Lição 8 – Editora Betel – Jacó em Siquém

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Texto Áureo

“E vieram os filhos de Jacó do campo, ouvindo isso, e entristeceram-se os homens, e iraram-se muito, porquanto Siquém cometera uma insensatez em Israel, deitando-se com a filha de Jacó; o que não se devia fa­zer assim”. Gn 34.7

Verdade Aplicada

Diante do perigo, o que nos leva a vencer o medo e a ansiedade e permanecer firme, é a con­fiança nas promessas de Deus.

Objetivos da Lição

?      Ensinar que quando confia­mos em Deus não precisamos temer ao homem;

?      Lembrar que temos que cumprir os votos que fazemos a Deus; e

?      Mostrar o perigo das amiza­des com os ímpios.

Textos de Referência

Gn 33.17 Jacó, porém, partiu para Sucote, e edificou para si uma casa, e fez cabanas para o seu gado; por isso, chamou o nome daquele lugar Sucote.

Gn 33.18 E chegou Jacó salvo à cidade de Siquém, que está na terra de Canaã, quando vinha de Padã-Arã; e fez o seu assento diante da cidade.

Gn 33.19 E comprou uma par­te do campo, em que estendera a sua tenda, da mão dos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de dinheiro.

Gn 33.20 E levantou ali um al­tar e chamou-lhe Deus, o Deus de Israel.

Gn 34.1 E saiu Diná, filha de Léia, que esta dera a Jacó, a ver as filhas da terra.

Gn 34.2 E Siquém, filho de Ha­mor, heveu, príncipe daquela terra, viu-a, e tomou-a, e deitou-se com ela, e humilhou-a.

 

Jacó Encontra-se com Esaú (33.1-15)

Conforme os críticos pensam, a continuação do uso do nome Jacó, em vez de Israel (Gn 32,28), deve-se a fontes múltiplas, uma ou outra das quais não levou em conta a mudança de nome.

Chegamos agora ao mui longamente esperado e temido encontro de Jacó com Esaú. O coração de Jacó havia sido transformado, e agora ele anelava por reconciliar-se com seu irmão. Ele havia preparado restituição, porque havia prejudicado a Esaú (os ricos presentes que lhe ofereceria; ver Gn 32.13 ss.). Mas Esaú não se mantive­ra rancoroso; e aquilo que Jacó tanto havia temido terminou por se tomar uma alegre reunião em família, com muito amor e respeito mútuo. Oh, Senhor, concede-nos tal graça! A providência de Deus continuava a cuidar de Jacó.. Esse é um tema central ao longo do livro de Gênesis.

33.1 Esaú se aproximava. Jacó levantou os olhos e viu a figura temida. Ali estavam Esaú e seu ameaçador exército de quatrocentos homens. A maior parte do que tememos nunca se materializa. Durante a Segunda Guerra Mundial, declarou o presi­dente Roosevelt, dos Estados Unidos da América: “Nada temos que temer, exceto o próprio temor”. Talvez os homens de Esaú tivessem chegado armados. Mas o próprio texto nada diz. No entanto, se tinham vindo armados, foi porque Esaú não sabia o que poderia esperar da parte de Jacó. Mas vendo que não havia perigo algum, e tendo passado pelos três rebanhos que Jacó havia preparado como um presente (Gn 32.13 ss.), abandonou de vez a ideia de atacar a Jacó e a seu grupo.

Mostrando-se à altura da transformação de Jacó, devido às experiências espirituais deste, Esaú sempre demonstrou um caráter superior. Assim sendo, por que ele foi aviltado? Simplesmente porque assim os livros pseudoepígrafos o avali­aram, o que acabou sendo uma forma padronizada de os judeus o avaliarem. E isso foi transferido para o Novo Testamento (Rm 9.13; Hb 12.16). Mas se nos ativermos ao relato veterotestamentário a seu respeito, chegaremos à conclusão de que ele teve momentos de insensatez, como quando vendeu por quase nada o seu direito de primogenitura, mas também que, excetuando esses maus momen­tos, ele sempre se mostrou uma pessoa honrada. Esaú voltou a encontrar-se com Jacó quando os dois sepultaram a seu pai, Isaque (Gn 35.29), e assim os dois cumpriram os seus deveres filiais até o fim.

As Quatro Divisões. Temendo ainda o pior, Jacó tinha dividido seus filhos sob os cuidados de suas quatro mulheres. Ele haveria de enviar seus familiares em grupos distintos até a presença de Esaú, tal como havia feito com seus rebanhos (Gn 32.16). Parece que essa foi outra tentativa de aplacar a Esaú, mediante adiamento. Ou talvez ele tenha pensado que, se Esaú chegasse a dizimar o primeiro grupo (liderado por uma de suas concubinas), então os outros três gru­pos pelo menos poderiam tentar escapar.

33.2 Uma Hierarquia. Em primeiro lugar apresentaram-se Bila e Zilpa, com seus respectivos filhos. Em seguida, Lia, com seus seis filhos e uma filha. Depois, Raquel e José, como escreve o comentarista da nossa lição. E, finalmente, Jacó. E isso pelas razões esclarecidas acima. E a sequência de apresentação, sem dúvida, evidenciava o amor e a preocupação variegados de Jacó por cada grupo. Os mais chegados ele guardou para o fim, Raquel e José. Posteriormente, os filhos de José tornaram-se os favoritos de Jacó, Despedaçava o coração enviar um filho a uma situação de perigo, ao mesmo tempo em que retinha um filho mais amado para evitar aquele mesmo perigo, durante algum tempo. Essa foi a agonia que Jacó precisou enfrentar. “Ele mandou à frente a quem estimava menos” (Adam Clarke, in loc.).

33.3 Jacó Mostra-se Humilde. Subitamente, encorajando-se, Jacó não obedeceu a todos os passos de seu plano, de ir apresentando aos poucos os seus entes queridos. Mas foi diretamente ao encontro de Esaú. Jacó aproximou-se dele humilde e contrito. Prostrou-se diante de seu irmão por sete vezes, embora ainda na noite anterior tivesse enfrentado o Anjo do Senhor, lutando com Ele a noite inteira e prevalecendo. Submeteu-se ao perigo, com fé no coração e uma oração nos lábios. Somente a ajuda de Deus poderia livrá-lo agora. Não tinha justificativa, e nenhuma virtude que pudesse apresentar como motivo para con­tinuar vivo.

“Esse ato de prostrar-se, no Oriente, é feito dobrando o corpo para a frente, com os braços cruzados, a mão direita sobre o peito” (Ellicott, in loc.).

Prostrando-se, Jacó aproximou-se. De tantos em tantos passos, ele se prostrava. O orgulhoso suplantador, o enganador, o fugitivo, agora enfrentava os seus pecados, a situação que ele mesmo havia criado fazia muitos anos. Todos nós acabamos por nos encontrar conosco mesmos.

O Símbolo. Jacó era como um pecador contrito que se lança à misericórdia de Deus. E, tal como Jacó, o pecador é acolhido com um caloroso abraço, seus pecados perdoados. A comunhão tomara o lugar do temor.

