Lição 3 – A ignorância de uma geração

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Texto Áureo

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“E foi também congregada toda aquela geração a seus pais, e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco a obra que fizera a Israel”. Jz 2.10

Verdade Aplicada

Toda a geração que desprezar o ensino da vontade do Senhor estará escravizada por uma su­til vã maneira de viver, ficando a mercê do servilismo alheio como aconteceu aos filhos de Israel.

ISRAEL NO PERÍODO DOS JUÍZES

Introdução ao período (2:6 – 3:6)

2:6-10. A morte de Josué. Estes versículos têm seu paralelo em Josué 24:28-31, o que vem fortalecer a opinião, de que 1:1-2:5 provém de fonte separada, que possivelmente foi uti­lizada pelo editor original como pano de fundo da principal porção deste livro. Esta seção, em Josué, conclui o livro, como também o relato da conquista; aqui, porém, esse material introduz o período dos juízes. Todas as pequenas diferenças são explicáveis mantendo-se este fato em mente. Por exemplo, no vers. 7, o adjetivo grandes qualifica as grandes obras feitas pelo Senhor, mas isto não é encontrado em Josué 24:31. A adição é significativa, visto que a apostasia do período dos juízes e muito mais repreensível quando vista através das grandes obras feitas pelo Senhor. Grandes privilégios envolvem grandes responsabilidades.

O versículo 6 nos ajuda a entender a natureza da conquista. As campanhas unificadas sob o comando de Josué haviam quebrado a coluna dorsal da resistência cananéia, contudo, grande parte da obra de con­quista local havia sido atribuída às tribos individuais. Desse modo, após a cerimônia da renovação da aliança, em Siquém, as tribos des­pedidas por Josué trataram de completar a ocupação dos territórios que lhes haviam sido alocados. Josué 23, que data do período quando Josué era “já velho e entrado em dias” isto é, aproximadamente do mesmo período do capítulo 24, torna claro que as tribos tinham muita batalha pela frente, batalha ferrenha, antes que se pudesse dizer que a terra havia sido conquistada. Alguns problemas associados com a conquista tornam-se menos difíceis quando se mantém em mente que houve estas duas fases.

Revela-se a influência de Josué na lealdade de Israel ao Senhor durante sua vida, bem como dos anciões ligados a ele. No registro bíblico dá-se ênfase às virtudes e façanhas militares de Josué. Sublinhando tudo isto, contudo, havia obviamente a profunda lealdade ao Senhor, e a integridade de conduta parecida com a de seu grande antecessor, Moisés. Josué, bem como todos os verdadeiros homens de Deus, de todas as eras, constituem o sal da terra, que evita a corrup­ção e assegura a pureza. Mas, cada nova geração deve empenhar-se em sua própria experiência religiosa; não pode continuar na força espiritual de seus heróis do passado. É bem claro que o paganismo nunca esteve longe do povo de Deus durante este período primitivo da história de Israel; e quando Josué e seus companheiros morreram, a nova geração não partilhou de sua fé, nem de sua lembrança dos grandes livramentos que Deus lhes trouxera (2:10).

Na introdução, sugere-se que o período de Josué e dos anciões que lhe sobreviveram foi de 30 anos. Isto deve ser considerado como mínimo, porque Josué, que morreu aos 110 anos de idade, era jovem à época do êxodo (cf. Êx 33:11). Ele é descrito, aqui, como servo do Senhor (8), designação frequentemente atribuída a Moisés e aplicada, também, a outros importantes líderes da história de Israel, como Davi e os profetas. Implica em vocação para uma missão especial. Não há posição mais elevada, nem mais honrosa, do que a de fiel servo do Senhor (cf. Hb 3:5). Timnate-Heres (9) deve-se ler “Timnate-Sera”, como em Josué 19:50; 24:30; algum escriba obviamente inverteu as consoantes (no hebraico). O local do sepultamento de Josué foi iden­tificado com razoável segurança como sendo a moderna Tibne, a 16 quilômetros a noroeste de Betel.

