Lição 01 – O retorno ao primeiro amor

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Texto Áureo

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas”. Ap 2.5

Verdade Aplicada

O amor era um assunto mui­to importante para a igreja primitiva. Sua ausência era encarada como decadência na vida cristã.

Objetivos da Lição

Relembrar as primeiras obras como motivação para uma vida renovada;

Mostrar que a doutrina e o zelo pela ortodoxia não po­derão substituir o amor de Cristo;

Ensinar como o cristão pode voltar ao primeiro amor.

Textos de Referência

Ap 2.1        Escreve ao anjo da igre­ja que está em Éfeso: Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro:

Ap 2.2        Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos e o não são e tu os achaste mentirosos;

Ap 2.3        e sofreste e tens paci­ência; e trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste.

Ap 2.4        Tenho, porém, contra ti que deixaste a tua primeira caridade.

A carta a Éfeso — a igreja apostólica (Ap 2:1-7).

2:1    Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:

A cidade de Éfeso representa, historicamente, uma das mais vigorosas comunidades cristãs do N.T. Em sua função profética, pois, representa a igreja da era apostólica, dotada de sucesso e poder especiais, embora tivesse caído em vários erros, antes do fim de seu período histórico, o principal dos quais foi o resfriamento de seu amor a Cristo, com o declínio subsequente no serviço e no poder espiritual. As epístolas de Paulo mostram-nos que ela estava longe de ser perfeita; e o livro de Atos mostra-nos que ela estava longe de ser unida, conforme se evidencia nas epístolas aos Gálatas e I e II Coríntios. Contudo, quanto a esses aspectos, a igreja se manteve superior ao que ela mesma foi em épocas posteriores.

Quando o vidente João escreveu a essa igreja, fê-lo sob as perseguições movidas por Domiciano, embora alguns pensem que a seção deste livro que encerra as sete cartas, tenha sido escrita antes do resto, tendo sido incorporada ao restante. Porém, a carta à igreja de Esmirna quase certamente reflete as perseguições do tempo de Domiciano, o qual foi chamado de «segundo Nero»; e pode-se supor que todas as demais cartas foram escritas ao mesmo tempo.

«…ao anjo…» Já encontramos a menção a esses seres em Ap 1:16 e 20, onde são chamados de «sete estrelas». O trecho de Ap 1:16 nos fornece explicações detalhadas que são sumariadas aqui, nos pontos abaixo discriminados:

1. Há aqui certa alusão astrológica (ver 1:16).

2. São grandes poderes espirituais associados às igrejas, visando a sua proteção e orientação. São instrumentos nas mãos de Cristo, seres angelicais literais, que ministram à igreja, controlando seus ministros, e, pelo menos em alguns casos, servindo de mediadores dos dons espirituais. Por extensão dessa ideia, podemos supor que todas as comunidades locais dos crentes contam com seus próprios anjos guardiões, tal e qual sucede no casos das nações e dos crentes individuais.

3. Alguns pensam que estariam em foco os «pastores» humanos das igrejas, e não seres sobrenaturais. Apesar disso ser uma interpretação comum, não é provável. Os «pastores», entretanto, provavelmente seriam tidos como instrumentos especiais desses seres angelicais, seus representan­tes, nas assembleias locais.

4. Também há quem pense que seriam delegados especiais, enviados às sete comunidades cristãs, levando-lhes cópias do livro de Apocalipse. Mas isso é altamente improvável. Antes, devem ser membros «fixos» das igrejas locais ou seres permanentemente vinculados a elas, e não visitantes ocasionais de qualquer espécie.

5. Não são «bispos» de regiões diversas, que representariam o desenvolvimento «eclesiástico» da igreja.

6. Não são «missionários itinerantes» ou «instrutores», que exerceriam autoridade especial sobre as comunidades cristãs, atendendo às suas necessidades espirituais.

7. E nem são essas estrelas meros «símbolos místicos» das igrejas, como se seu intuito fosse apresentar seres vivos de qualquer modalidade. A posição ou posições mais prováveis são a primeira e a segunda, ou mesmo a combinação dessas duas posições.

O ensinamento que aqui temos, pois, é profundo—a igreja cristã não fica sozinha. Conta com a ajuda de grandes protetores espirituais, guardiães e instrutores angelicais. Isso faz parte da promessa de Cristo, em seu cumprimento: «De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei» (Hb 13:5); e: «E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século» (Mt 28:20). Isso, entretanto, não os transforma em mediadores da «salvação», pois somente Cristo Jesus pode ser tal mediador (ver I Tm 2:5). Contudo, são mediadores de sua presença e de seu poder, enviados para ministrar às assembleias locais, bem como aos crentes individuais (ver Hb 1:14). Cada um desses anjos tem seus «representantes» nas igrejas locais, a saber, pastores, mestres, etc.

«…igreja…» Elementos comuns nas sete cartas. Cada uma dessas missivas contém os seguintes elementos:

1. A ordem de escrever, ao anjo de cada assembleia local.

2. A algum título sublime do Senhor Jesus Cristo, dotado de significado particular, com elementos instrutivos, importante para a igreja local para a qual foi escrita a carta em questão.

3. Um recado direto ao «anjo» da igreja, com as palavras, «conheço tuas obras», o que lhe assegura que Cristo vigia e se preocupa com conhecimento completo acerca das condições de cada comunidade local.

4. Promessas aos vencedores; advertências aos seus membros indiferentes, ou que caem em algum erro específico, do qual se recusam a recuperar-se.

5. O solene refrão: Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça. Isso tenciona fixar a atenção sobre o que é dito, para que se dê plena obediência à instrução assim transmitida.

6. É o «Espírito» quem profere as palavras de cada carta; pelo que não se trata de meras mensagens humanas.

7. Cada uma delas envolve uma mensagem profética, que se adapta a um período especial da história da igreja.

Interpretação acerca do significado do intuito das sete cartas às sete igrejas.

Consideremos sobre isso os pontos abaixo:

1. Essas cartas foram enviadas a igrejas locais reais da Ásia Menor, que havia naquela época, e nas quais imperavam as condições ali descritas. Essas cartas, pois, são «historicamente» orientadas, pois as «coisas que são» foram escritas do ponto de vista do autor sagrado.

2. Essas cartas representam condições que se verificam em qualquer época da história da igreja, pelo que elas são «universalmente» orientadas.

3. Essas cartas expõem os erros, os triunfos e as condições morais que caracterizam a igreja em qualquer de suas épocas, em suas assembleias locais. São instruções «desligadas da passagem do tempo». Tais instruções são tanto «eclesiásticas» (aplicáveis à «igreja local», em suas necessidades e condições) como «pessoais» (no que se aplica às necessidades dos crentes individuais).

4. Essas cartas são proféticas quanto a sete estágios da história da igreja, que talvez se devam arrumar como segue:

a.       Éfeso, a igreja apostólica (século I d.C).

b.      Esmirna, a igreja perseguida (séculos II e III d.C.)

c.       Pérgamo, a igreja sob favor imperial (312 a 500 d.C.)

d.      Tiatira, a igreja da Idade das Trevas (500 d.C. ao século XVI)

e.       Sardes, a igreja da Reforma e da renascença (séculos XVI a XVIII)

f.       Filadélfia, a igreja das missões modernas (séculos IX até primórdios do século XXI).

g.       Laodicéia, a igreja do tempo do fim (meados do século XXI até à vinda de Cristo —sendo essa a igreja morna).

Por que razão são salientadas 7 igrejas locais em particular? Na Ásia Menor, havia cidades e igrejas mais importantes, nos dias do vidente João, do que algumas das que são aqui alistadas. Por que o autor sagrado selecionou essas sete, excluindo as outras? É possível que não tenha havido qualquer razão específica, ou pode ser que elas tivessem necessidades especiais, que exigiam atenção, mais do que as igrejas locais de outras áreas. Ou então foram escolhidas porque, dentro da ordem em que foram mencionadas, começando e retornando a Éfeso, como que, no mapa, fica formado um círculo geográfico, pelo que elas representariam a igreja inteira. Seriam elas o «círculo perfeito» da igreja, por assim dizer. Naturalmente, além desses raciocínios, supomos que o Espírito Santo orientou nessa escolha, porque as condições ali existentes eram particularmente instrutivas para todas as épocas, ao passo que outra espécie de condições não seria tão «universal» e impressionante. O próprio número «sete»; sugere «perfeição». Trata-se de uma perfeita e completa mensagem de Cristo às suas igrejas.

«…Éfeso…» Essa cidade fora erguida próximo do mar, no vale do rio Caister, sob as sombras das montanhas Coressos. Nos dias de Paulo, era a maior cidade da província romana da Ásia. Plínio a chamava de «a luz da Ásia». Fica na costa ocidental do que atualmente se chama Turquia Asiática. No tempo dos apóstolos havia uma magnificente estrada de vinte e um metros de largura, ladeada por colunas, que atravessava a cidade até ao porto. Esse porto era importante centro de exportação e importação, no fim da rota de caravanas vindas da Ásia, sendo uma escala natural para quem viajasse do continente asiático até à capital do império, Roma.

O povoado original parece ser datado do século XII A.C., tendo sido iniciado por colonos jônicos. No ano de 560 A.C., Éfeso foi conquistada pelo rei Croeso. No ano de 557 A.C. foi conquistada pelos persas. Em 133 A.C., tornou-se parte do império de Atalo II, que então doou a Roma. Pérgamo continuou sendo a cabeça titular da província romana assim formada; mas Éfeso, na realidade, era a principal cidade daquela região. Evidentemente tinha uma população de cerca de um terço de milhão de habitantes, na época apostólica.

Éfeso era um centro religioso, tanto quanto comercial e político. O templo de Diana, erigido antes de 356 A.C, mas restaurado naquele ano, após ter sido destruído por um incêndio, figurava como uma das maravilhas do mundo antigo, até que, finalmente, foi destruído pelos godos, em 260 D.C. Esse templo continha a «imagem» de Diana, a qual, mui provavelmente, era apenas um meteorito que foi esculpido para formar tal imagem. Isso explica sua suposta origem «celestial». Sabemos que nos templos antigos havia «meteoritos», sempre que possível, pois eram considerados sagrados, por terem «caído do céu». O templo de Diana, descoberto por J. T. Wood, no ano de 1870, era quatro vezes mais espaçoso que o Partenon de Atenas, adornado por obras de grandes mestres, como Fídias, Praxíteles e Apeles.

Nos tempos neotestamentários, havia numerosa colônia de judeus em Éfeso, e esses desfrutavam de posição privilegiada, durante o começo do império. (Ver Josefo, Antiq. xiv.10,12,25). A fé cristã chegou a Éfeso em cerca de 52 D.C. (ver Atos, em seus capítulos dezoito e dezenove, quanto a descrições sobre isso). Paulo esteve ali, durante sua segunda viagem missionária; e então permaneceu mais tarde ali, por cerca de três anos, a mais longa permanência de Paulo em um lugar só, durante todas as suas viagens missionárias. O cristianismo fez de Éfeso um de seus centros mais poderosos. Porém, em oposição à fé cristã, floresciam ali os cultos mágicos; e, antes dos fins do primeiro século de nossa era, foi imposto ali o «culto ao imperador», com as consequentes perseguições contra aqueles que se recusavam a adorar ao imperador romano.