33.4 A Magnanimidade de Esaú. Esaú não hesitou, mas correu ao encontro de Jacó. Quem tomou a iniciativa foi Esaú. Ele abraçou Jacó; e ambos choraram. Passaram-se cerca de vinte anos, desde que se tinham visto pela última vez. “Quão sincera e genuína foi essa conduta de Esaú, e, ao mesmo tempo, quão magnânimo! Ele sepultara todo o seu ressentimento e esquecera todas as ofen­sas” (Adam Clarke, in loc.). “Já tínhamos recebido antes (Gn 27.38) uma prova de que Esaú era homem de sentimentos calorosos; e agora vemos, de novo, como ele foi dominado por seus impulsos amorosos” (Ellicott, in loc.). Os antigos manuscritos dos hebreus tinham marcas aqui, para que o leitor notasse que algo de maravilhoso havia sucedido. Isso era interpretado positivamente por alguns, e negativamente por outros (como se Esaú tivesse sido um hipócrita nessa de­monstração de afeto). Mas como é óbvio, seu amor era genuíno, e é bem possível que aquele sinal servisse para mostrar ao leitor um tão notável exemplo de amor fraternal, inesperado por parte de Jacó. Bastava de temor; bastava de medo. A graça de Deus havia resolvido o problema da maneira mais extraordinária. O amor é a essência mesma e a prova da espiritualidade (I Jo 4.7 ss.).

33.5 Quanta Gente! “Quem são todas estas pessoas?”, indagou Esaú. Embora separados por cerca de setecentos e cinquenta quilômetros apenas, parece que nunca houvera intercomunicação entre os dois ramos da família de Isaque. Havia quatro mulheres e doze filhos (incluindo Diná), e Esaú estava querendo uma explicação. Os filhos eram reputados uma bênção do Senhor, a fertilidade era tida como grande vantagem, e famílias numerosas eram algo desejável (Sl 127.3). Em consequência, o grande número de filhos de Jacó mostrava a Esaú que o Senhor estava com seu irmão.

33.6 As servas. Ou seja, Bila e Zilpa, cada qual com seus dois filhos, foram apresentadas a Esaú. Elas cumprimentaram respeitosamente o irmão de seu marido, de quem eram cunhadas. Os filhos de Bila eram Dã e Naftali, e os de Zilpa eram Gade e Aser, todos os quatro destinados a tornar-se patriarcas de Israel, cabeças de tribos.

33.7 Lia e seus filhos. A primeira esposa de Jacó, Lia, a irmã mais velha de Raquel, apresentou-se com seus filhos: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom (seis filhos) e Diná (a filha). Esses filhos estavam destinados a ser chefes de outras tantas tribos que formariam uma parte da nação de Israel.

José e Raquel. Raquel tinha apenas um filho. Tempos depois, ela teria Benjamim, mas morreria do parto. José seria o filho favorito, e seus filhos seriam altamente estimados por Jacó. Por esse tempo, José estaria com sete anos de idade. Não houve tribo de José, em Israel, mas Efraim e Manassés, filhos de José, tornaram-se cabeças de tribos, porquanto tinham sido adotados por Jacó como se fossem seus filhos (Gn 48.5). Estritamente falando, isso formaria treze tribos, mas apenas doze são formal­mente consideradas (Êx 24.4; Js 4.2). Levi, embora filho, ocupou posição de medianeiro entre Yahweh e a nação de Israel, e não dispunha de território próprio.

Lia e Raquel, além de serem cunhadas de Esaú, eram também suas primas, pois Jacó, Raquel e Lia eram primos. Todos demonstraram o devido respeito por Esaú, cada grupo por sua vez, conforme Jacó os tinha disposto em ordem (ver Gn 33.1,2).

33.8 Os Presentes. Jacó havia exagerado. Tinha separado quinhentos e oitenta animais dos tipos mais valiosos para alimento, vestuário e viagens (Gn 32.14,15). Ele havia dividido esses animais em três grupos (Gn 32.19), cada um dos quais deveria aproximar-se em separado, dando tempo para Esaú esfriar a sua indigna­ção (se ele continuasse irado e estivesse disposto a atacar). Foi preciso muito tempo para fazer passarem os presentes diante de Esaú. Tudo era um tanto misterioso. Por isso, agora Esaú desejava saber a razão daquilo tudo. O próprio Jacó explicou que se tratava de um presente para “lograr mercê” na presença de seu irmão, a pessoa a quem ele tanto havia ofendido. “Nos países orientais era comum levar presentes a amigos e, especialmente, a grandes homens, sempre que houvesse visitas. E todos os viajantes em geral testificam que assim continua sendo o costume, até estes nossos dias” (John Gill, in loc.).

33.9 Guarda o que tens. Essas palavras de Esaú mostram o desinteresse de Esaú pelos bens materiais. Sem importar quais fossem os defeitos de Esaú, ele não era ganancioso como Labão. Ele tinha o bastante. O Senhor Deus também o havia abençoado, podemos ter certeza. Os presentes de Jacó mostraram-se des­necessários. Esaú não precisava ser subornado, porquanto havia amor fraternal em seu coração.

Os judeus e os árabes conferenciam interminavelmente, mas há entre eles matanças e vinganças de parte a parte, ao passo que um pouco de amor poderia resolver esses problemas em um único dia.

“No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo” (I Jo 4.18).

33.10 Mas Jacó insistiu. É um erro supormos aqui que Esaú queria receber os presentes, mas que, de acordo com a polidez e a maneira de barganhar dos orientais, foi obrigado a permitir que Jacó primeiro o convencesse. Esaú realmen­te não queria os bens materiais. Por outra parte, teria sido uma bofetada no rosto de Jacó não aceitar o que lhe era oferecido tão generosamente. Portanto, deixou-se convencer.

Vi o teu rosto. Jacó disse que a fisionomia de Esaú lhe parecera o semblan­te de Deus, como se tivesse visto o próprio Elohim. E, em certo sentido, isso era uma verdade. A bênção, os cuidados e a proteção de Elohim transpareciam no rosto de Esaú, e o coração de Jacó saltava-lhe no peito ao entender que suas orações haviam sido respondidas; e assim os seus temores chegaram ao fim. Quando amamos, não motivos para termos medo de Deus. Antes, Ele é o grande Benfeitor de toda a humanidade, e Seus decretos resultam em prosperida­de e bem-estar. O texto fala sobre a providência de Deus, uma mensagem constantemente reiterada no livro de Gênesis.

Talvez tenha havido alguma hipérbole na exclamação de Jacó sobre o sem­blante de Elohim, mas podemos estar certos de que o seu coração estava invadi­do pela alegria naquele momento.

O amor estampado no rosto de uma pessoa é um reflexo do semblante de Deus, porquanto Deus é a fonte de todo amor, seu manancial e garantia. Quan­do alguém ama e é amado, há algo de divino nisso; e quando buscamos o amor, buscamos a Deus, mesmo que não tenhamos consciência disso. O amor é, virtualmente, o único princípio que todas as filosofias e religiões aprovam de forma unânime. Nas religiões e filosofias mais avançadas, o amor é o princípio controlador e a grande inspiração. Não obstante, é mais fácil odiar. E muitos, embora donos de uma teoria correta, odeiam em nome do amor ou da espiritualidade.