2:11-19. O julgamento de Deus sobre a apostasia de Israel. Sumariza-se aqui a história de quase dois séculos, indicando os princípios que regem o relacionamento de Deus com Israel. Durante este pe­ríodo houve um ciclo repetitivo de quatro fases: apostasia, servidão, súplica e livramento. Este é o padrão ilustrado nos capítulos seguin­tes. A nação abandonou o Senhor, crime que envolvia a deslealdade a seus antepassados e esquecimento voluntário das poderosas obras que o Senhor realizara em seu benefício, especialmente o livramento do Egito. Todas as comprovações de suas tradições deveriam ter asse­gurado a fidelidade do povo, mas, ao contrário, voltaram-se para os deuses dos povos no meio dos quais haviam chegado, cuja religião parecia estar mais diretamente voltada para a prosperidade do povo.

13. Baal filho de El, no panteão cananeu, era o deus das tempestades e das chuvas, sendo, portanto, o controlador da vegetação. Ele era o grande deus ativo, sendo El uma figura um tanto nebulosa; o culto a Baal era largamente difundido no Antigo Oriente Próximo. Notam-se algumas variantes no Velho Testamento como, por exemplo, Baal-Berite (Jz 9:4), Baal-Peor (Nm 25:3), Baal-Gade (Js 11:17), e Baal-Zebube, ou mais provavelmente Baal-Zebul (2 Rs 1:2). Jezabel intro­duziu em Israel o culto a Baal-Melcarte, a variedade fenícia. Hadade era o nome sírio correspondente ao Baal cananita. É por essa razão que os escritores do Velho Testamento agrupam as várias entidades de Baal, um tanto desdenhosamente, sob o nome de Baalim, a forma do plural. O fato de que Baalim também pode significar “maridos”, “proprietários” ou “senhores” dá mais vida à metáfora do adultério (cf. vers. 17), empregada tão frequentemente pelos profetas (por ex.: Os 2:1ss.; 3:1s.; Jr 3:6ss., etc.).

Astarote, consorte de Baal, é a forma do plural de Astarte, deusa da guerra e da fertilidade, que era adorada como Istar, na Babilônia, e como Anate, no norte da Síria. Nos textos ugaríticos, Anate, com frequência denominada de “virgem”, é irmã de Baal, e grande deusa ativa. Há uma certa fluidez no inter-relacionamento entre os deuses da natureza no Crescente Fértil. A religião destes deuses da fertili­dade era acompanhada por todos os tipos de práticas lascivas, espe­cialmente em Canaã, onde tal religião era tão degradada que incor­porava até sacrifícios de crianças.

14, 15. O fracasso de Israel em exterminar os cananeus automatica­mente redundou na adoração contínua aos seus deuses. Assim, a na­ção que havia derrotado os soldados da terra, em batalha, sucumbiu às influências débeis dos deuses da terra. O historiador, entretanto, estava profundamente cônscio de que os deuses da terra não tinham existência real, exceto na imaginação de seus adoradores. Só Deus era deus, cuja tristeza soberana diante da infidelidade de Israel era demonstrada na maneira como usava as nações circunvizinhas como vara de punição para Seu próprio povo. Israel era oprimido, escra­vizado e enfraquecido e, mediante a operação da lei de causa e efeito (a exaustão de sua força espiritual pelo culto sensual a Baal se fazia acompanhar de um declínio correspondente em sua vitalidade física e moral), a nação afundava em profunda angústia. O abandono do Senhor da parte deles teve outra consequência: visto que os laços que uniam a nação eram, primordialmente, laços religiosos, derivados da aliança e expressos na adoração no santuário anfictiônico, o enfraque­cimento desses laços conduziu ao enfraquecimento de sua unidade na­cional, ficando o povo desorganizado e dividido.