Por ocasião de sua partida de Éfeso, o apóstolo dos gentios deixou ali a Timóteo, embora não saibamos por quanto tempo este último ali permaneceu. É comum identificar Timóteo com o «anjo» mencionado em Ap 2:1; mas isso é altamente improvável. O «anjo» referido neste livro é bem real, guardião e instrutor da igreja de Éfeso, ainda que seja perfeitamente possível que Timóteo fosse o seu principal instrumento naquela localidade.

Irineu e Eusébio chamavam Éfeso de lar do idoso apóstolo João; e embora existam tradições em conflito a seu respeito, é, bem provável que o próprio apóstolo João e suas tradições tivessem estado associados ao lugar, de tal modo que o quarto evangelho, as epístolas de João e o livro de Apocalipse tivessem provindo daquela área em geral. Inácio, uma geração depois da era apostólica, escreveu à igreja dali em termos candentes (ver Inácio, Efésios 11). E o lugar tornou-se a sede de longa sucessão de bispos orientais. O terceiro concilio geral teve lugar em Éfeso, no ano de 431 D.C, com o propósito específico de condenar as heresias de Nestório. A igreja de Santa Maria, onde a conferência foi efetuada, conta com ruínas que podem ser vistas até hoje. Pouco depois disso, a cidade começou a declinar, sobretudo por causa da praga de malária. Suas excelentes esculturas foram levadas para outros lugares, principalmente para Constantinopla. E no século XIV, o que restava, foi levado dali pelos turcos, que também dispensaram os seus habitantes que ainda restavam.

A região anteriormente ocupada por Éfeso, nos nossos dias, é desabitada. O mar, atualmente, fica a mais de onze quilômetros de distância do local original, devido ao acúmulo de detritos e de lama, em seu porto, no decorrer dos séculos. A ilha de Patmos, onde foi desvendado ao vidente João este o livro de Apocalipse, fica cerca de cento e vinte quilômetros de distância.

«…estas cousas…», isto é, a carta que se segue.

«…diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas… » Essa declaração já fora feita a respeito de Cristo, em Ap 1:16. As «sete estrelas» são os «sete anjos». Por conseguinte, Cristo: 1. protege às igrejas; 2. guia-as e controla-as; 3. usa-as em seu serviço; e 4. conforme isso é aplicado, todas essas coisas podem ser ditas às igrejas servidas por esses anjos. Portanto, tanto os anjos (ou «estrelas») como as próprias igrejas locais estão inteiramente sujeitos a Cristo, servindo de instrumentos do poder e da glória do Senhor. As «estrelas» estão na «mão» de Cristo, — não em seus «dedos», pois não são meros elementos decorativos, apesar de também serem tais, não tenhamos dúvidas.

O titulo de Cristo: Cada uma dessas sete comunidades locais recebeu um título ou descrição especial da parte de Cristo, que lhe foi particularmente aplicado. Visto que a carta à comunidade cristã de Éfeso figura em primeiro lugar, o título aqui empregado é mais amplo, porque assim são apresentadas as cartas às sete igrejas. Portanto, a «característica geral» de Jesus Cristo, no que concerne às igrejas locais, o que também figura em Ap 1:16, é reiterado neste ponto. Mas Éfeso contava com poderosa igreja cristã, pelo que, de modo todo especial, era protegida por Cristo, para que o evangelho tivesse um início realmente triunfal naquela região.

«…anda no meio dos sete candeeiros de ouro…» Notemos que, em Ap 1:20, os sete candeeiros são as «sete igrejas». Portanto, uma vez mais, a descrição de Cristo, no tocante a Éfeso, também se aplica às cartas enviadas a todas as sete igrejas, —o que equivale dizer que essa primeira carta serve de introdução para todas as demais.

O fato que Cristo «andava» entre os candeeiros simboliza as seguintes verdades:

1. A presença de Cristo e de seu poder, na igreja, o que tanto se verificou na era apostólica.

2. A sua cuidadosa vigilância sobre essa época e todas as épocas da igreja, «conhecendo» suas fortalezas e fraquezas.

3. Esse andar é judicial. Cristo não está satisfeito com a condição da igreja e terá de baixar juízo, se não houver arrependimento.

4. Sem a «presença» de Cristo, a igreja é apenas uma pilha de pedras, frequentada por não-espirituais. Mas com sua presença, a igreja se torna um templo vivo para habitação do próprio Deus (ver Ef 2:22; ver também 1 Pe 2:5, acerca das «pedras vivas» que compõem a «casa espiritual», o «novo templo»).

5. Temos aqui o «teísmo», ao invés do «deísmo». Este último ensina que há um Deus, um Criador, uma força superior, mas crê que ele deixou as leis naturais encarregadas do governo de sua criação, não tendo qualquer contato pessoal com a mesma; pelo que também não faz intervenção na história humana, para julgar ou galardoar. O teísmo, em contraste com isso, ensina quê Deus está conosco, particularmente na pessoa de Cristo; que Deus faz interferência na história da humanidade; que recompensa e pune. Cristo é o exemplo supremo da presença de Deus entre os homens, pelo que é a maior prova do teísmo, embora existam outras provas.

6. É o «Senhor» quem assim guarda à sua igreja e a observa.

7. Aqueles que aceitam a Cristo como Senhor, são transformados segundo a sua imagem e natureza (ver II Co 3:18).

O nome de Cristo: Em cada uma das sete cartas do Apocalipse, Cristo dá a si mesmo um nome e uma descrição específicos, aplicável à circunstância particular e à posição espiritual da igreja sob discussão. No caso da igreja em Éfeso, Cristo aparece como aquele que «sustem» na mão os ministros angelicais que ajudam à igreja. É patente que, por meio deles, sustem à própria igreja. Isso alude ao poder de Cristo entre as igrejas, apontando para a sua capacidade de ajudar. Consideremos ainda os pontos abaixo:

1. Essa circunstância frisa o «senhorio» de Cristo. Pois ninguém tem a Cristo como Salvador, se também não o tem como Senhor.

2. E isso, por sua vez, fala de «segurança» da igreja. Cristo não permitirá que a igreja, finalmente, pereça.

3. Cristo «anda entre as igrejas», o que nos assegura a sua presença e comunhão, algo que é típico da igreja apostólica, que exibia a presença e o poder de Cristo acima do que sucedeu à igreja de séculos posteriores.

4. Isso dá a entender a «atividade divina» na igreja, o que a assiste em sua propagação, mas também em sua operação interna de santificação pessoal.

5. Os candeeiros exigem constante atenção, a fim de funcionarem corretamente, a fim de darem a luz apropriada, e Cristo dá essa atenção às igrejas. Se não fora assim, a luz da igreja desde há muito ter-se-ia apagado. A igreja apostólica, todavia, foi poderosíssima luz em favor da verdade.

6. Cristo é tudo para todos (ver Ef 1:23). Esse é o imenso alvo do «mistério da vontade de Deus» (ver Ef 1:10). Cristo demonstrou, na igreja apostólica, como isso pode funcionar.

2:2    Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua perseverança; sei que não podes suportar os maus, e que puseste à prova os que se dizem apóstolos e não o são, e os achaste mentirosos;

«…Conheço as tuas obras…» Consideremos aqui os pontos seguintes:

1. É salientada assim a onisciência de Cristo. Essa declaração é reiterada no caso de todas as sete igrejas.

2. O interesse de Cristo por sua igreja é focalizado, porque ele «conhece» as suas condições, a fim de louvar ou de repreender à mesma, tudo o que visa produzir modificações espirituais favoráveis.

3. As «obras» que Jesus «conhece» representam as «condições espirituais em geral» da igreja, e não apenas aquilo que chamamos de «serviço ativo». Portanto, a palavra «obra» neste caso, indica o «caráter geral», a natureza da pessoa que age, mas também aquilo que ela faz. Equivale à expressão vetotestamentária «temor do Senhor», expressão usada a fim de exprimir as condições «espirituais em geral» daquele que professava tentar agradar a Deus, reconhecendo o seu senhorio. O termo geral, «obra» é desdobrado, neste mesmo versículo, para que tenha os seguintes significados:

a. Labor (serviço ativo, prestado sob pressão).

b. Paciência (resistência nesse labor, e sob as perseguições).

c. Ódio e oposição ao mal e aos atos malignos, de homens que pervertem o evangelho e promovem a impiedade em nome de Cristo.

d. Cristo, que é o Senhor, vê através de todos os disfarces e pretensões, apresentando autêntica avaliação da condição de cada indivíduo, bem como a condição geral de cada assembleia local.

Ele não vê o que «esperamos ser», nem o que «temos feito», nem o que «pensamos que podemos fazer», e, sim, as nossas condições reais, o nosso caráter. O seu poder, que «tudo vê e tudo sabe», é, ao mesmo tempo, uma ameaça e um conforto. É uma ameaça aos hipócritas e pretensiosos; é uma ameaça para aqueles que brincam com a fé religiosa. Mas é um conforto aos fiéis, que são perseguidos e desprezados por outros, dentro ou fora da igreja. Isso nos promete uma recompensa justa, bem como a contínua ajuda para a concretização dos ideais espirituais do cristianismo.

«Nossas tristezas, que talvez não possamos relatar, nossas tribulações, que ninguém mais conhece, nossas dificuldades, os ais e as dores que jazem ocultas em nossas almas, nossas fraquezas e nossas lutas íntimas, nossos temores e dúvidas ocultos, nossa honestidade quanto a coisas que outros censuram e criticam, nossos verdadeiros motivos e esforços, que os outros não entendem, tudo é conhecido por nosso amoroso Salvador, o qual pode ser tocado com o senso de nossa debilidade, ordenando-nos que tenhamos bom ânimo, porque a sua graça nos será suficiente». (Seiss, in loc.).

«O verniz de uma fé formal talvez impressionasse ao mundo, mas não pôde escapar a seu escrutínio (ver At 1:24). Ele também conhece, e aceita amorosamente, os atos não-exibidos e nem requisitados de verdadeiro amor (ver Mt 10:42 e 26:13), e aparecia, em meio a todas as suas falhas, a lealdade genuína a ele (ver Jo 2:17)». (Carpenter, in loc.)

«…o teu labor…» No grego temos o vocábulo «kopos», que indica «labor até à exaustão», «labuta». A forma verbal, «kopiao», significa «exaurir-se», «trabalhar arduamente», «lutar». Essa palavra descreve os prodigiosos labores da igreja apostólica. Notemos que o trabalho árduo é aqui recomendado. Até mesmo os ímpios veem algo de «nobre» no labor árduo, o que, necessariamente, inclui abnegação, em favor de alguma causa esperançosa e altruísta.