33.11 Aceitar Era Forçoso. Naquele tempo, no Oriente, rejeitar um presente era um ato de hostilidade. Já a aceitação era um ato de amizade. A última dúvida se Esaú queria causar dano ou não, e se Jacó havia achado mercê ou não, seria removida quando Esaú recebesse o presente de Jacó. Por isso, apesar de não querer o presente nem dele precisar, acabou por aceitá-lo. Nisso há toda uma lição espiri­tual. Deus oferece a Sua salvação por meio da graça, mas ela não é eficaz enquanto a pessoa não a aceita. E, então, evapora-se a hostilidade entre o homem e Deus.

Ter Sorte. Ainda havia o envolvimento de outro fator. Era considerado um golpe de sorte receber um presente, e Deus era considerado a fonte de toda boa sorte. Ver I Sm 25.27; 30.26.

Compartilhando as Riquezas. A generosidade é um grande princípio ético. Ser generoso com os próprios bens é uma maneira de viver segundo a lei do amor. A generosidade faz parte da espiritualidade. O cristianismo de Tiago enfatiza a generosidade (Tg 2.14 ss.). Deus é a fonte de toda boa dádiva (Tg 1.17). Jacó, pois, queria compartilhar seus bens. Elohim, que lhe havia dado tantas bênçãos, jamais mostrar-se-ia pobre com ele. Continuaria a abençoar a Jacó, para que este pudesse continuar compartilhando seus bens.

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu...” (Jo 3.16).

33.12 Eu seguirei junto de ti. Agora, Esaú e Jacó eram amigos, e Esaú propôs que viajassem juntos, até Seir (vs. 16). Mas suas veredas, que se tinham cruzado por tão pouco tempo, só haveriam de cruzar-se de novo até que os dois sepultassem Isaque, pai deles (Gn 35.29). Esaú, o mais extrovertido dos dois irmãos, queria prolongar o encontro. Mas Seir ficava fora da rota de Jacó. Ele estava seguindo em direção a Hebrom. E embora talvez tencionasse seguir após Esaú e visitá-lo em Seir (vs. 16), acabou não cumprindo a sua intenção. Se os dois homens tivessem exami­nado juntos os seus itinerários, teriam verificado que poderiam descer de Peniel a Hebrom (cerca de cento e sessenta quilômetros), permanecer ali por algum tempo (que é um lugar bem fora da rota), e, então, Esaú poderia ter ido sozinho até Seir, talvez viajando mais cento e sessenta quilômetros. Mas parece que Jacó não compartilhava do entusiasmo de Esaú quanto a uma viagem juntos. Além disso, ele estava ansioso por chegar em casa, após cerca de vinte anos “fora” de sua terra.

33.13 As crianças e os animais novos não estavam fisicamente preparados para caminhar cento e sessenta quilômetros extras até Seir, e depois mais cento e sessenta quilômetros de volta a Hebrom. Era ótimo estar novamente com um irmão amigo, todos os antigos ferimentos cicatrizados; mas as crianças tinham prioridade. As razões de Jacó eram boas. Por outra parte, talvez seja verdade, conforme disse Cuthbert A. Simpson (in loc.), que Jacó “soltou um suspiro de alívio”, quando Esaú dirigiu-se novamente ao deserto, sem que ninguém saísse prejudicado ou ferido. Seja como for, já tinha havido excitação suficiente para aquele dia, e Jacó, agora livre, tanto de Labão quanto de Esaú, sentia-se capaz de completar sua viagem de volta para casa. Estava apenas a cerca de cento e sessenta quilômetros dali. Quando um homem está voltando para casa, depois de uma longa ausência, é melhor não complicar o quadro.

O filho mais velho de Jacó, Rúben, deveria estar com treze anos de idade, e José deveria ter sete anos. Já estavam sofrendo muita tensão. A preocupação com os filhos é característica de um bom pai.

33.14 Eu seguirei. . . no passo do gado. . . e no passo dos meninos. Esaú poderia marchar rapidamente com seus homens armados. Mas Jacó seguiria lentamente com seus meninos e seus animais novos. E Jacó se encontraria com Esaú em Seir. Mas o encontro em Seir nunca aconteceu. “Poste­riormente, ocorreram circunstâncias que tornaram impraticável ou mesmo impró­prio o encontro. E descobrimos que posteriormente Esaú mudou-se para Canaã, e que ele e Jacó habitaram ali, juntos, por vários anos. Ver Gn 36.6-7” (Adam Clarke, in loc.). Depois de ter habitado em Canaã por algum tempo, Esaú regres­sou a Seir, porque ele e Jacó tinham ficado ricos demais para que a região pudesse suportar seus muitos animais.

“…ele se propôs a movimentar-se lentamente, como faria tanto um pai sábio, cuidadoso e terno com a sua família, quanto faria um pastor com o seu rebanho” (John Gill, in loc.).

33.15 Esaú Oferece Ajuda. Ele tinha homens fortes consigo. Queria deixar alguns deles para que ajudassem Jacó pelo caminho. Mas Jacó não via necessidade dessa ajuda, e deu-se por excusado. Jacó conhecia o caminho e não precisava de guias. As coisas estavam sob controle. Ele tinha encontrado graça diante de seu irmão. Feridas tinham sido curadas. Tinha havido uma completa reconcilia­ção. Para ele, isso era suficiente, por isso declinou do oferecimento de ajuda por parte de Esaú. A benevolência de Esaú tinha sido suficiente para aquele encon­tro.

33.16 Assim voltou Esaú… a Seir, esperando ver Jacó ali. Mas isso não suce­deu. Todavia, passaram juntos alguns anos em Canaã, sempre em um bom relacionamento (Gn 36.6-7). É bom quando antigas ofensas são reparadas e restituição é feita. Quantas disputas em família nunca são solucionadas, e os respectivos membros morrem com ódio no coração!

“Assim sendo, houve milagres na vida de Jacó e de Esaú. Em Jacó, Deus injetou o espírito de humildade e de generosidade. E Esaú foi transformado de um homem que buscava vingar-se para um homem que desejava reconciliar-se. Es­sas mudanças serviram de prova de que Deus havia dado a Jacó uma resposta à sua oração (32.11)” (Allen P. Ross, in loc.).

Jacó em Siquém (33.17-20)

Sucote (vs. 17) ainda não foi descoberta pela arqueologia, e o local é desconhecido, mas Juízes 9.28 indica que os filhos de Hamor formavam um dos clãs mais importantes de Siquém. Um terreno foi ali comprado e finalmente tornou-se o local do sepultamento de José (Js 24.32). Um santuário a Yahweh (para promover o Yahwismo) foi construído ali (vs. 20), razão pela qual evidentemente tornou-se outro centro da crescente nova fé. Jacó deve ter ficado ali por algum tempo, visto que lemos que ele se deu ao trabalho de construir ali uma casa, com acomoda­ções para os seus animais (vs. 17). Finalmente, mudou-se para Hebrom, seu lar.

