus, que se é autossuficiente (Pv.30:9a), o que significa a ruína do homem. A soberba leva o homem a se fechar para o próximo, a pensar somente em si, mentalidade que corresponde aos que estão perdidos, não a quem tem Cristo Jesus em seu coração (II Tm.3:2).

O amor divino não se porta com indecência (I Co.13:5), ou seja, uma vez mais se utilizando da Bíblia de Jerusalém, “nada faz de inconveniente”. A cobiça pelos bens materiais gera no ser humano uma insatisfação permanente, uma insaciabilidade que faz com que venha a cometer desatinos e loucuras para ter cada vez maior enriquecimento (I Tm.6:9), que o tornará um insensato espiritual, como ensinou o Senhor Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21).

O amor divino não busca os seus interesses (I Co.13:5), mas, sim, os interesses de Cristo Jesus (Fp.2:21). Quem tem o amor de Deus em seu coração não vive para si, mas vive para Cristo, pois não mais vive, o Senhor Jesus é que vive nele (Gl.2:20). Quem corre atrás de riquezas e benesses materiais mantém o seu ego ativo e não mais crucificado com Cristo e, sem a autonegação, não se poderá seguir a Jesus (Mc.8:34; Lc.9:23).

O amor divino não se irrita (I Co.13:5), ou seja, quem tem o amor de Deus em seu coração não fica irritado, não perde a paz, nem tampouco a tranquilidade, porque tem paz com Deus e a paz de Deus. Quem, no entanto, confia nas riquezas e as busca facilmente se perturba.

O amor divino não suspeita mal (I Co.13:5), ou seja, conforme diz a Bíblia de Jerusalém, “não guarda rancor”, porque é benigno, quer bem a todos e a todos tem por inocente até prova em contrário. À evidência, quem tem como finalidade de vida a posse de bens materiais sempre há de suspeitar o outro, sempre há de achar que alguém lhe quer tomar o que tem, assim como ele próprio busca sempre amealhar para si mais e mais bens materiais.

O amor divino, por fim, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade (I Co.13:6), ou seja, busca sempre a prevalência da verdade, que é Cristo (Jo.14:6), não ficando contente com qualquer situação de injustiça, mesmo que ela o favoreça. Quem, porém, quer amealhar para si bens materiais, fica contente quando os bens vêm para si, mesmo que isto tenha ocorrido numa situação de injustiça.

– Como se pode perceber, portanto, a posse do amor de Deus, que é o único meio pelo qual se consegue ser santo e irrepreensível diante de Deus, nada tem que ver com a busca de bens materiais. Ao contrário, como nos ensina o Senhor Jesus, quem ama as riquezas nunca poderá amar a Deus (Mt.6:24).

III – O PAPEL DA PROSPERIDADE MATERIAL ANTE O PROPÓSITO DIVINO PARA O HOMEM

– Tendo visto qual é o propósito de Deus para o homem e como o homem pode atingir este propósito, ante a salvação em Cristo Jesus, resta-nos, para concluir este estudo, observar qual o papel da prosperidade material ante este propósito do Senhor para a humanidade.

– Se o propósito de Deus para o homem é abençoá-lo, em Cristo, com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo para que sejamos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor, que papel tem a prosperidade material neste propósito?

– A resposta é quase que intuitiva. A prosperidade material nada significa na realização do propósito divino para o homem. A nossa salvação não depende dos bens materiais, nem é acompanhada por eles, uma vez que, em alcançando a salvação em Cristo Jesus, somos levados aos lugares celestiais em Cristo, onde desfrutaremos de todas as bênçãos espirituais e, para tanto, não precisamos de bens materiais.

– Bem disse o salmista que todos os bens do mundo são insuficientes para a redenção de uma só alma e a sua posse não livrará o homem da perdição (Sl.49:6-9). Por isso, não só não se pode adquirir a salvação com bens materiais, como também não há qualquer necessidade de o salvo possuir bens materiais para comprovação da sua salvação. Nossa redenção custou preço muito mais alto: o sangue de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (I Pe.1:18,19).

– Para termos as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo com o fim de sermos santos e irrepreensíveis diante de Deus em amor não necessitamos de bens materiais e, por isso, a salvação não traz, como consequência, o enriquecimento material, como apregoam os falsos arautos da teologia da prosperidade.