«Não existe riqueza real senão o labor do homem. Se os montes fossem de ouro e os vales de prata, o mundo não seria mais rico nem um grão de trigo a mais; nenhum conforto isso adicionaria à raça humana». (Percy B. Shelley, Queem Mab).

«As ações de um homem são apenas um quadro pictórico de seu credo» (Ralph Waldo Emerson).

«Os atos falam mais alto que as palavras». (Um provérbio popular).

«Os céus nunca ajudam ao homem que não trabalha». (Sófocles, fragmento).

«Uma hora de vida, carregada de ações gloriosas e prenhe de nobres riscos, vale mais que anos inteiros daquelas tolas observâncias do decoro comum». (Sir Walter Scott, Count Robert of Paris).

«A ação nem sempre produz felicidade; mas não há felicidade sem ação». (Benjamim Disraeli).

«Um homem sem ambição é como uma mulher sem beleza». (Frank Harris).

O «labor» aqui mencionado, no caso da igreja de Éfeso, alude particularmente aos labores daqueles crentes no evangelho, o qual tomou conta de todos os centros de civilização então conhecidos. (Ver Cl 1:6 quanto a esse fato). Essa intensíssima expressão espiritual fazia parte das «obras gerais» ou caráter cristão daqueles crentes. (Ver Rm 16:12; I Co 16:10 e Gl 4:11 quanto aos labores apostólicos e ministeriais, referidos neste versículo com o termo «labor»). Os crentes efésios eram intensos quanto à sua fé espiritual, o que ficava claramente demonstrado pela magnitude de sua dedicação, produtiva de imensos labores em favor da causa de Cristo.

«…perseverança…» Isso é mencionado de novo no versículo seguinte. Significa bem mais do que o que se entende pela palavra «paciência», isto é, o «suportar tudo estoicamente». Pelo contrário, significa «constância» sob circunstâncias adversas. Com frequência, nas páginas do N.T., indica fidelidade sob a perseguição. O termo grego é «upomone», «resistência», «permanência», «constância». (Ver II Pe 1:6; Tg 5:7 e II Tm 2:25,26). No dizer de Ellicott (in loc): «Não assinala meramente a resistência, mas também a fraca paciência com que o crente luta contra os vários empecilhos, perseguições e tentações, que lhe sobrevêm em seu conflito contra o mundo interno e externo». Isso esse autor dizia, comentando sobre o trecho de I Ts 1:3. Sabemos que a igreja da era apostólica foi tremendamente perseguida. O livro de Atos deixa isso bem claro. Mas aquela igreja tinha «resistência», em meio mesmo às aflições que lhe foram impostas, pelas autoridades civis e religiosas. As dificuldades daqueles crentes não os levaram a perder a coragem ou a negar a própria fé. Eles labutavam e suportavam firmemente as circunstâncias, sem «se deixarem esmorecer», conforme se sabe no versículo seguinte. Eles participavam dos sofrimentos do evangelho, «como bons soldados de Cristo Jesus», conforme se aprende em II Tm 2:3.

«…não podes suportar homens maus…» Aqueles crentes podiam «suportar» condições e testes difíceis, mas se recusavam a mostrar «tolerância» em favor de homens que tentavam mudar a natureza «moral» da igreja, tirando do evangelho o seu «imperativo moral». Esses «homens maus», mui provavelmente, são os «nicolaítas», mencionados no sexto versículo deste capítulo, e onde o tema é desenvolvido. Não há que duvidar que havia boa variedade de «falsos apóstolos» e de «falsos mestres», que serviam de praga para a igreja apostólica; mas é razoável supormos que estamos tratando, especialmente, de alguma forma de gnosticismo incipiente. Oito livros do N.T.—Colossense, as três epístolas pastorais, as três epístolas joaninas e Judas—foram escritos contra as diversas formas da primitiva heresia gnóstica; porque essa foi a heresia que assediou a igreja por cerca de cento e cinquenta anos, no começo de sua história. De modo bem geral, pode-se dizer que eles procuravam combinar a filosofia grega, a mitologia e as religiões orientais misteriosas com o cristianismo, além de terem tomado por empréstimo elementos do judaísmo. Alguns deles eram extremamente libertinos (como aqueles contra quem o sexto versículo foi escrito); mas outros eram ascetas extremados. Criam eles que a matéria é o princípio mesmo do mal, pelo que o corpo seria totalmente incapaz de redenção, pois o mesmo participa da matéria. Não faria, diferença, pois, aquilo que os homens fizessem com seus corpos. De fato, poderiam estes até ajudar ao desígnio da mente cósmica, que seria o de destruir, finalmente, à matéria, abusando dos seus próprios corpos. Isso podia ser feito mediante a licenciosidade ou mediante o ascetismo. A maioria desses hereges preferia a licenciosidade, e chegavam até a imaginar, mui loucamente, que os anjos se postavam, invisíveis, a seu lado, influenciando-os a participar de toda a forma de deboche, porque precisavam de ter «experiências», e porque assim degradavam ao princípio do pecado, associado a seus próprios seres. Pensavam eles que tudo isso podia ser praticado, sem que a alma em nada fosse prejudicada, pois seria esse o princípio espiritual no homem, livre do pecado, já que não participa da «matéria». O que tudo isso significa é que a imoralidade de muitas modalidades, mas especialmente aquela praticada com o corpo, se tornou a «doutrina oficial» de algumas igrejas, onde os mestres gnósticos mantinham domínio. Por conseguinte, o evangelho deles desconhecia o «imperativo moral»; o evangelho deles não os tornava espiritualmente melhores.

No tocante a outras doutrinas, os gnósticos repeliam a fusão da natureza divina com a humana em Jesus, crendo que o Espírito-Cristo (uma emanação angelical) tenha vindo possuir o corpo de Jesus em seu batismo, tendo-o abandonado por ocasião de sua crucificação. As duas pessoas, Jesus e o Espírito-Cristo, pois, não eram a mesma «entidade». Portanto, a «morte» não foi a do Cristo, e sim apenas a do homem Jesus, não tendo, por isso mesmo, qualquer valor «expiatório». Cristo não poderia mesmo ter-se encarnado, diziam os gnósticos, pois, se o fizesse, teria ficado contaminado com a matéria, o princípio mesmo do mal. Aparentemente, os gnósticos eram os homens «maus» que a igreja em Éfeso não permitiu que tivessem acesso a posições de mando e influência.

Notemos que são virtudes cristãs não só o «amor a Deus» e a «perseverança na prática do bem», mas também o «ódio ao mal» e a recusa de permitir a contaminação dos membros de uma comunidade cristã. Os anciãos de Éfeso não estendiam «cortesia ministerial» a falsos mestres conhecidos. Conta-se a história do apóstolo João, em Éfeso, que se recusava a entrar nos banhos públicos quando Cerinto (um mestre gnóstico) estava presente. Alguém poderia indagar se essa seria uma atitude correta. Sem dúvida estamos na obrigação de procurar conquistar homens como os gnósticos, amando a eles como Deus ama a todos os homens (ver Jo 3:16); mas os crentes de Éfeso estavam com a razão, pelo menos quando não permitiam que tais homens ocupassem posições de autoridade na igreja, e nem os encorajavam em seus caminhos ímpios através de uma «falsa aceitação».

«…puseste à prova…» Essa «prova» era parcialmente «doutrinária», conforme se vê em I Jo 4:1 e ss. Eles «testavam aos espíritos». Aqueles indivíduos que rejeitavam a doutrina da «encarnação» e o valor subsequente da «expiação», com facilidade eram tidos por mentirosos e falsos apóstolos. Além disso, era aplicado o teste prático. O evangelho anunciado por alguém transformava moralmente a tal pessoa? Em caso negativo, então tal evangelho era falso. O evangelho de alguém incluía o imperativo moral? Em outras palavras, requeria a santidade, já que sem a santificação ninguém jamais verá a Deus (ver Hb 12:14)? Em caso contrário, então tal evangelho era falso. Pode-se observar, em II Ts 2:13, que a «santificação» é elemento absolutamente necessário para a salvação. Jamais poderemos chegar à vida eterna, exceto pelo caminho da santificação. Os mestres gnósticos pensavam que o «conhecimento» é o caminho para a salvação, degradando à fé, ao mesmo tempo que eliminavam totalmente a necessidade de santidade no corpo. Este versículo pode ser comparado com II Jo 10, que proíbe o acolhimento a hereges conhecidos e persistentes na própria casa. Os mestres gnósticos também são focalizados nessa passagem. A «rejeição» aos mesmos, por parte dos crentes autênticos, visava ensinar aos falsos que eles não eram parte legítima da comunidade cristã, já que suas ações e suas doutrinas eram basicamente contrárias às dessa comunidade, tendendo por solapá-las. O presente versículo talvez subentenda alguma forma de «teste eclesiástico», com a subsequente exclusão. Pelo menos, quando os falsos mestres manifestadamente falhavam em mostrar-se cristãos e ajudadores genuínos da igreja, os crentes de Éfeso exerciam pressão sobre os mesmos, para que se retirassem da comunidade dos santos.

«…e os achaste mentirosos…» Essas palavras podem ser comparadas com I Jo 2:22. O «mentiroso» é aquele que nega a identidade das naturezas divina e humana em Jesus, aquele que «nega ao Filho» e à sua «expiação». O «mentiroso» é aquele que «odeia» a seu irmão, que não tem parte real na comunidade cristã, e é adversário da mesma (ver I Jo 4:20). É também aquele que não aceita o testemunho de Deus Pai concernente ao Filho (isto é sobre a realidade da encarnação do Filho, em Jesus de Nazaré, com identidade de pessoas), o qual, subsequentemente, cumpriu a sua missão expiatória (ver I Jo 5:10).

«…apóstolos…» A presunção daquela gente era grande, porquanto queriam compartilhar da autoridade dos próprios apóstolos; mas tratava-se de uma reivindicação falsa, pois falavam de modo errôneo e maligno acerca do verdadeiro Jesus Cristo, e suas vidas eram um opróbrio para o seu evangelho.

Qual seria a identidade desses mentirosos?

1. Seriam os judaizantes? Essa ideia não é muito provável. Pois os judaizantes pelo menos eram «morais», procurando seguir estritamente a lei de Moisés, embora não estivessem certos em sua teologia.

2. Alguns supõem que fossem discípulos de Pedro ou de Paulo que tinham assumido grande autoridade para si mesmos; mas isso está completamente fora de consonância com o caráter geral daqueles homens, conforme é sugerido no texto sagrado.

3. Antes, eram os «nicolaítas», referidos no sexto versículo deste mesmo capítulo, membros prováveis de alguma seita antiga, semelhante à dos gnósticos, e corruptos em sua doutrina e vida diária. Paulo já havia advertido acerca de homens desse naipe. Isso pode ser visto em At 20:20,30, onde se lê: «Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas, para arrastar os discípulos atrás deles».

Notemos que a defesa da verdade, por parte dos crentes efésios, bem como a sua recusa por permitir que aqueles falsos mestres corrompessem à igreja, é classificada como suas «obras» (como seu caráter cristão geral), juntamente com o seu «labor» e «constância».