33.17 Sucote. Outra cidade com esse nome, no Egito, também apare­ce em Êx 12.37. Esse termo significa tendas. Embora nada se saiba com certeza acerca da localização dessa cidade, em Canaã, ela tem sido tentativamente identificada com o Tell Akhsos ou com o Tell Deifalla.

Nesse lugar, Jacó edificou uma casa, além de acomodações para seus ani­mais. E com base nessa circunstância foi que o local recebeu sua designação. Isso indica que Jacó tencionava permanecer ali por algum tempo (não designado). Finalmente, porém, mudou-se para Hebrom, seu lar e seu alvo original. Não se sabe com certeza por que Jacó armou as tendas para seu gado, o que sem dúvida era algo incomum. Talvez quisesse protegê-los, de animais predadores ou do mau tempo.

O Targum de Jerusalém diz que ele ficou ali por um ano; e Jarchi fala em dezoito meses. Mas ambas as informações são meras conjecturas.

33.18 Chegou Jacó são e salvo à cidade de Siquém. Algumas traduções falam aqui em “Salém, uma cidade de Siquém”. Mas a tradução correta é aquela que temos em nossa versão portuguesa. Aquelas traduções seguem a Septuaginta, a versão Siríaca Peshitta e a Vulgata. Se houve mesmo uma cidade chamada “Salém”, então ela perdeu-se totalmente para nós, e nenhuma informação existe.

Siquém. Era uma cidade que Hamor tinha construído, chamando-a pelo nome de seu filho. Trata-se da mesma Sicar de Jo 4.5. Jacó precisou atravessar o Jordão para chegar ao lugar, embora o texto não mencione o fato. O lugar ficava perto de Samaria. A palavra “Siquém” significa ombro. Não se sabe por que Hamor deu tal nome a um de seus filhos. Há informações sobre esse nome e sobre sua família em Gn 34; Js 24.32 e Jz 9.28. A cidade ficava a cerca de trinta e dois quilômetros do rio Jordão, na terra de Canaã.

Jacó, a caminho de casa, foi conservado em segurança. Ele passou por Siquém (talvez tendo ficado ali por alguns anos), durante os quais Diná cresceu e se tornou donzela casadoura (Gn 34). Ele havia descido de Padã-Arã (Gn 25.20), lugar da residência de Labão. Tinha feito uma viagem de cerca de setecentos e cinquenta quilômetros, e agora estava bem perto de casa. Mas antes de chegar, teria de passar pela mui desagradável experiência que envolveu a filha de Lia, Diná, única filha de Jacó mencionada em todo o Antigo Testamento. O relato figura no capítulo trinta e quatro do Gênesis. O incidente maculou tremendamente uma viagem que em tudo mais foi excelente, cheia de segurança e de alegria.

33.19 A parte do campo. . . ele a comprou. A exemplo do que Abraão tinha feito (que comprara o campo de Macpela), um incidente narrado com detalhes no capítulo vinte e três. Foi em Macpela que Sara e outros membros da família patriarcal foram sepultados. E o terreno agora comprado por Jacó tornou-se o lugar de sepultamento de José (Js 24.32). A compra feita por Jacó teve lugar cem anos após a compra feita por Abraão. Abraão tinha comprado seu terreno dos filhos de Hete ou hititas, e Jacó, dos filhos de Hamor.

Por cem peças de dinheiro. Não devemos pensar em moedas, uma inven­ção posterior, mas em um peso. Não há como traduzir o valor para termos moder­nos. O termo hebraico aqui usado é qesitah, talvez, fosse um lingote de prata com valor suficiente para comprar um cordeiro. Os amigos de Jó, quando ele se recuperou, deram-lhe cada qual uma quesita e um anel de ouro (Jó 42.11). Alguns intérpretes judeus supunham que Jacó tenha pago o terreno com cem cordeiros, embora não haja respaldo bíblico para isso. Estêvão (At 7.16) menciona o dinheiro dessa transação. Curiosamente, no livro de Atos, Abraão aparece como quem comprou esse terreno.

Hamor. Ver Gn 34.2.

33.20 Levantou ali um altar. Apesar de suas boas qualidades, não se lê que Esaú tenha edificado algum altar. Abraão era um homem que levantava altares; e Jacó lhe seguia de perto as pisadas. Ver Gn 12.7; 13.4,18; 22.9; 26.25; 33.20; 35.1,3,7. O indivíduo voltado para as coisas materiais, ou mesmo o indivíduo bom que se satisfaz com sua vida comum, negligencia o lado espiritual de sua vida. Jacó, tal como seu avô, Abraão, distinguia-se por seu interesse espiritual e por suas expe­riências místicas. Ele havia erigido um altar em Betel, após sua profunda experiência espiritual naquele lugar. Ver Gn 28.18 ss.

Deus, o Deus de Israel. No hebraico, El-Elohe-Israel. Isso antecedeu ao estabelecimento da confederação das doze tribos de Israel em Siquém, quando El (o nome semítico para Deus) foi substituído por Yahweh, o Deus de Israel (Js 20). Portanto, o Yahwismo estava em pleno desenvolvimento, e formava-se uma fé distintiva dos hebreus, o que é parcialmente indicado pelo uso de vários nomes divinos.

A Permanência de Jacó em Siquém. Uma leitura casual do texto parece indicar que Jacó ficou em Siquém somente por uns poucos meses, mas, visto que Diná cresceu ali até chegar à idade própria de casar-se, devemos pensar antes em termos de alguns anos.

Diná é Seduzida com Graves Consequências (34.1-31)

Diante de nós temos uma história de culpa e de insensatez. A culpa foi de Siquém, filho de Hamor; a insensatez foi de dois dos filhos de Jacó, que preferi­ram o homicídio ao casamento. Esta turbulenta história é uma daquelas estranhas mesclas de bem e de mal. Há muita comoção na violação de uma garota; e também há terror, assassínio e violência. Essa é a vida “crua”, que a Bíblia nunca esconde de nós. Siquém cometeu um grande mal, mas procurou corrigir seu ato mediante o amor e o casamento. Mas a ira de dois dos irmãos de Diná transfor­mou uma tragédia em uma tragédia maior ainda. As teias do pecado apanharam todos eles, causando desgraças para todos os lados. Temos nisso uma triste lição acerca do poder do pecado, o qual tratamos com tanta negligência. Dificilmente pecamos sozinhos. De alguma maneira, outras pessoas são envolvidas em nos­sos pecados ou em seus resultados. Duas tribos sofreram nessa oportunidade, porque um jovem permitiu-se ser arrebatado por suas paixões. A vida humana diária é repleta de paixões que avassalam, e a destruição torna-se descontrolada.