16. Não há menção categórica, aqui, de que em sua angústia, os israe­litas se voltaram para o Deus a quem haviam abandonado. Contudo, a regularidade com que isto é observado subsequentemente (3:9, etc.), permite-nos presumir que aqui houve esta volta. Quando a nação clamava ao Senhor, Ele, em Sua misericórdia e magnanimidade, levan­tava juízes para libertá-los de seus opressores. Já observamos que estes homens eram considerados como tendo recebido poderes sobrenaturais da parte de Deus, os quais eram manifestos no livramento do povo e subsequente governo que estabeleciam. Contu­do, até mesmo a influência desses juízes era de pouca duração. Os israelitas tinham memória curta e, quando a crise era debelada, esque­ciam-se tanto da miséria anterior como do estado de arrependimento temporário a que tinham sido induzidos por ela. A “volta ao Senhor” era, pois, um expediente superficial. É possível que todos nos lem­bremos de algo semelhante em nossa própria época, quer na vida da nação (lembremo-nos dos dias de oração nacional, durante as guerras mundiais deste século), quer em nossa própria vida pessoal. Como é fácil usar-se o Deus Todo-Poderoso como se fora corpo de bom­beiros, ou pronto-socorro! A gratidão pelo livramento, tanto do antigo Israel como do Israel espiritual de hoje, deve expressar-se em dedica­ção permanente da vida (cf. Rm 12:1 ss.).

17. Havia obediência imperfeita até mesmo nos dias dos próprios juízes, atitude esta denominada adultério espiritual: “. . . antes se pros­tituíram após outros deuses, e os adoraram.” Israel, chamado para ser a noiva do Senhor, abandonou-O para seguir seus amantes, isto é, os deuses da fertilidade de Canaã. Esta vivida ilustração da aliança violada do casamento provê o pano de fundo para o livro inteiro do profeta do oitavo século, a Israel, Oséias, e é aplicada por Jeremias, também, quanto à situação desesperadora de Judá, um século e meio mais tarde (Jr 3:1ss.).

18. Revela-se uma deterioração progressiva, em que cada ciclo suces­sivo se caracteriza por uma caída mais profunda na apostasia e cor­rupção, e por um arrependimento mais superficial do que no ciclo anterior. Tal processo está em harmonia consistente com nossa com­preensão moderna da psicologia do homem. A terminologia muda com o passar dos anos, contudo, os vislumbres profundos do interior da natureza humana, que o Velho Testamento nos proporciona, não podem ser negados. A voz da consciência pode ser abafada pelos su­cessivos atos pecaminosos, e o arrependimento pode tornar-se mais e mais superficial, até a pessoa ver-se enredada por um mau caráter, formado por uma enormidade de maus pensamentos e más ações, de tal forma que é necessário um milagre, para produzir-se um arrepen­dimento genuíno, e uma busca verdadeiramente sincera do Senhor, de todo o coração.

2:20-23. Os resultados da apostasia contínua. A obrigação de Israel, dentro da aliança sinaítica, era a de prestar lealdade e obediência cegas ao Senhor, que havia feito maravilhas pelo Seu povo. Isto jamais poderia ser considerado oneroso, em vista de seu relacionamento singular com seu Deus-Salvador (Dt 4:32-40), que havia cumprido Sua parte do contrato, ao cumprir a promessa feita aos patriarcas com respeito à Terra Prometida. A desobediência de Israel, contudo, foi seguida pela inevitável punição divina. Para o leitor moderno pode parecer um tanto incongruente que Deus deixasse os povos estrangei­ros dentro das fronteiras de Israel, como punição pela apostasia, e para testar a fidelidade futura da nação, quando a razão mesma do fracasso da nação é atribuída à incapacidade de Israel em eliminar esta população alienígena.