2:3    e tens perseverança e por amor do meu nome sofrestes, e não desfaleceste.

«…tens perseverança…» Isso já fora dito sobre aqueles crentes, no versículo anterior, onde é usado o mesmo vocábulo grego, Crê-se que, o livro de Apocalipse foi escrito durante a perseguição de Domiciano, o qual foi chamado de «segundo Nero». Muitos cristãos vinham sendo encarcerados, havendo torturas e mortes, por se recusarem eles a adorar ao imperador, o qual se proclamara uma divindade. A igreja apostólica já sofrerá sob as ordens de Nero. O nome desse imperador veio a traduzir «degradação», «crueldade» e «perversão». Ele costumava torturar e queimar aos cristãos até à morte, em seus jardins, somente para entretenimento de seus convivas. Tudo isso a igreja cristã suportou pacientemente e com constância, confiando em Cristo quanto à vitória «final», ainda que esta só se verificasse nas dimensões espirituais da alma. Mas, em última análise, ali é que haverá a verdadeira vida, não sendo coisa de somenos que a vitória seja conquistada somente então. O culto do imperador impunha sua adoração insana aos homens de todos os recantos do império romano. Alguns dos imperadores romanos chegaram mesmo a imaginar-se divinos e, por conseguinte, merecedores de adoração. E os súditos romanos que se recusassem a adorar ao imperador, eram considerados traidores, tendo de sofrer as consequências de seu ato.

«Todos os homens louvam à paciência, embora poucos se disponham a praticá-la». (Thomas à Kempis, Imitação de Cristo).

«É na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas» (Lc 21:19).

«Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossas almas» (Hb 12:3).

«…suportastes provas por causa do meu nome…» O mesmo vocábulo grego é usado para indicar os «testes» e as «tribulações» suportados, tal como no segundo versículo, e não para indicar que devemos «suportar» a homens malignos. No grego não há objeto para «suportar provas», pois o termo grego «bastadzo» significa «carregar», «suportar», «tolerar», ficando entendido qualquer coisa levada ou suportada. Estão em foco «todas as formas de tribulação», pois o autor sagrado não se referiu, especificamente, ao tipo de fardo que aqueles crentes suportavam, por amor ao nome de Cristo. A perseguição, entretanto, provavelmente é a questão especifica­mente salientada.

«…por causa do meu nome…» Tudo suportavam porque se apegavam a Cristo como seu Senhor e Salvador, sendo ele o único Rei que tinha o direito de ser adorado. Identificavam-se como «cristãos», leais ao único Rei, Jesus. Por essa razão é que sofriam perseguições. Não observavam às exigências do culto ao imperador.

«…não te deixaste esmorecer… » Não se «cansavam». Notemos que encontramos aqui a forma verbal de «kopos», a palavra usada, no segundo versículo, para indicar «labor». Aqui indica um «labor até à exaustão».

2:4    Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor.

Nunca teríamos imaginado que uma comunidade cristã que acabara de ser descrita como leal nas perseguições sofridas e nos labores, prodigiosa em suas obras, opositora da malignidade, também poderia aparecer como quem «abandonara» o seu primeiro amor a Cristo. Por conseguinte, temos de supor uma das seguintes possibilidades:

1       A perda do amor, por parte deles, ainda não começara a modificar a conduta deles; mas sem dúvida começaria a fazê-lo em breve, e isso de maneira necessária.

2       Continuariam a ter grande amor por Cristo, embora não tão grande como antes, e nem tão espontâneo.

3       Finalmente, grandes coisas, do ponto de vista cristão, poderiam ser motivadas por outras coisas que não o amor, embora certamente essa não seja a condição ideal. O décimo terceiro capítulo da primeira epístola aos Coríntios, mostra-nos que todas as ações cristãs, bem como o exercício de todos os dons espirituais, devem ser inspirados pelo amor, deste recebendo o impulso. Em caso contrário, o valor de todas essas manifestações deve ser posto em dúvida.

«….contra ti… » Assim como é espantoso que o Senhor Jesus Cristo encontre em nós algo que elogie, assim também é um pensamento solene que ele pode ver em nós muito de condenável. Notemos que a condenação se «segue» ao elogio. Isso faz parte de uma «avaliação honesta». Certamente que precisamos de ambos esses elementos. Se criticarmos aos outros, mas também os elogiarmos pelo que de bom há neles, as nossas críticas se mostrarão carregadas de um poder que transforma os homens para o melhor. Porém, se tão-somente criticarmos aos nossos semelhantes, ignorando qualquer coisa de bom que há neles, poderemos apenas feri-los, piorando o estado deles e adicionando opróbrio a quaisquer vícios que porventura tenham. Por outro lado, se não fizermos outra coisa senão elogiá-los, então eles ficarão estragados e mimados, tendo uma ideia falsa sobre aquilo que realmente são, nada vendo que deva ser modificado, ao passo que, na vida de qualquer indivíduo, sempre haverá coisas que precisam de modificação e aprimoramento.

«…abandonaste…» No grego é «aphekas», o aoristo de «aphiemi», que significa «partir», «ir-se embora», «relaxar», «dispensar». Essa mesma palavra era usada para indicar o «repúdio» ou divórcio. Os crentes efésios se tinham divorciado do seu primeiro e nobre amor emocional. Contudo, o amor verdadeiro é mais do que emoção. Antes, é um dos aspectos do «fruto do Espírito» (ver Gl 5:22); ou seja, é um produto do desenvolvimento espiritual, sendo esse o solo onde medram todas as demais virtudes espirituais. Os labores dos efésios ainda não se tinham diluído; não se tinham ainda divorciado de seus labores prodigiosos, e nem de sua lealdade a Jesus Cristo, embora sob a perseguição. No entanto, em seus corações, já se tinham divorciado daquela devoção a Cristo que é a real base de todo o trabalho e lealdade cristãos, e que é um autêntico poder espiritual. O quinto versículo deste capítulo contém a ameaça que o «candeeiro» que representava aquela comunidade cristã poderia ser removida, se não se arrependessem. Isso mostra que não poderiam prosseguir por muito tempo, antes que sua falta de devoção a Cristo resultasse na perda da razão mesma de continuarem sendo uma igreja, razão essa que é a de ser uma igreja iluminada para iluminar a este mundo tenebroso. Por esse motivo, todas as suas grandes obras de lealdade seriam reduzidas a nada. A cidade de Éfeso, que já foi capital do cristianismo no mundo gentílico, finalmente perdeu essa distinção. A história mostra-nos que o cristianismo se afastou de Éfeso, do oriente para o ocidente. Hoje em dia, pouquíssimos crentes podem ser encontrados ali.

A advertência contra o divórcio espiritual: É possível a um crente ter sido cheio do Espírito Santo, mas no entanto, gradualmente, ir cedendo aos apelos da carne, do orgulho pessoal e dos desejos mundanos. Nesse caso, o crente se divorcia daquilo que anteriormente lhe era precioso, não menos do que se dá no caso do homem que perde paulatinamente o amor pela mulher que, antes, era sua «noiva querida», e mais algum tempo percebe que deseja separar toda a vinculação que tem com ela, usualmente com a finalidade de buscar outra mulher. Acabará por encontrar alguém ou alguma coisa com que satisfaça ao seu desejo, porém, isso sucederá tão-somente porque ele se divorciou, no coração, daquela a quem antes amava realmente.

«…amor…» Existem variedades e níveis diversos de amor, conforme se vê nos seguintes pontos:

1.      Há o amor de Deus (veja em Jo 3:16), o qual é a fonte de todo outro amor, até mesmo aquele manifestado pelos incrédulos. O Espírito de Deus, atuando no mundo, impede-o de transformar-se em floresta completa, porquanto propaga ao redor o seu amor, e muitas pessoas fazem o que fazem por motivos puramente altruístas.

2.      Há o amor de Cristo pelo homem, o qual é uma extensão do amor de Deus; e, em sua essência, é a mesma coisa. (Ver II Co 5:14 sobre esse amor, que nos constrange a atitudes que expressam o cristianismo).

3.      Há o amor do indivíduo por si mesmo, num afeto inteiramente egoísta, pois só se preocupa consigo mesmo.

4.      Há o amor de um homem por outro ser humano. Quando alguém ama outrem, deseja para o próximo o que deseja para si mesmo, ou transfere o cuidado por si mesmo para outra pessoa, desejando o seu bem-estar, tal como deseja o seu próprio bem-estar. Pode-se imaginar quase qualquer homem a amar um filho ou filha predileto. Por causa de seus cuidados por seu filho, ele fará sacrifícios e procurará protegê-lo. Pensará em como suprir às suas necessidades, e desejará a felicidade de seu filho. Em outras palavras, fará em prol de outra pessoa (sem importar quão mau seja, quanto a outras questões) aquilo que faria por si mesmo. O amor-próprio é fácil; não é muito difícil a transferência desse amor pelo menos a uma outra pessoa. Mas aqueles que amam verdadeiramente são os que descobriram como transferir o amor-próprio para um grande número de pessoas. Aqueles que assim fazem são a isso impelidos pelo Espírito de Deus, sem importar se são ou não discípulos de Cristo, no sentido tradicional.

5.      Há o amor dirigido a Cristo, o Filho de Deus, ou então a Deus Pai, o que se verifica quando amamos aos nossos semelhantes. (Ver sobre esse conceito em Mt 25:35 e ss.).

6.      Há o amor do homem a Cristo, ou a Deus Pai, diretamente expresso. Essa modalidade de amor requer um senso altamente desenvolvido, e normalmente se expressa por meios místicos, mediante a ascensão da alma, que passa a contemplar a Deus. Certamente essa foi a forma de amor que o escritor sagrado tinha em mente, neste versículo, embora o contexto contemple muitos resultados «diários» e «práticos» da mesma, como o evangelismo dos perdidos, a vida santa, a lealdade a Cristo e as ações de caridade em favor do próximo.

Cristo como uma figura distante. Para aqueles crentes efésios, Cristo fora reduzido a uma figura distante, a despeito de continuarem a fazer prodígios espirituais e apesar de seu poder no Espírito. Quantas pessoas hoje em dia, quando pregam, somente atacam várias formas de males, como o mundanismo, o modernismo, o comunismo, embora suas mensagens reflitam pouquíssimo do amor conquistador de Cristo. Tornaram-se polemistas profissionais, mas pouco ou nada sabem do amor construtivo. Perderam a visão do Cristo, em meio à batalha.

Há um caminho melhor do que esse. Ê o caminho do amor. O amor à semelhança da morte, transforma a tudo quanto toca. Os homens são atraídos pelo amor. As coisas semelhantes se atraem mutuamente. Os homens amam quando são amados. E odeiam quando são odiados.

Pois limites de pedra não podem conter ao amor,

E o que o amor pode fazer, isso ousa tentar.

(«Romeu e Julieta», Shakespeare).

«As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios afogá-lo…» (Ct 8:7).