Havia fortes sentimentos contra casamentos com os cananeus, o que é ilus­trado no capítulo vinte e quatro do Gênesis, onde o servo de Abraão viajou por cerca de mil e quinhentos quilômetros (ida e volta), a fim de buscar uma noiva para Isaque. Outro tanto sucedeu a Jacó, o qual foi até Padã-Arã (por ordem de sua mãe, Rebeca), a fim de obter uma noiva dentre a família de Labão (Gn 29). Assim, se os irmãos de Diná continuaram com o espírito de Abraão acerca dessa questão (também ficaram indignados diante da violação de Diná), parece que o problema poderia ter sido solucionado sem a necessidade de apelar para o homicídio. Até Jacó ficou profundamente perturbado diante da “solução” violenta de Simeão e Levi (vs. 30).

A Amarga Colheita. “Jacó estava colhendo o que tinha plantado em seus anos maus (Gl 6.7,8)” (Scofield Reference Bible, in loc.).

34.1 Diná. Ela era a única filha de Jacó (por meio de Lia), de que se tem notícia na Bíblia. Sendo filha única, sem dúvida era muito amada por seu pai, por sua mãe e por seus irmãos. E esse sentimento sem dúvida foi um dos ingredientes na violência que resultou do defloramento da jovem.

Talvez Jacó e sua família já estivessem agora em Siquém por cerca de oito anos, conforme pensam alguns eruditos. Pelo menos Diná havia chegado à idade de casar-se, estando talvez com catorze anos.

Uma Visita Amigável. Diná saíra para visitar amigas. Foi um ato inocente. Os intérpretes imaginam daí mil coisas. Alguns chegam a objetar à visita, pensando que a família de Jacó deveria tê-la guardado melhor. Mas o registro do Gênesis mostra-nos que Abraão mantivera relacionamento amistoso com aqueles vizi­nhos, não havendo indicação alguma de que os patriarcas se separavam de seus vizinhos, exceto no tocante à questão do casamento. Alguns intérpretes (como Josefo) supõem que Diná tenha ido a uma festa dos cananeus, embora o texto faça silêncio a esse respeito. O Targum de Jonathan diz que ela estava curiosa para saber que tipos de vestes e de costumes as mulheres das circunvizinhanças usavam. Aben Ezra ajunta que ela foi sem o consentimento de seus pais, embora tais detalhes sejam meras conjecturas.

34.2 Siquém, filho do heveu Hamor. Não dispomos de informes sobre esse homem, exceto o que podemos depreender do texto sagrado, embora as tradi­ções adicionem detalhes duvidosos. Ele era “filho de Hamor, o heveu que desvirginou Diná, filha de Jacó e Lia, e foi morto por Simeão e Levi” (Gn 34; Js 24.32; Jz 9.28). Siquém viveu por volta de 1730 A. C. Hamor era um príncipe, portanto temos aqui o filho de um príncipe que se aproveitou de uma menina inocente, um ato de violência e sensualidade pelo qual ele precisou pagar muito caro. Seu pai era um chefe, e por isso Siquém pensava que poderia fazer o que bem entendesse, com impunidade.

Hamor. No hebraico, asno. Esse era o nome de um príncipe de Siquém, pai do jovem Siquém (nome que, de acordo com Josefo, significa rei). Siquém desvirginou Diná. Ela era a filha única de Jacó (Gn 34.2). Desse homem, Jacó tinha comprado um campo (Gn 33.19), que posteriormente serviu de lugar do sepultamento de José (Js 24.32). Atos 7.16 diz que a compra foi feita por Abraão. Hamor era um heveu. O povo assim chama­do descendia de Canaã, constituindo uma das várias populações que ocupavam o território de Canaã. Não temos nenhuma outra informação sobre Hamor além do que este texto nos sugere, exceto alguns poucos detalhes tradicionais duvidosos.

Humilhação e aflição era uma descrição judaica comum para a violação sexual de uma mulher.

34.3 Sua alma se apegou a Diná. Não foi alguma paixão trivial. Siquém fez algo que não devia, mas quis corrigir o seu erro. Esse será sempre um sinal autêntico de arrependimento, requerido sempre que possível. Siquém quis reparar seu ato errado mediante casamento. Ele estava apaixonado por Diná. Sua alma se tinha apegado a ela. Tinha errado gravemente, mas agora queria reparar o seu erro. Implorou que seu pai conseguisse Diná como sua esposa. Procurou corrigir seu erro falando ternamente com ela, na esperança de eliminar a desgraça dela e obter o seu amor. Ele tinha usado a força, mas agora tentava obter amor.

34.4 Um Pedido Especial. Siquém não estava apenas tentando melhorar uma situação errada, nem fingia amar a jovem Diná. Seus sentimentos eram tão pro­fundos por Diná como os de Jacó por Raquel. Poderia ser outra grande história de amor, mas o pecado havia estragado tudo de forma irreparável.

“Siquém, como fazem muitos homens em qualquer tempo, havia cometido uma grande maldade, não de forma deliberada, mas através de um im­pulso súbito e da falta de autocontrole, que podem transformar um homem em um desvairado moral” (Walter Russell Bowie, in loc.). Conheci o filho de um pastor que, em uma súbita paixão, violentou uma mulher em um hospi­tal, onde ele trabalhava. Em resultado de seu ato tresloucado, passou vári­os anos em uma prisão, enquanto seus familiares agonizavam por causa da questão.

O versículo vinte e seis deste capítulo indica que houve algum progresso nas negociações, parecendo que ia haver casamento. Diná chegou a ficar na casa de Hamor, não se sabe dizer por quanto tempo.

34.5 Quando soube Jacó. De coração confrangido, ele ouviu a notícia estarrecedora. E então transmitiu a péssima notícia a seus filhos. Naquele mo­mento, Siquém era um homem morto, para todos os efeitos práticos.

Jacó poderia tentar vingar-se ou poderia mostrar-se moderado. Mas ele não era adversário à altura para os heveus. Aos irmãos de Diná caberia o dever de efetuar a vingança. Pacientemente, Jacó suportou sozinho toda a dor, sem acusar Lia por haver permitido que sua filha andasse à vontade pela vizinhança, e sem se deixar arrebatar pela ira.

34.6 Hamor. Ver sobre esse homem em Gn 34.2. Na qualidade de pai de Siquém, ele tomou sobre si o dever de tentar acalmar as coisas, buscando conseguir Diná como esposa para seu filho. E tentou arranjar o casamento com Jacó, pai de Diná, conforme era costumeiro. E Hamor tomou a iniciativa, atenden­do ao pedido de seu filho (vs. 4).

34.7 A Ira dos Filhos de Jacó. O costume dizia que os irmãos de uma jovem violentada deveriam vingar-se por ela; e agora eles ansiavam por cumprir o seu papel. Estavam revoltados e consternados, uma combinação de emoções que facilmente desandaria em violência.

Siquém praticara um desatino em Israel. Uma expressão muito usada no Antigo Testamento para indicar pecados de natureza sexual. Ver Dt 22.21; Jz 19.23,24; 20.6,10; II Sm 13.12,13; Jr 29.23. A expressão é usada em Js 7.15 para aludir à impiedade de Acã, ao ficar com certos objetos, por ocasião da captura de Jericó, contra uma estrita proibição divina.