Esta dificuldade não existia para o historiador israelita, cuja visão da soberania do Senhor governava todas as causas secundárias, estan­do tudo subordinado, e atribuído, diretamente à Sua vontade determinadora. Na situação que mudara, por causa da desobediência de Israel, manifesta-se, ainda, esta soberania: Permitiu-se aos cananeus que permanecessem, a fim de que se testasse de modo adequado a lealdade do povo da aliança. Este foi um exame profundo em que a nação, em geral, não conseguiu aprovação.

3:1-6, Israel e seus vizinhos. Introduz-se, aqui, mais uma razão suplementar para a presença de consideráveis elementos estrangeiros. Não era apenas uma punição, nem apenas uma oportunidade de testar a fidelidade da nação; eles ali estavam para prover ao povo de Deus experiência na arte marcial. Estas razões não devem ser consideradas como contraditórias entre si, visto que o que ocupava a atenção do historiador sacro era o resultado global, relacionado diretamente ao Senhor, ao invés de um propósito único, dominante de tudo. Israel deveria viver num ambiente hostil, na maior parte de sua história, devido às pressões dos pequenos reinados ao redor ou, num estágio posterior, devido à sua posição estratégica entre os sucessivos poderes mundiais da Assíria, da Babilônia, da Pérsia e da Grécia, de um lado, e do Egito, do outro. O poderio militar era uma necessidade, um objetivo a ser atingido, humanamente falando, se Israel pretendesse sobreviver. Entretanto, a consecução deste poderio militar apenas ra­ramente obscureceu o fato de que a vitória não foi o resultado da força de Israel, mas da obra de Deus a seu favor (por, ex.: 2 Sm 8:6, 14).

É provável que o historiador original incluiu as listas dos ver s. 3 e 5, O primeiro relaciona quatro nações, enquanto este último re­laciona seis, sendo os cananeus e heveus comuns a ambos, o que sugere que as duas fontes estavam disponíveis ao redator sacro, que não as comparou. Os filisteus estavam estabelecidos em seu estado composto de cinco cidades: Gaza, Ascalom, Asdode, Ecrom e Gate. A seus governadores se dá sempre a designação de seren (senhor), palavra provavelmente relacionada com o grego koiranos, ou tyrannos, o fami­liar tirano da história grega clássica. Já observamos que a ascendên­cia dos filisteus provém da região do mar Egeu. O termo cananeu às vezes designa todos os habitantes originais daquela terra, às vezes aqueles que habitavam nos vales e áreas costeiras. Os sidônios eram cananeus que habitavam a área ao redor de Sidom. Seriam chamados de fenícios, posteriormente. Sidom, nesta época primitiva, tinha maior importância do que Tiro. Os heveus usualmente são identificados com os horeus (Gn 36:2; cf. 36:20, 29), os quais estabeleceram o flores­cente reinado de Mitanni, na Mesopotâmia Superior, na metade do segundo milênio a.C., invadiram terras na direção do sudoeste, até as cordilheiras do Hermom e do Líbano, e até a tetrápolis dos gibeonitas, a noroeste de Jerusalém (Js 9:7, 17). Foram feitas duas sugestões com respeito à entrada de Hamate. Poderia significar o ponto de aces­so entre as montanhas do Líbano ao grande vale sírio, no qual Ha­mate fica, ou, como sugerem alguns eruditos contemporâneos, “Labo de Hamate”, a moderna Lebwe, a 23 quilômetros ao norte-nordeste de Baalbek. Uma identificação menos viável relaciona os heveus com a palavra hebraica para “vila de tendas”, para considerá-los uma comunidade rural. Rodeado por todos estes ele­mentos diversos, Israel seria incapaz de manter sua pureza de raça e de religião; ao invés de permanecer fiel ao Senhor, houve uma rá­pida aceitação dos deuses da natureza, daquela terra, e aceitação também das práticas corruptas a eles associadas. As resoluções e de­clarações de lealdade da parte de Israel para com seu Deus da aliança, desapareciam rapidamente sempre que confrontadas com as forças do erro e da atração sensual.

Bibliografia A. E. Cundall

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