«O amor é um símbolo da eternidade. Elimina todo o senso de tempo, destruindo toda a memória de um começo e todo o temor do fim». (Corinne, Madame de Stael).

O amor concede em um momento O que o labor dificilmente obtém em um século.

(«Torquato Tasso», Goethe)

«Os estóicos definem o amor como a tentativa de estabelecer uma amizade inspirada pela beleza». (Cícero).

O amor é um dos aspectos do fruto do Espírito Santo.

Aprendemos a amar aos outros, a cuidar deles como cuidamos de nós mesmos, na medida em que nos vamos desenvolvendo espiritualmente. Esse desenvolvimento espiritual consiste da nossa transformação segundo a imagem de Cristo, o qual possui amor absoluto, bem como todas as demais virtudes espirituais com perfeição. Quando Cristo vai sendo formado em nós, mediante a comunhão mística com o Espírito Santo, também vamos assumindo a sua própria natureza, moral e metafísica, como também a própria divindade (ver II Pe 1:4). Esse é o nosso mais elevado conceito, o qual jamais é divorciado da ideia do amor. Nesse desenvolvimento espiritual, mui naturalmente aprendemos a amar ao nosso Irmão mais velho, tal como amamos a outros irmãos; e o Espírito Santo o torna real para nós, como uma pessoa. Esses princípios estão acima das realizações humanas, sem a ajuda do Espírito de Deus. (Ver Gl 5:22). Pode-se supor, portanto, que os crentes de Éfeso, embora fossem obreiros cristãos extraordinários, tinham procurado menor e menor comunhão com o Espírito. Suas mentes e suas almas se haviam desviado para coisas menos importantes. A formação de Cristo neles se estagnara, e talvez até tenha revertido, até certo ponto.

A devoção daqueles crentes se debilitara no período de teste por que passavam. É verdade que a lealdade deles não diminuíra; suas doutrinas não se tinham modificado; suas obras continuavam grandes como antes; mas sua devoção a Cristo empalidecera. A edificação parecia tão boa quanto antes, mas fora atacada por térmitas espirituais, que a tinham esburacado.

Outras ideias sobre o quarto versículo:

1.      Consideremos o caso de Maggie. O emprego dela era enfadonho, em uma fábrica. Finalmente ela se casou e começou a trabalhar em sua própria casa, numa ocupação talvez não menos árdua e enfadonha. Após longo tempo, aconteceu-lhe de encontrar-se com uma amiga, na rua. E esta lhe perguntou: «Maggie, você continua trabalhando?» «Não», replicou Maggie, «eu me casei». Ela continuava trabalhando, mas o amor fizera seu trabalho parecer reduzido a nada. O trabalho árduo torna-se uma mera circunstância, quando o amor nos serve de força motivadora.

2.      O «divórcio», produzido pelo amor que enfraquece, finalmente leva uma comunidade cristã à condição morna e sem interesse espiritual que caracterizava a igreja de Laodicéia. Isso termina em total apostasia. Quão importante, pois, é a devoção a Cristo, inspirada pelo ministério do Espirito Santo em nossas vidas.

3.      «A religião cristã pode tomar o lugar da devoção pessoal ao Noivo». (Newell, in loc.).
4.      «O aspecto externo da árvore continuava belo e bem proporcionado como sempre, mas mofo e decadência se tinham instaurado no âmago». (Seiss, in loc.).

5.      «Primeiro amor… comparar com Jr 2:2. A devoção entusiasta inicial da Igreja por seu Senhor, sob a figura simbólica do amor conjugal». (Vincent, in loc.).

6.      «A referência óbvia é a perda daquele amor resplendente e todo-absorvente por Jesus, como nosso Salvador pessoal, o qual, no princípio, impelira-os a um serviço consagrado (comparar com Ef 3:16-19 e 4:15,16). Essa ideia é confirmada pelo versículo seguinte, onde a decadência do amor é seguida pela decadência nas obras de justiça. (Ver também Jer. 2:2 e ss.)».

7.      «Temos aqui o clamor lamentável do Noivo, a relembrar os primeiros dias do amor de sua Noiva, a gentileza de sua juventude, o amor de seus esposórios… É impossível não ver nisso alguma alusão à linguagem do apóstolo Paulo (que deveria ser familiar para os crentes de Éfeso), em Éf 5:23-33, onde o amor humano é apresentado como tipo simbólico do amor divino». (Carpenter, in loc.).

8.      «Os calorosos sentimentos deles tinham dado lugar a uma ortodoxia sem vida». (Fausset, in loc.).

9.      «…o amor se esfriará de quase todos» (Mt 24:12).

10.    «Consideração ciumenta pela pureza moral e doutrinária, lealdade íntima sob os testes, longe da manutenção necessária do espirito de amor, podem coexistir com o espirito de censura, suspeita e contenda. Dai se origina a negligência ao amor fraternal, o que era uma das faltas cardeais do gnosticismo contemporâneo (ver I Jo 2:9 e I Tm 1:5 e ss.)». (Moffatt, in loc.).

2:5    Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeira obra; e se não, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, te não te arrependem.

O lembrete divino e piedoso:

«…Lembra-te…» Exortação à memória piedosa acerca dos dias anteriores, quando a devoção intensa a Cristo era a força motivadora de uma vida piedosa e de um imenso serviço. Notemos a progressão: «relembrar-se», «arrepender-se» e «praticar», os elos dourados da restauração e do progresso da igreja.

«A verdadeira piedade põe em ação todas as nossas faculdades. Um dos poderes humanos consiste de olharmos para trás, revivendo os acontecimentos e o curso da vida, através da memória. E essa capacidade é a primeira coisa que precisa ser posta em ação, para curar a decadência da vida e do fervor religiosos. As pessoas precisam pensar em seu passado, comparando aquilo que são agora com o que foram. A memória deve relembrar o passado, para que seja posto lado a lado com o presente.

Quando os apóstolos desejaram levar os crentes judeus à firmeza e constância contínua na fé, ordenavam-lhes que se lembrassem «…dos dias anteriores em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos. Porque não somente vos compadecestes dos encarcerados, como aceitastes com alegria o espólio dos vossos bens…» (Hb 10:32). O Salvador fez a mesma coisa, com alusão aos membros da igreja efésia; e outro tanto deve dar-se no caso de todos nós». (Seiss, in loc.).

Lembremo-nos de nosso plano mais elevado de realização espiritual. Que tal é a comparação entre aquela condição e a condição de nossa atual vida espiritual? Como primeiro passo de recuperação, procuremos reter a altura antes obtida, e então subamos dali para uma realização espiritual totalmente nova.

«A percepção de que tem havido declínio, a admissão de que tem havido um lapso, é o primeiro passo de volta ao estado original». (João Bunyan, Graça Abundante).

«Sempre haverá aguilhões na memória sobre um passado melhor e mais nobre, a espicaçar-nos quando nos temos adaptado a coisas piores e inferiores, a impulsionar-nos a retomar aquilo que perdemos». (Arcebispo Trench).

«…de onde caístes…» Consideremos estes pontos:

1. Aqueles crentes tinham caído de sua primeira ardente devoção a Cristo.

2. Tinham caído de maiores elevações espirituais.

3. Tinham caído do serviço motivado pelo princípio do amor.

4. Tinham caído apesar de sua ortodoxia.

5. Tinham caído a despeito de continuarem a defender a verdade.

6. Tinham caído apesar de seus labores prodigiosos.

7. Tinham caído apesar de sua lealdade debaixo da perseguição.

Percebe-se, através de tais fatos, quão grandes coisas o Senhor espera de nós, e quão profunda pode ser a nossa espiritualidade, embora, ainda assim, possamos ser descritos como quem caiu.

«…arrepende-te…» O termo grego «metanoeo» significa «mudança de mente», presumivelmente com a correspondente mudança de conduta diária.

A Natureza Do Arrependimento

1. Apesar de que esse vocábulo nada mais significa em si mesmo, que uma «mudança-de-mente», nas páginas do N.T., ele adquire muito mais o sentido de «mudança-de-alma», o que se evidencia por meio de atitudes e ações novas.

2. O arrependimento faz parte da «conversão», e está vinculado ao problema do pecado. (Ver At 20:21, onde a conversão é aludida como algo composto de «arrependimento e fé»). Quando nos convertemos, nos arrependemos. O arrependimento reconhece a natureza prejudicial do pecado, e se rebela contra o mesmo. O Espírito Santo faz essa rebelião tornar-se bem-sucedida. A alma passa a odiar o pecado, embora não possa livrar-se inteiramente do mesmo, senão por ocasião da «parousia» (segunda vinda de Cristo; ver I Jo 1:8). O arrependimento, entretanto, nos conduz a uma santificação de natureza tal que é conseguida a vitória sobre o pecado de maneira que a alma é libertada da servidão a seus vícios. (Ver I Jo 3:9 acerca desse conceito).

3. O arrependimento é um ato divino: é concedido pelo próprio Deus (ver At 11:18); torna-se realidade por operação do Espírito (ver Zc 12:10), e veio a lume através da missão de Cristo (ver Mt 9:13).

4. Também é uma reação humana, porquanto os homens são convocados a se arrependerem (ver At 17:30).

5. Quando genuíno, o arrependimento terá frutos patentes (ver Mt 3:8). É necessariamente acompanhado pela fé (ver At 20:21).

6. A negligência quanto ao arrependimento resulta no juízo condenatório (ver Ap 2:5,16).

7. O arrependimento nos leva à vida eterna, pois a conversão resulta na santificação, e a santificação resulta na glorificação e na salvação final (ver II Ts 2:13).

É o amor divino que nos conclama ao arrependimento, porque grandes são os benefícios do arrependimento, chegando mesmo a deixar a mente humana ofuscada, já que a totalidade da salvação vem por meio dessa atitude, porquanto é do arrependimento que se inicia a salvação. O arrependimento dos perdidos tem prosseguimento no arrependimento dos remidos. A fruição espiritual é o alvo, em ambos os casos; e a fruição espiritual é o desdobramento de nossa grande salvação.

«O arrependimento não consiste de mera tristeza (embora a tristeza segundo Deus engendre o arrependimento; ver II Co 7:10); mas o arrependimento consiste da mudança de alma. Trata-se do ‘julgamento que temos passado, na presença de Deus, debaixo de sua graça, contra nós mesmos, e contra tudo quanto temos praticado e sido’». (Newell, in loc.).

Confessemos o mal; tenhamos consciência de sua destrutibilidade; busquemos a mudança positiva no íntimo, a transformação na direção da imagem santa de Jesus Cristo.