Em Israel. O pessoal de Jacó, assim chamado, porque estes registros foram compilados quando Israel já era uma nação, e esse vocábulo foi aqui inserido como um anacronismo. Quanto tempo depois que Israel se tornara uma nação, não se sabe dizer. Os eruditos liberais escolhem uma data posterior, de acordo com a teoria das fontes múltiplas do Pentateuco, chamada J.E.D.P.(S.).

O que se não devia fazer. De acordo com qualquer julgamento da razão, da moralidade ou da civilidade, Siquém havia praticado algo grosseiro e cruel.

‘Tolo é aquele que se recusa a reconhecer suas obrigações para com a comunidade à qual pertence. A insensatez, ato de um insensato, por conseguinte, é um ato criminosamente irresponsável, que contribui para a desintegração social e individual” (Cuthbert A. Simpson, in loc.).

34.8 A alma de meu filho… está enamorada. Portanto, que Siquém e Diná se casassem, e todos ficassem em paz. Essa foi a mensagem simples e direta de Hamor. Mas havia obstáculos que ele não antecipara, sobretudo que o mal tinha de ser punido. Ademais, a família de Jacó não se casava com os cananeus, e essa atitude dificilmente se modificaria. Hamor tentou simplificar um problema complexo. Alguns problemas não têm solução fácil.

Peço-vos. Estão aqui em foco Jacó e seus filhos. Na antiguidade, os casa­mentos eram contratados entre os chefes das famílias, o que já vimos em Gn 24.50,51,55,59.

34.9 Aparentai-vos conosco. Hamor pensava que era boa a ideia de casamen­tos entre os filhos de Israel e os cananeus. Ele estava propondo uma mescla de tribos, e não somente um casamento. Este seria apenas um começo. Haveria então uma cooperação de recursos, de natureza social e comercial, e todos se beneficiariam daí. Ele estava simplificando um problema complexo. Em primeiro lugar, deveria haver vingança pelo erro cometido; em segundo lugar, a família de Jacó, desde duas gerações atrás, não se casava com cananeus. Quando Esaú fizera isso, caíra em desfavor. Gn 26.34,35. Abraão fizera um grande esforço para evitar que Isaque se casasse com alguma donzela das tribos locais (Gn 24.3,4), e Jacó e Raquel e Lia tinham seguido esse exemplo (Gn 28.1 ss.). Posteriormente, tentando corrigir seu erro, Esaú casou-se com uma neta de Abraão, uma filha de Ismael.

Essa forma de exclusivismo passou para o povo de Israel, quando este se organizou como nação, ainda que a regra tenha sido violada por muitas vezes. Isso também tornou-se parte da lei de Moisés (Dt 7.3). No cristianismo prosse­gue o princípio, embora não sobre bases raciais. Deve haver compatibilidade espiritual entre os crentes (II Co 6.14 ss.). Antigas distinções raciais e nacionais foram obliteradas no cristianismo (Gl 3.28,29).

Filha Única. Por essa altura, Diná era filha única de Israel (Jacó). E teria sido um mau precedente se essa única filha se tornasse esposa de um cananeu.

34.10 Paz e Comércio. Quando duas tribos habitam um mesmo território mas se hostilizam, os negócios e a prosperidade não somente empacam, como até são destruídos. A paz produz a prosperidade, pois as energias vitais de uma pessoa não são dilapidadas em atos violentos. Hamor sabia do que estava falando. A história das tribos daquela região era continuamente coalhada por sangue e vio­lência. O vs. 23 mostra uma certa duplicidade. Hamor estava querendo vantagens para si mesmo e para sua gente, e não apenas um benefício mútuo para cananeus e israelitas. Ou, então, falou como falou a fim de garantir um acordo, na esperan­ça de que ele redundasse em benefício mútuo, por fim.

Fim do Nomadismo. A família de Abraão seguia um regime de seminomadismo. O oferecimento de Hamor permitiria uma maneira de vida estável, voltada para a agricultura, as artes e as ciências. Eles seriam donos de propriedades, e não apenas criadores de gado, sempre vagueando. O esforço por obter uma propriedade sempre foi um dos principais motivos da vida humana. O fato de que a maioria dos homens nunca é capaz de prover casa própria para seus familiares (ou que precisam trabalhar por trinta anos para conseguirem essa provisão) demonstra a pobreza em que se debate a raça humana. As propostas de Hamor eram aparentemente honrosas, sábias e generosas. Ele estava oferecendo uma boa barganha, que operaria mediante casa­mentos mistos; mas também estava querendo simplificar um problema muito complexo.

34.11 E o próprio Siquém disse. Portanto, o próprio Siquém fez adições ao que seu pai já havia proposto. Seu pai havia prometido muita coisa. Agora o próprio Siquém fez sugestões, aproveitando o ensejo para falar com Jacó e seus filhos. Ele compraria Diná por meio de um vultoso dote, tal como Jacó havia feito, porquanto havia trabalhado por catorze anos a fim de adquirir Lia e Raquel (Gn 29.20,27; 31.15). As atitudes de Siquém demonstraram o quanto ele amava Diná. Ele não estava negando coisa alguma.

34.12 Majorai de muito o dote. No hebraico, dote é mohar. Esse era o preço pago por uma noiva aos seus pais. Outros parentes da noiva também podiam esperar ganhar alguma coisa (Gn 24.53). Além disso, era usual que o noivo desse um ou mais presentes (no hebraico, matthan) à noiva. E, em outras ocasiões, o dote era dado inteiramente à noiva. Esse dote podia ser pago sob a forma de trabalho, o que ficou demonstrado no caso de Jacó.

A questão da sedução de donzelas foi regulamentada sob a legislação mosaica. Ver Êx 22.16,17.

34.13 Responderam com dolo. Concordaram dos lábios para fora, mas em seu coração eles já haviam planejado o assassinato em massa. Esse plano estava baseado na ira e no desgosto, diante do estupro de Diná. A maioria dos homens de pouco precisa para sentir-se inspirada a enganar ao próximo. Basta um pouco de vantagem própria. As palavras “com dolo”, aqui usadas foram traduzidas por com sabedoria, por Onkelos, Jonathan e Jarchi, mas isso é uma distorção do texto sagrado.

34.14 A Circuncisão é Exigida. Esse era o sinal externo do Pacto Abraâmico (ver Gn 17.10)

Isso nos seria ignomínia. Não ter sido circuncidado era não fazer parte do Pacto Abraâmico, e era desobedecer à aliança que Deus fizera com Abraão sobre essa questão. Nisso os filhos de Abraão estavam com a razão. “Mas fazer desse princípio santo uma capa para seus propósitos dolosos e assassinos era o cúmulo da iniquidade” (Adam Clarke, in Ioc.).

34.15 Circuncidando-se todo macho entre vós. Essa foi a condição imposta pelos filhos de Jacó aos homens da tribo de Hamor. Isso não lhes conferiria a fé de Abraão, mas removeria deles o estigma da incircuncisão. Mas talvez, na mente dos filhos de Jacó, isso nada lhes conferiria, pois, desde o começo, a questão inteira era um artifício.