– Não se faz necessário, de forma alguma, que se tenha abundância de bens materiais nem tampouco saúde física imune a enfermidades para que se alcancem as bênçãos decorrentes da salvação, que são espirituais, nem tampouco para que se atinja a santidade e irrepreensibilidade em amor para o que fomos salvos.

Se, porém, o Senhor, que é o dono do ouro e da prata (Ag.2:8), quiser, por Sua vontade, conceder a algum salvo a prosperidade material, o que pode ocorrer já que a Deus pertencem todos os bens materiais, esta abundância tem como finalidade cumprirmos o propósito estatuído pelo Senhor com a nossa salvação, ou seja, o de sermos santos e irrepreensíveis diante d’Ele em amor.

– Deste modo, a quem Deus conceder riquezas materiais, bênção que pode dar mas que não decorre, em absoluto, da salvação em Cristo Jesus, mas da vontade de Deus para com aquela pessoa, deve o beneficiário da abundância de bens usar a sua riqueza para a santidade e a irrepreensibilidade diante de Deus em amor.

– Para tanto, a abundância deve ser exercida, em primeiro lugar, com o devido cuidado para que ela não se torne em instrumento de pecado. Jamais o rico salvo poderá usufruir da sua riqueza para a satisfação das paixões e concupiscências da carne. Não deve se servir das riquezas para pecar. Este, aliás, foi o grande erro de Salomão.

Em segundo lugar, o rico salvo não pode folgar nas riquezas que possui, mas, sim, folgar com a verdade, alegrar-se na Palavra de Deus (Sl.119:14). O rico salvo não pode confiar nas suas riquezas, não pode pôr nelas o seu coração, mas continuar a confiar em Deus e a tê-lo como a razão de sua vida (Sl.62:10). Um dos grandes riscos da riqueza é a avareza, que é a idolatria do dinheiro (Cl.3:5).

Em terceiro lugar, o rico salvo não pode, em absoluto, achar que as suas riquezas são um “passaporte para o céu”, achando que, com o seu dinheiro, poderá conquistar as bênçãos espirituais ou qualquer privilégio na obra do Senhor. Pensar assim é não ter o coração reto diante de Deus (At.8:20,21). Tentar manipular a obra de Deus por causa de seus bens materiais é perder sorte e parte com o Senhor.

Em quarto lugar, o rico salvo tem de pôr suas riquezas a serviço da obra de Deus e dos necessitados, tornando-as instrumento do amor de Deus. As riquezas materiais são concedidas aos homens para que eles, por meio delas, exerçam o amor de Deus, cuidando tanto da obra de Deus, a fim de que a humanidade alcance a salvação em Cristo Jesus, como também ajudando os menos afortunados, mostrando assim o amor ao próximo. Ao rico salvo é dada a oportunidade de imitar a Cristo que, sendo rico, por amor de nós, Se fez pobre para que enriquecêssemos (II Co.8:9).

– Tal atitude não empobrecerá o rico salvo pois, se Deus lhe deu riquezas é precisamente para que ele cumpra tal mister, pois a sua riqueza não provém senão da vontade de Deus. Lembremo-nos de Jó, cuja beneficência para com os necessitados em momento algum lhe trouxe pobreza (Jó 29:12-16), ou, mesmo, dos pobres crentes da Macedônia que, mesmo ajudando os necessitados, nem por isso ficaram menos pobres (II Co.8:1-3).

– A prosperidade material, portanto, quando dada por Deus a alguém, é apenas um instrumento secundário para que, dentro deste mundo, onde o dinheiro é necessário, se persiga o propósito divino ao homem. Tal propósito independe da posse de bens materiais mas, quando o Senhor no-la conceda, é com a única e exclusiva finalidade de mostrar, nas coisas desta vida, a busca deste sublime propósito.

– Por isso, não busquemos as coisas deste mundo, mas, sim, as “coisas de cima”, o que realmente Deus nos preparou como consequências da salvação (Cl.3:1-3) mas, se o Senhor, por Sua vontade, conceder-nos “coisas da terra”, que as utilizemos para serem instrumentos que nos auxiliem a não só buscar as “coisas de cima”, mas que outros também as possam procurar.

Caramuru Afonso Francisco

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