«…volta à prática das primeiras obras…» Literalmente traduzido, o verbo grego seria «faz», e isso no aoristo, o que dá ideia de uma atitude definitiva, a fim de que tais obras sejam constantemente praticadas. As «primeiras obras» não são novas e diferentes modalidades de ação; antes, são as mesmas obras, mas motivadas pelo amor original, de tal maneira que até pareçam novas obras. Mui provavelmente, o vidente João tinha em mente todas as formas diferentes de obras cristãs, como a do evangelismo, a do ensino e a do exercício dos dons espirituais no seio da igreja, que visam a sua edificação; e certamente também estão em foco os atos de bondade, de amor, as práticas altruístas que beneficiam ao próximo. Aqueles irmãos de Éfeso continuavam a praticar todas essas coisas, mas se tinham tornado «diferentes» por serem impelidos por «motivos diferentes». Nada de «ritualista» está aqui em foco. Nenhum «novo» batismo está em pauta, e nem alguma nova confirmação. Antes, é recomendada uma nova devoção, equiparada à devoção original; então, tudo em geral, deverá ser motivado por esse amor rejuvenescido.

Essa atitude de arrependimento e boas obras pode ser confrontada com a atitude recomendada no Talmude (ver Sanhedrin 32): «Os dois consoladores do homem são o arrependimento e as boas obras».

«…se não…» A opção nos pertence. A graça divina pode ser acolhida ou repelida. Não podemos subestimar o caos que a vontade pervertida poderá efetuar nas nossas vidas, tal como não podemos subestimar tal atitude da parte dos incrédulos, quanto ao evangelho. Podemos desviar-nos, esfriar na fé, tornar-nos indiferentes, inúteis, ser rejeitados, naufragar e tornar-nos incrédulos e apóstatas. A experiência humana comprova tal possibilidade.

«…venho a ti…» Consideremos os dois pontos seguintes:

1. A visitação de Cristo, na igreja de Éfeso (ou em qualquer outra comunidade cristã), para efeito de juízo, está aqui em foco, embora cada caso de visitação seja diferente dos demais casos. Porém, qualquer julgamento severo tende por «remover o testemunho» da pessoa ou da igreja envolvida.

2. Fica subentendida aqui a «parousia» Quando Cristo voltar, encontrará alguns crentes e igrejas locais despreparados, o que significa que, necessariamente, haverá certo juízo contra os tais. (Ver II Co 5:10 acerca do «julgamento dos crentes verdadeiros»). Cada qual receberá segundo tiver praticado de «bem» ou de «mal».

«…e removerei do seu lugar o teu candeeiro…» É um fato histórico que o testemunho cristão, antes tão poderoso em Éfeso, desapareceu. O «candeeiro» é a «igreja» e o «testemunho da igreja». A igreja cristã foi removida de Éfeso, e, juntamente com ela, o seu testemunho cristão. Éfeso foi a capital da igreja no mundo gentílico, um poderoso centro de propagação para larga área de atividades. Essa capital foi mudada para o ocidente, e o oriente praticamente se acomodou novamente em suas trevas originais. O escritor de certo comentário, ao descrever uma época cerca de setenta e cinco anos passados, diz-nos que visitou Éfeso, e que ali achou somente três crentes, os quais eram muito ignorantes.

«Seu candeeiro foi removido do seu lugar por séculos; a esquálida vila islamita mais próxima do antigo sítio da cidade não conta com um único crente, em sua insignificante população; seu templo é uma massa de ruínas disformes; seu porto é uma poça tomada pelos juncos; a galinhola real abunda em meio a seus charcos estagnados e pestilentos; e a malária e o olvido reinam supremos sobre aquele lugar, onde uma antiga civilização resplandeceu, em meio a cenas das mais grosseiras superstições e dos pecados mais degradantes». (Farrar, Life and Work of Paul, ii.43,44).

Éfeso foi a sede de uma longa linha de bispos orientais. O terceiro concilio geral teve lugar ali, em 431 D.C., a fim de condenar a cristologia de Nestor. Esse concilio se reuniu na igreja de Sta Maria, cujas ruinas até hoje podem ser vistas. Imediatamente em seguida, a cidade entrou em um período de declínio, parcialmente devido a surtos descontrolados de malária. Suas excelentes esculturas foram removidas para outros lugares, principalmente para Constantinopla. No século XIV, os turcos retiraram dali os seus habitantes restantes. Agora a região é escassamente populada, e essa é inteiramente da fé islâmica. No local exato da antiga cidade de Éfeso, restam apenas uma estação de trens e algumas poucas cabanas esparsas.

Todavia, a igreja original de Éfeso, deu ouvidos à advertência de Cristo, conforme se fica sabendo através da epístola de Inácio aos Efésios, na qual ele os tacha de «dignos de serem bem-aventurados». Em xi.2 dessa epístola, ele expressou o desejo que ele mesmo se achasse «na companhia dos crentes de Éfeso, os quais, outrossim, tinham a mesma atitude mental dos apóstolos, no poder de Cristo». Essa atitude, entretanto, não se manteve, pelo que tiveram lugar as condições acima descritas.

«Infelizmente, o candeeiro foi removido! O inigualável privilégio de exibir o Cristo, perante este mundo moribundo, perdeu-se para sempre. Diante de mim tenho uma fotografia da atual cidade de Éfeso—um arco arruinado, uma habitação islamita, em um castelo inatingível, em meio a colinas desoladas. Nenhum candeeiro em favor de Cristo, onde Cristo trabalhara por três anos, dia e noite, com lágrimas!»

«…caso não te arrependas…» Já que somos chamados ao arrependimento, fica entendido que somos capazes de fazê-lo. Deus não impede homem algum de arrepender-se. O intuito inteiro da mensagem do evangelho é contrário a esse conceito. Assim sendo, se alguém busca lugar de arrependimento, sincera e honestamente, haverá de arrepender-se. É conforme disse Moffatt (in loc.): «Fica subentendido que o homem possui o poder de voltar-se e de retornar». O poder da cruz é tão grande que capacita a todos ao arrependimento. (Ver Jo 12:32). Existe uma «graça geral», administrada através da missão remidora de Cristo; há uma «graça específica», que a segue; e ambos esses elementos são poderosos.

2:6    Tem, porém, isto, que aborreces as obra» dos nicolaítas, as quais eu também aborreço.

Agora somos levados de volta ao segundo versículo, que fala sobre a «resistência» contra os falsos apóstolos, homens «maus» e «mentirosos», conforme são ali chamados. O segundo versículo apresenta os «líderes» da seita desviada; e este versículo aponta para os «discípulos» deles, ou para a seita em geral. Seja como for, o mais provável é que as pessoas, referidas nos versículos segundo e sexto, sejam as mesmas.

«…nicolaítas…» Não há certeza absoluta quanto à identidade dessa seita, embora abaixo apresentemos as ideias centrais a respeito:

1.      O próprio vocábulo, no grego, significa «dominadores do povo». Na opinião de alguns, o povo seriam os «leigos». E daí tiram a suposição que está em foco a manifestação inicial das «ordens sacerdotais» ou «clero». Nesse caso, seria aqui combatida a formação de um clero profissional; e, no décimo quinto versículo deste mesmo capítulo, estão em foco vários desvios da doutrina, em associação a essa circunstância. Mas essa interpretação dificilmente se adapta à situação histórica em que as heresias sérias surgiram. Essa «seita» era de natureza libertina, que procurava solapar o imperativo moral do evangelho. Dificilmente poderíamos dizer que esteja em foco o clero, em seus primeiros passos.
2. Alguns estudiosos associam essa seita a Nicolau, prosélito de Antioquia, um dos sete discípulos originais de Jerusalém (ver At 6:5). Isso supõe que assim como os doze tiveram um apóstata dentre seu número, que outro tanto sucedeu aos sete. Em favor dessa interpretação há passagens em Irineu i.26 e iii.l 1.1 e em Hipólito (Philos. vii.36). Mas este último dependeu de Irineu. Outros eruditos pensam que o Nicolau original foi meramente indiscreto, pois, possuindo uma bela esposa, e sentindo que outros lhe tinham inveja por essa razão, chamou os apóstolos e outros líderes e ofereceu-a a qualquer deles que a quisesse. No entanto, a maioria dos estudiosos o tem como um apóstata franco. Apesar de ser possível que Nicolau tenha estado associado à Ásia Menor, e com Éfeso em particular, também é possível que o próprio Irineu estava «esclarecendo» este versículo mediante uma conjectura, não havendo, portanto, qualquer confirmação histórica para tal ideia. O apóstolo Nicolau, conforme diz a própria narrativa, tornou-se líder de uma seita gnóstica antinomiana. Parece terem participado de festas idólatras, incorporando imoralidade e sensualidade em suas práticas, no que seguiam à comum tradição gnóstica.

3. Em época posterior, houve uma seita gnóstica conhecida por «os nicolaítas», a qual é mencionada por Tertuliano (ver Praesc. Haer. 33; Adv. Marc. i.29 e De Pudicitia, 19), que também era de índole gnóstica. Clemente de Alexandria ii.20.118; iii.4.25 e as Constituições Apostólicas vi.8, juntamente com Vitorisino, fizeram a tentativa de mostrar que essas duas seitas não tinham nenhuma vinculação entre isso, e essa posição quase certamente é a correta, ainda que alguns intérpretes tenham imaginado a identificação das duas. O livro de Apocalipse foi escrito muito antes desse tempo, para referir-se à segunda dessas seitas do mesmo nome.

4. Ou então poderíamos pensar que o Nicolau em foco foi um personagem histórico, que residia em Éfeso ou naquela área em geral, embora não deva ser identificado com o homem do mesmo nome, que era de Jerusalém. Nesse caso, quase certamente, ele foi líder de uma forma de seita gnóstica, de tendências libertinas, embora ele mesmo não seja conhecido na atualidade, fora do presente contexto.

5. Finalmente, há aqueles que supõem que não devemos imaginar que «Nicolau» fosse o nome de alguma pessoa real e viva, mas que tudo não passa de um título—«dominador do povo» ou «destruidor do povo»— escolhido para representar a heresia que havia em Éfeso e que ameaçava à igreja cristã dali. Até mesmo nesse caso, é quase certo que alguma forma de gnosticismo esteja sob consideração.

Muitos intérpretes identificam os nicolaítas com os seguidores de Balaão, aludidos no décimo quarto versículo deste capítulo, ou supõem que ambos os grupos eram apenas representantes locais de uma mesma heresia gnóstica. Provavelmente essa posição é a correta. E algo que é quase fora de dúvida é que a heresia da Ásia Menor, quando foi escrito o livro de Apocalipse, e que era uma praga para as igrejas locais, era uma forma de gnosticismo, sem importar o que devemos pensar acerca dos títulos específicos dados a seus ramos. O segundo versículo explica alguns aspectos do gnosticismo, e o trecho de Cl 2:18 tem a nota de sumário sobre essa heresia. Nada menos de oito livros do N.T. foram escritos para combater ao gnosticismo, a saber: Colossenses, as três epístolas pastorais, as três epístolas joaninas e Judas. Os gnósticos criam que a matéria é o princípio mesmo do mal, e que o «sistema deste mundo» visa destruir finalmente à matéria. Poderíamos ajudar nesse processo, mediante o abuso contra o corpo, efetuado através do ascetismo (o tipo de gnosticismo combatido na epístola aos Colossenses), ou através da licenciosidade extrema (o tipo combatido nos outros sete livros mencionados, e que também é a variedade aqui focalizada). Os gnósticos removeram do evangelho o «imperativo moral», não vendo no mesmo nenhuma função «santificadora». Em sua suposta elevada «sabedoria» (mediada pelas artes mágicas, pelo cerimonialismo e por um falso misticismo), imaginavam-se «isentos» das exigências morais. Não há que duvidar que muitos deles usavam passagens de escritos paulinos, como o décimo quarto capítulo da epístola aos Romanos ou o oitavo capítulo da primeira epístola aos Coríntios, para ensinarem que tudo era questão «indiferente», e não meramente a observância externa de dias santificados, carnes, bebidas, etc., conforme Paulo ensinara. Portanto, tinham tendências «antinominianas» extremas. Em outras palavras, não havia lei moral no evangelho deles. Os gnósticos levaram a tal extremo as suas perversões que chegaram a declarar que os anjos vinham assisti-los e influenciá-los a que participassem de todas as formas de deboche, a fim de ganharem «experiência», mediante a qual obteriam «conhecimento». O termo grego «gnosis» significa «conhecimento»; e desse termo é que o nome deles se derivava.