34.16 Seremos um só povo. Os casamentos mistos, depois de algum tempo, criariam um único povo. Todavia, a última coisa que os filhos de Jacó queriam era ser um só povo com os cananeus. Os filhos de Jacó falavam em tom razoável (vs. 18), mas a violência ocultava-se por trás de palavras agradáveis. Somente em Cristo é que todas as nações tomam-se uma só (Gl 3.28,29). O rito da circunci­são não pode fazer isso, nem casamentos mistos. Para que dois sejam um, é mister que haja unidade de alma, e não só de condições externas. Podemos entender, todavia, que os filhos de Jacó queriam dizer que, mediante a circunci­são, os cananeus tornar-se-iam religiosamente orientados, o que os prepararia para aceitar as doutrinas e as práticas de Abraão, mas o próprio texto não aponta para nenhuma revolução dessa natureza. Mas para que entrar em detalhes sobre um plano ardiloso, que visava a enganar?

34.17 E nos retiraremos embora. “Se vocês não concordarem, partiremos daqui”, ameaçaram eles. A ameaça era somente levar Diná dali; mas isso constituía uma grande ameaça, por causa do grande amor de Siquém por ela. O vs. 26 mostra-nos que Diná estava na casa de Siquém. Por que ela não havia retomado, não é explicado. É difícil crer que ela tivesse ficado ali retida à força. Talvez ela tivesse concordado em casar-se com Siquém, dependendo de negociações com seu pai, pelo que estava hospedada na casa de seu futuro sogro, até que as negociações tivessem sido concluídas.

“E retiraremos nossa filha à força.” Esse é o fraseado do Targum de Jonathan, o que talvez indique que Diná estava sendo retida na casa de Hamor contra a sua vontade.

34.18 Tais palavras agradaram. Hamor e Siquém não fizeram exigências descabi­das, mas somente aquilo que contribuía para seu próprio interesse, não impondo condições impossíveis ou mesmo difíceis de cumprir.

E provável que o rito da circuncisão não fosse desconhecido à tribo de Hamor, e que até fosse encarado de modo favorável, embora não praticado por eles. Pelo menos, eles não se ofenderam nem sentiram repugnância. A circuncisão era prati­cada por muitos povos antigos.

34.19 Não tardou o jovem. Siquém não perdeu tempo. Mais tarde haveria necessi­dade de a tribo inteira concordar em receber o rito. Isso seria conseguido median­te um apelo indireto à cobiça deles (vs. 2), o que pode ter sido dito com seriedade ou não. Mas tudo não passava de outro ardil.

Era o mais honrado. Em um momento de desvario, ele havia desvirginado Diná. Mas fora de certos impulsos desastrosos, ele era, normalmente, o mais honrado elemento da tribo de seu pai. Portanto, ele cumpriu prontamente a parte que lhe cabia, começando a corrigir o erro para poder casar-se com Diná, por causa do grande amor que lhe votava.

34.20 À porta da sua cidade. Hamor e Siquém reuniram os anciãos da cidade a fim de discutir sobre a questão, exortando outros a concordar com o trato que tinham acabado de firmar com Jacó. Quanto a consultas e a negócios efetuados na porta de uma cidade, ver Gn 19.1 e 23.10. Ver também II Sm 15.2; Ne 8.1; Sl 69.12.

À porta. “Era ali que se efetuavam os tribunais de julgamento, bem como se resolviam todas as questões públicas acerca do interesse comum dos habitantes da cidade” (John Gill, in Ioc.).

34.21 Estes homens são pacíficos. Até ali, Jacó com seus familiares e os habi­tantes da região tinham sido bons vizinhos. Eram criadores de gado, seminôma­des, e não guerreiros. Coisa alguma tinham jamais furtado, nem provocado con­tenção alguma. Isso os recomendava para que se fizesse com eles um pacto de amizade e casamentos mistos, a fim de que os dois povos, os heveus e Israel (este ainda em formação), pudessem tornar-se um só povo. O território era espa­çoso o bastante para ambos, fazendo contraste com o caso de Abraão e Ló, que precisaram separar-se (Gn 13.8 ss.), e também em contraste com a situação que, ainda recentemente, surgira entre Jacó e Esaú (Gn 36.7 ss.).

A Troca de Filhas. Ver os vs. 9 e 16 deste capítulo, quanto à questão dos casamentos mistos, que inclui a relutância dos membros da família de Abraão em misturar-se por casamento com as tribos cananeias, que viviam à sua volta. Nem os heveus nem a família de Jacó eram numerosas na época, e, conforme parecia a Hamor e a Siquém, seria benéfico para ambos os grupos que eles fortalecessem seus recursos humanos e materiais.

34.22 Consentirão os homens em habitar conosco. Mas o acordo dependia da circuncisão dos homens heveus, sinal do Pacto Abraâmico. Pode-se presumir (embora o próprio texto sagrado nada diga a esse respeito) que os heveus have­riam de seguir a nova fé, que se estava desenvolvendo no Yahwismo. Ver os vss. 14 e 15 quanto a essa condição, que foi proposta de modo ardiloso. O assassina­to em massa estava no coração dos filhos de Jacó, e não as ideias de incorpora­ção e de unificação.

34.23 Seus animais não serão nossos? Os heveus estabeleceriam com os filhos de Israel uma aliança e, sendo mais numerosos que eles, haveriam de absorvê-los, incorporando Jacó e sua família. Desse modo, eles se tornariam heveus, e não israelitas. Assim, a barganha, que começara como estrada de duas mãos, terminaria favorável a eles. Este versículo mostra-nos que os heveus também estavam promovendo uma armadilha, tal como o tinham feito os filhos de Jacó, embora segundo um método pacífico, e não violento. Alguns eruditos, porém, pensam que essa declaração servia apenas de isca, para obter a cooperação de toda a comunidade dos heveus, não envolvendo nenhuma proposta séria de incorporação e dominação. Não há como saber o que eles, realmente, pretendi­am. Mas se este versículo não contém um ardil, então as ideias do vs. 21 são aqui contraditas.

Consintamos. Com a dupla finalidade de manter a paz e de agradar o jovem Siquém, o mais honrado dentre os heveus, ao qual todos os heveus respeitavam (vs. 19).

34.24 Houve Cooperação Geral. Todos os varões foram circuncidados, sem nenhu­ma exceção. O poder dos chefes asiáticos era quase absoluto, e os povos da região estavam acostumados a prestar obediência passiva. Além disso, haviam sido apresentados argumentos convincentes, e todos queriam honrar Siquém. Ninguém entre os heveus haveria de desapontá-lo.

34.25 E mataram os homens todos. Foi uma matança completa. Lemos que so­mente Simeão e Levi estiveram ocupados nessa tarefa sangrenta. Isso indica que os heveus não eram numerosos. Os homicídios foram cometidos quando os súditos de Hamor mais estavam sofrendo. Portanto, o ardil foi seguido por traição. Muitos estudiosos pensam que só Simeão e Levi são mencionados por terem agido como líderes na matança, e não porque somente eles usaram da espada. Essa ideia é razoável, embora o texto sacro não explicite isso. Simeão, Levi e Diná tinham a mesma mãe (Lia); e foram eles dois, naturalmente, que assumiram a liderança no massacre. Rúben, que também era irmão de Diná, opunha-se ao derramamento de sangue (Gn 37.22), e provavelmente por isso mesmo não participou do morticínio. Em uma ocasião posterior, Jacó manifestou-se sobre o que acontecera naquele dia, em termos da mais decisiva desaprovação (Gn 49.5-7).

“Ainda que a provocação tenha sido muito grave (e sem dúvida assim foi), esse foi um ato sem paralelo de traição e de crueldade” (Adam Clarke, in loc.).

Josefo retrata os heveus como quem não só estava sofrendo por causa da recente operação da circuncisão, mas também como quem sofria devido às suas muitas festas e pesada ingestão de vinho. Nesse caso, mostraram-se vítimas fáceis.

“Assim, Siquém havia praticado um desvario, e tornara-se culpado do fato. Merecia ser castigado, e os filhos de Jacó estavam resolvidos a ser os agentes castigadores. Mas o que fizeram foi pior do que a ofensa original, mais cruel, mais odioso e mais arruinador. Seus detalhes feios ficaram registrados no relato bíbli­co, incluindo as palavras de ludibrio calculado, e então a traição, e, finalmente, a matança sem dó” (Walter Russell Bowie, in loc.).

Simeão e Levi mostraram como homens carnais costumam defender o seu alegado direito de maneiras violentas e destrutivas, e também como homens radicais pretendem defender Deus e a verdade usando métodos irracionais e pecaminosos. Esses homens, estribando-se em uma alegada superioridade espi­ritual, golpeiam e queimam outros seres humanos.

34.26

Os Alvos Centrais da Violência. Siquém merecia ser punido. Mas que dizer sobre o pai dele? E mereceria ele esse tipo de punição? O texto bíblico não esclarece por que Diná continuava na casa de Siquém. Também não há nenhum indício de que estivesse sendo forçada a isso. Talvez ela continuasse ali, espe­rando pelo resultado das negociações. Talvez estivesse envergonhada e temero­sa de voltar à casa paterna. Ou, então, fora até ali, após ter sido feito o acordo em torno da circuncisão dos homens heveus.

“Siquém era o principal ofensor, e seu crime fora hediondo. Mas considerando que, em seguida, fez o quanto pôde para corrigir seu erro e para recompensar pela injúria causada, ele merecia outro tratamento; pelo menos, deveria ter-lhe sido de­monstrada misericórdia” (John Gill, in loc.). Hamor talvez se tenha mostrado por demais indulgente com seu filho, mas dificilmente o ato era passível de morte.

34.27 Os filhos de Jacó. Talvez isso aponte para todos os filhos de Jacó que tinham idade suficiente. Nem todos participaram do homicídio, mas todos partici­param do saque.

Saquearam a cidade. A mente criminosa geralmente ofende de três manei­ras: a. ela atenta contra a integridade física de outra pessoa; b. rouba; e c. o que não consegue roubar, destrói insensatamente. Simeão e Levi agiram como crimi­nosos comuns. O saque sempre foi um corolário da guerra. Neste caso, fez parte da vingança. O autor sacro precisou de três versículos (vss. 27-29) para narrar os horrendos detalhes dos atos covardes e criminosos dos dois irmãos. E eles haveriam de tornar-se patriarcas de Israel!

Aos mortos. Somente um deles, Siquém, tinha cometido o crime de estupro, mas todos os heveus, indistintamente, foram considerados culpados pelos filhos de Jacó.

34.28 Levaram Tudo. A pilhagem foi completa. Moisés enumerou as várias coisas que eram tidas como valiosas, ou seja, as riquezas dos antigos, que se compu­nham principalmente de animais, vestes, terras, metais preciosos, vinhas e outras plantações. O que pôde ser levado, os filhos de Jacó levaram. Provavelmente também confiscaram suas terras, plantações e vinhas. O vs. 29 diz, “todos os seus bens”.

34.29

O Terror. Não somente apossaram-se de todos os bens” dos heveus, mas também levaram suas mulheres e suas crianças, e “limparam” as suas casas. O autor sagrado retratou os feios detalhes desse ato condenável em que se envol­veram os patriarcas de Israel!

“Assim como Jacó desaprovou os atos injustos, cruéis, sanguinolentos e pérfidos de seus filhos, assim também, sem dúvida, deixou os cativos em liberda­de, devolvendo-lhes seu gado e seus bens” (John Gill, in loc., que assim expres­sou uma nobre esperança, da qual o texto sagrado nada fala).

34.30 Jacó sob Suspeita. Quem confiaria nele de novo? Quem haveria de que­rer residir perto dele novamente? As pessoas nunca parariam de falar sobre Jacó e seus filhos traiçoeiros. Outros haveriam de querer tirar vingança. Jacó ver-se-ia apertado por todos os lados. Seus filhos haviam reagido exageradamente, para dizer o mínimo. E outros haveriam de reagir com exa­gero e em termos iguais.

“…por causa de sua ira desenfreada, eles [Simeão e Levi] haveriam, mais tarde, de ser deixados para trás, na bênção de Jacó (Gn 49.5-7)” (Allen P. Ross, in loc.).

Declarou Jacó: “Maldito seja o seu furor, pois era forte, e a sua ira, pois era dura”. (Gn 49.7)

Esses filhos de Jacó e seus descendentes, ao que parece, continuaram com seus atos violentos. O incidente que envolveu Siquém não foi um ato isolado. Jacó avaliou corretamente os seus atos, e corretamente falou contra eles, negan­do-lhes a sua bênção maior.

“Aquele ato de violência, que ameaçou as boas relações entre a família de Jacó e os cananeus, reflete eventos que forçaram Simeão e Levi a abandonar a área, e que levaram ao seu declínio em poder (Gn 49.5-7) (Notas da Oxford Annotated Bible, in loc.)”.

34.31

Responderam. Os filhos de Jacó tinham um motivo justo para tirarem vin­gança. Mas não para aquela vingança que tinham efetuado.

Prostituta. Essa é a primeira menção à palavra, na Bíblia. Não há que duvidar de que a prostituição é uma das mais antigas profissões humanas, exce­tuando talvez a agricultura. O termo hebraico zonah indica uma mulher que se prostitui por dinheiro ou por alguma vantagem material. O trecho de Pv 7.10 ss. adverte contra esse mal. Diná era uma donzela inocente, e não deveria ter sido tratada como uma mulher de má vida. Talvez, conforme têm pensado alguns intérpretes judeus, ela tivesse ido a uma festividade pagã, estando deslocada de seu lugar apropriado. Ou, então, conforme têm pensado alguns escritores, Jacó e Lia não deveriam tê-la autorizado a ir. Fosse como fosse, ela não merecia o tratamento que recebeu da parte de Siquém. Ainda assim, a vingança praticada por seus irmãos foi diabólica e não há argumento que a possa justificar.

Bibliografia R. N. Champlin

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