O evangelho autêntico, naturalmente, se caracteriza por exigências morais mui rígidas. De fato, sem a santificação «…ninguém verá o Senhor» (Hb 12:14). E a «santificação» é uma necessidade imprescindível para a salvação (ver II Ts 2:13). O gnosticismo contava com muitos erros doutrinários, além de erros morais. Se porventura o gnosticismo houvesse ganho a batalha, o cristianismo ter-se-ia tornado apenas em uma outra religião misteriosa, greco-romana oriental.

«…odeias as obras dos nicolaítas…» Essas «obras» eram suas ações pervertidas e imorais. (Ver Ap 2:14,20). Provavelmente, também devemos compreender aqui o fato que procuravam «solapar» a unidade da igreja, sendo essa uma das obras abominadas. A verdade é que essa heresia continuou solapando à igreja por cento e cinquenta anos. Eles semearam a contenda e a confusão na igreja. (Quanto a evidências acerca disso, na era apostólica, ver I Jo 2:18 ss.).

Notemos a atitude correta para com o pecado. Os verdadeiros crentes «odeiam» à imoralidade, conforme aqueles crentes odiavam os ataques da citada seita. Portanto, no versículo segundo deste capítulo, lemos que os efésios não podiam «suportar homens maus». Quando somos fiéis a alguém, precisamos repreender seus pecados e erros; mas isso deve ser feito com o intuito de conquistar tal pessoa, e não de afastá-la, pelo que não se pode usar de espírito orgulhoso e altivo, conforme, com frequência, se verifica.

«Vós, que amais o Senhor, detestai o mal…» (Sl 97:10).

«Por meio dos teus preceitos consigo entendimento; por isso detesto todo caminho de falsidade». (Sl 119:104).

«Seis coisas o Senhor aborrece, é a sétima a sua alma abomina… o que semeia contendas entre irmãos» (Pv 6:16-19).

Outras ideias sobre este sexto versículo:

1. Dizem alguns que os nicolaítas eram idênticos aos seguidores de Balaão, porque Nicolau seria a tradução de Balaão, para o grego. Vários eruditos têm mantido esse ponto de vista, mas a maioria dos estudiosos modernos rejeita o mesmo. Contudo, não pode haver dúvidas razoáveis que tanto os seguidores de Balaão como os nicolaítas eram ramos representativos do gnosticismo. Não há motivo para duvidarmos da historicidade de tais seitas. Não são mencionadas neste capitulo meramente como símbolos com propósitos didáticos. A história mostra-nos a realidade histórica de variegadas seitas gnósticas.

2. «É possível que um mesmo ramo antinominiano se tenha dividido em três formas: a. uma forma doutrinária (os nicolaítas); b. uma forma mundanizada (os seguidores de Balaão); e c. uma forma espiritualista (os seguidores de Jezabel)». (Comentário de Lange). Embora talvez não tenhamos motivo para fazer tal divisão, é provável que os vários problemas enfrentados pelas igrejas da Ásia Menor tenham tido uma raiz comum.

3. A identificação de Nicolau, aludido em Atos 6:6, com a seita aqui mencionada, pode ter sido meramente uma conjectura, da parte de alguns dos primeiros pais da igreja. Por outro lado, poder-se-ia argumentar, logicamente, que não era do interesse da tradição posterior destruir a reputação de qualquer crente neotestamentário revestido de autoridade na igreja. É possível que o próprio Nicolau não fosse culpado de sensualidade, mas apenas indiscreto, porque seu oferecimento de sua própria esposa, a qualquer que quisesse possuí-la, pode ter sido interpretado como uma tentativa de estabelecer uma «comunidade de esposas». (Ver Clemente de Alexandria, Strom. 1.3, Pág. 436 e Eusébio, História Eclesiástica 1.3, cap. 29; quanto à narrativa do ato indiscreto de Nicolau). Algumas seitas gnósticas, na realidade, tinham esposas em comum.

2:7    Quem tom ouvidos, ouço o que o Espirito diz as igrejas. Ao que vencer, dar-lhe-ei o comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.

«…Quem tem ouvidos, ouça…» Essa fórmula introduz as «promessas» feitas às igrejas, nesta e nas próximas duas cartas do Apocalipse. Nas outras quatro cartas, porém, a fórmula segue-se às promessas feitas. Sem importar a ordem, trata-se de uma solene chamada, para que se aplique o que se acaba de ouvir. Já que Cristo Jesus é apresentado como quem fala, não admira que a forma de expressão seja similar a declarações genuínas de Jesus, nos evangelhos. (Ver Mc 4:9,23; 7:16; Mt 11:15; 13:9,43; Lc 8:8 e 14:35). A expressão, no dizer de Vincent (in loc.): «…é usada sempre acerca de verdades radicais, grandes princípios básicos e grandes promessas». As sete cartas deveriam ser «lidas» nas igrejas (ver Ap 1:3). Poucas pessoas poderiam «lê-las» pessoalmente. Mas todos poderiam «ouvir» a leitura dessas instruções. Portanto, já que eram capazes de ouvir, porque seu aparelho auditivo estava em funcionamento, então deveriam ter a sabedoria de dar ouvidos e de pôr em prática o que lhes era dito, o que evitaria que fossem condenados.

O ouvido que ouve. «Um dos mais solenes estudos da Bíblia inteira é aquele concernente ao ‘ouvido que ouve’. No fim dos quarenta anos que passou no deserto, Moisés diz a Israel que embora tivessem visto tantos prodígios, Jeová não lhes dera, como nação, olhos para verem e ouvidos para ouvirem! (Ver Dt 29:4). E quando já se achavam na terra de Canaã, também não deram ouvidos aos mensageiros de Deus, os profetas; e a Isaías foi ordenado que ordenasse judicialmente a que tornasse ‘…insensível o coração deste povo…’, endurecendo lhe os ouvidos e fechando-lhe os olhos, a fim de que não vissem com os olhos, ouvissem com os ouvidos, se convertessem e fossem curados’ (Is 6:10). E Jeremias clama: ‘Ouvi agora isto, ó povo insensato e sem entendimento, que tendes olhos e não vedes, tendes ouvidos e não ouvis’. E continuou ele ainda a dizer que o coração daquela gente engordara devido à prosperidade, que seus ouvidos se embotaram para ouvir (literalmente, ouviam pesadamente, ou seja, de forma lenta e imperfeita), e seus olhos se tinham fechado (no hebraico, ‘ficaram lambuzados’). Essa citação de Isaías não dá lugar à interpretação fatalista sobre esta passagem, mas põe toda a culpa sobre o endurecimento de coração e o despreparo dos ouvintes, motivo por que a pregação da Palavra, neste mundo, serve apenas para maior obscurecimento e condenação dos tais». (Alford, in loc.). Jeová dissera a Ezequiel (12:2): «Filho do homem, tu habitas no meio da casa rebelde, que tem olhos para ver, e não vê, tem ouvidos para ouvir, e não ouves…» O ouvir sem a devida reação positiva produz a ilusão fatal—a capacidade dos homens se esquecerem do que diz Tg 1:22,24. «Não me quiseram ouvir» é a constante queixa de Deus, através dos profetas.

Nosso Senhor chegou até a dizer para seus discípulos, no barco (ver Mc 8:17,18): «…ainda não considerastes, nem compreendestes? tendes o coração endurecido? tendo olhos, não vedes? e, tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais…» Sim, a verdade divina nos entra pelos ouvidos; e aquele ato da vontade, que dá acolhida à Palavra, se chama «dar ouvidos», o que, algumas vezes, envolve a «inclinação» do ouvido (para longe de tudo o mais).

Ora, por nada menos de sete vezes nos evangelhos, e por oito vezes neste livro de Apocalipse—sete vezes para essas igrejas! reboa aquela chamada vital, aberta e particular, para quem quisesse ter ouvidos abertos: ‘Quem tem ouvidos, que ouça!’

Não sabeis que a maioria dos leitores e ouvintes do livro de Apocalipse não ‘ouvirá’ realmente, no sentido tencionado pelo Senhor—um deixar cair no ouvido, pessoal, separando’ palavra por palavra?

«Seiss observou como segue: ‘Pescadores e cobradores de impostos, ao darem ouvidos a Jesus, terminaram sentados em tronos apostólicos, ministrando quais sacerdotes e ministros da dispensação, ampla como o mundo e duradoura como o tempo’» (Newell, in loc.).

«…O Espírito diz…» No livro de Apocalipse, tal como no N.T., inteiro, o Espírito Santo é o «alter ego de Cristo», o seu porta-voz, o poder divino que dá prosseguimento à sua obra, dentro e fora da igreja. O «Espírito Santo» não é a mesma coisa que os «sete espíritos». (Ver acerca dos «sete espíritos», em Ap 1:4).

«…às igrejas…» Quais? As sete igrejas da Ásia Menor, para onde foi originalmente enviado o livro de Apocalipse, em que cada delas recebeu uma «carta», constante nos capítulos dois e três deste livro. Naturalmente, elas representam a «igreja universal».

«…ao vencedor…» Consideremos os pontos seguintes, a esse respeito:

1. O vencedor seria o que permanecesse fiel a Cristo, opondo-se aos hereges gnósticos.

2. Seria aquele que desse ouvidos à admoestação de retornar ao «primeiro amor» e à prática das «primeiras obras».

3. Seria aquele que repelisse a mensagem sem moral dos nicolaítas (gnósticos), mantendo a pureza de fé e de prática.

4. Seria aquele que permanecesse constante, sob as perseguições.

5. Seria aquele que, conforme se vê em todas essas cartas, fizesse o que lhe é dito que faça, opondo-se ao que lhe fosse ordenado opor-se.

Todo Crente Genuíno É Um Vencedor

1. Com base em Ef 6:11 e ss., aprendemos que não existe crente verdadeiro que também não seja um soldado. Ora, o soldado está envolvido em uma guerra, não sendo mero espectador dos lances. Conta com a armadura de Deus e a usa. Domina e vence o mal.

2. Coisa alguma foi prometida àqueles que não se mostrarem vencedores nessa luta. Cada uma das sete epístolas do Apocalipse promete algo ao «vencedor». Nenhuma promessa é oferecida a qualquer outra qualidade de pessoa.

3. Cristo é o vencedor-mor. Ele é o nosso exemplo. Ver Ap 3:21; 5:5 e 17:14 quanto a esse título, que lhe é aplicado. Ver acerca da metáfora baseada na vida militar, em Ef 6:10-20.

«…dar-lhe-ei…» Temos aqui, no original grego, o tempo futuro do verbo «didomi», o que se repete em Ap 2:10,17,23,26,28; 3:8,21; 6:4; 11:3 e 21:6, onde há várias promessas feitas por Cristo. A Cristo foi dado todo o «poder» ou «autoridade» (ver Mt 28:18). Cristo pode dar esse galardão agora, mas certamente o fará quando de sua segunda vinda (ver I Ts 4:15), ou quando do juízo final (ver II Co 5:10).

«…se alimente da árvore da vida…» A promessa. João, o vidente, leva-nos de volta ao jardim do Éden, e assegura-nos que aquilo que foi «espiritualmente perdido» através do pecado, pode ser recuperado em Cristo, e, de fato, será recuperado por todos os «vencedores». A questão do «comer» é simbólica, apontando para a obtenção da vida eterna e da nutrição espiritual, com satisfação de toda e cada necessidade. Comparemos com o comer do Pão da vida, em João 6:48. Aquele que se alimenta desse Pão, assume a própria forma de vida e a própria natureza do Filho, porquanto seus efeitos alimentares são transformadores. Espiritualiza ao ser inteiro, de tal modo que este vem a participar de toda a plenitude de Deus, de sua modalidade de vida (ver Jo 5:25,26 e 6:57), de sua natureza e atributos (ver Ef 3:19). Isso, naturalmente, envolve muito mais que a restauração do que se perdera no «Éden». Obteremos certa forma da «imortalidade», aquele tipo de vida que possui o próprio Deus Pai. Naturalmente, não há neste ponto qualquer alusão a alguma árvore literal. Essa «árvore» simboliza a transmissão da vida eterna aos homens. (Ver Jo 3:15 quanto a esse conceito). Nos capítulos vigésimo primeiro e vigésimo segundo deste capítulo, é descrito o «novo paraíso». Portanto, neste ponto, nos é assegurado que, nesse novo Paraíso, na qualidade de cidadãos do mundo eterno e celestial, teremos uma imensa vida espiritual, a própria vida «independente» e «necessária», a vida que tem em si mesma a origem da vida, que não pode deixar de existir.

Portanto, se Adão tornou-se um ser mortal, embora, antes do pecado fosse um imortal de baixa categoria, em Cristo, tornamo-nos imortais da mais elevada categoria, participantes da própria vida de Deus Pai; assim sendo, seremos mais altos do que os próprios anjos, tal como o Filho de Deus é muito mais elevado do que eles, os quais são referidos apenas como fumaça ou chamas, em comparação com Cristo. (Ver Hb 1:7).

É deveras lamentável que, na igreja evangélica de hoje em dia, a «salvação» é reduzida apenas ao perdão de pecados e à futura mudança de endereço para os céus. Na verdade, a salvação consiste daquilo que acontece conosco, a espiritualização dos nossos próprios seres, mediante a qual assumimos, mui literalmente, a própria espécie da natureza de Cristo, ou seja, compartilharemos de seus atributos e de sua glória. Isso é o que está envolvido no fato que nos alimentaremos da árvore da vida, nos mundos eternos. (Pode-se ver o simbolismo místico da «árvore», em Pv 3:18; 13:12; 11:30 e 15:4).

«O comer da árvore da vida expressa a participação na vida eterna. O simbolismo da árvore da vida aparece em todas as mitologias, desde a índia até à Escandinávia. Os rabinos judeus e islamitas chamavam o vinho de ‘árvore da provação’. O Zend Avasta tem a sua própria árvore da vida, chamada de ‘Destruidora da Morte’. Ela medraria próximo às águas da vida, e o beber de sua seiva conferiria a imortalidade. A árvore da vida dos hindus é retratada como árvore que medra de dentro de um grande mar, em meio à expansão das águas. Teria três galhos, cada um coroado por um sol, denotando os três poderes da criação, da preservação e da renovação, após a destruição. Em uma outra apresentação, Buda aparece a meditar, assentado debaixo de uma árvore com três galhos, cada um dos quais, por sua vez, tem três ramos. Um dos cilindros babilônicos, descobertos por Layard, representa três sacerdotisas a juntarem o fruto do que parece ser uma palmeira, com três ramos de cada lado. Ator, a Vênus dos egípcios, aparece meio oculta nos ramos do pessegueiro sagrado, entregando o seu fruto às almas que partem, bem como a dar-lhes a bebida do céu, mediante um vaso, de onde as correntes da vida descem sobre o espírito, uma figura ao pé da árvore, como se fora um falcão, com uma cabeça humana e com mãos estendidas. Na mitologia norueguesa, há uma figura proeminente, Igdrasil, a árvore-cinza da existência; suas raízes estão no reino de Hela, ou Morte, seu tronco atinge os céus, e sua copa se espalha pelo universo inteiro. A seus pés, no reino de Morte, estão assentadas três Noms ou Sortes, o Passado, o Presente e o Futuro, a regarem suas raízes com água retirada do poço sagrado. Comparar com Ap 12:2,14,19. Virgílio, dirigindo-se a Dante, ao terminar a descida no monte do Purgatório, diz:

Aquela doce maçã, embora com tantos ramos,

E que os mortais perseguem com zelo,

Hoje satisfará aos teus desejos.

(Purgatório, xxvii.115-117) (Vincent, in loc.).

«A narrativa do livro de Gênesis fala de uma árvore, cujo fruto foi proibido. A mensagem aos crentes de Éfeso fala de uma ‘árvore da vida’, que os crentes vitoriosos receberão permissão de comer. Após a provação vem a satisfação. Existem certas coisas que só podem ser dadas aos homens, em segurança, depois de haverem sido disciplinados, mediante firmeza, sob as pressões da vida, quando chegam à força autêntica. O crente deseja satisfazer às condições para comer da árvore da vida. Essa árvore sugere uma disciplina nobre, e não a concupiscência desregrada. Francis Thompson, em um poema intitulado ‘Her Portrait’, fala sobre:

Um triste músico…

A tocar a ouvidos alheios, que não davam valor

À música não-compreendida do firmamento.

«É um pensamento que nos faz meditar sobre aquele que mostra que o ou­vido precisa ser treinado para a música celestial, da mesma maneira que o paladar deve ser treinado para o alimento celestial». (Hough, in loc.).

«A vitória pessoal sobre o mal é o condição sem a qual ninguém comerá da árvore da vida». (Charles, in loc.). Trata-se da mesma verdade, declarada sob outros termos, em Hb 12:14: «Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor». A santificação é absolutamente necessária à salvação, conforme se aprende em II Ts 2:13 e Rm 6:22.

Aqueles que evitassem as libertinagens dos nicolaítas, eventualmente ficariam plenamente satisfeitos com a abundância da árvore da vida. (Isso pode ser comparado ao trecho de Ap 22:2,14, quanto a sobre a «árvore da vida»). Foi o madeiro da árvore da cruz que possibilitou a realidade da árvore da vida (ver Cl 1:20). Mas essa vitória deve ser aplicada, mediante a lealdade a Cristo, na batalha contra o mal e na aquisição de sua própria santidade, através do poder do Espírito Santo. O pecado humano terminou a possibilidade de chegarmos naturalmente à árvore da vida (ver Gn 3:24). Mas Cristo, em sua missão terrena, reverteu essa derrota. Todavia, a sua vitória só será compartilhada pelos vencedores, no sentido que participarão de sua própria vida e natureza. O primeiro capítulo da epístola aos Efésios mostra que todos, de alguma maneira, em uma grande restauração geral, tendo a Cristo como Senhor e Cabeça, haverão de receber benefícios do que ele realizou.

O paraíso de Deus. Tal como sucede a muitos conceitos que foram elaborados através dos séculos, o do paraíso não tem um único sentido simples, e, sim, diversos significados, dependendo do autor, a saber:

1. O próprio vocábulo vem do persa, e tem o sentido de «jardim», terreno ou celestial, ou seja, um «lugar de deleite», de «descanso», de «refrigério». Na Septuaginta grega, o termo foi aplicado ao Jardim do Éden. (Ver Gn 2 e ss.; Filo; Josefo. Antiq. 1,37; Oráculos Sibilinos 1,24; 26,30).

2. Foi apenas natural que o termo viesse a ser aplicado aos conceitos do após-vida, quando as almas justas encontrarem um lugar de descanso dotado de magnificente beleza, riquezas, e vida eterna. Por isso, os rabinos faziam dele um equivalente ao «seio de Abraão»; ou seja, a porção boa do hades. Esse uso se reflete em Lc 16:22, e talvez também em Lc 23:43. Outro tanto figura em En. 32,3; Testamento de Levi 18:10; Sib. or. fgm. 3,48, e muitas passagens das pseudoepígrafes do A.T.

3. Os judeus supunham que existem sete céus, e, presumivelmente, tudo, com exceção da própria habitação de Deus, poderia ser chamado de «paraíso». Seja como for, o «paraíso» indicava um estado «intermediário», e não a habitação mesma da divindade. Portanto, em II Co 12:2,4, é quase certo que Paulo identifica o «terceiro» céu (dentre muitos níveis celestes), com o «paraíso».

4. Mas, sendo muito flexível essa palavra, não é de estranhar que seja usada para indicar a presença de Deus, os céus mais elevados, mui provavelmente o que está em foco no presente versículo. (Ver as descrições sobre a «Nova Jerusalém», a capital dos novos céus e da nova terra, nos capítulos vinte e um e vinte e dois do presente livro, podendo-se observar que a «árvore da vida» estará localizada ali. Portanto, a «Nova Jerusalém» é identificada com o «paraíso», pelo vidente João.

Os únicos empregos desse vocábulo, nas páginas do N.T., são aqueles sobre os quais já fizemos alusão, na discussão acima, Lc 23:43; II Co 12:4 e Ap 2:7. E, em todos esses três casos, os usos são diferentes.

Para o vidente João, o paraíso é o Éden celestial, onde os remidos participarão da vida eterna, o que chamamos de «céus» ou «lugares celestiais», embora, em outros trechos, mais adiante, ele identifique esse paraíso com a Nova Jerusalém, a qual será um lugar específico dos lugares celestiais. Ali é que se encontrará o paraíso «de Deus», o que dá a entender que ali os homens serão conduzidos à presença de Deus, ou seja, à sua própria habitação, com suas bênçãos prodigiosas, o que não poderá ser atingido, a não ser mediante a vitória que obtemos por meio de Cristo.

Bibliografia R. N. Champlin

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