LIÇÃO 6 – A PROSPERIDADE DOS BEM-AVENTURADOS

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INTRODUÇÃO

– Na continuidade do estudo a respeito de distorções sobre a noção bíblica de prosperidade, analisaremos o sermão das bem-aventuranças, o introito do sermão do monte, onde Jesus nos explica qual o significado da felicidade dos Seus discípulos.

O sermão das bem-aventuranças mostra claramente que a prosperidade bíblica nunca se confundiu com bem-estar material.

I – O DISCÍPULO DE JESUS É BEM-AVENTURADO

– Na continuidade do estudo deste segundo bloco do trimestre letivo, em que se procura desfazer diversos ensinos distorcidos sobre a prosperidade bíblica à luz das Escrituras, analisaremos o que o Senhor Jesus entende por bem-aventurança, ou seja, por um estado maior que a felicidade.

– Russell Norman Champlin conceitua as bem-aventuranças como promessas feitas aos discípulos fiéis do reino dos céus” (Bem-aventuranças. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.1, p.488). Segundo o mesmo teólogo, “…As bem-aventuranças mostram como seremos abençoados se fizermos disso a regra de nossas vidas. Os crentes seriam oprimidos pelo mundo…Mas os oprimidos haverão de obter, finalmente, a vitória, embora nunca sem uma clara lealdade ao seu Senhor…” (op.cit., pp.488-9).

– A palavra “bem-aventurado” , usada com suas cognatas cerca de cinquenta vezes em o Novo Testamento, é tradução do grego “makarismós” (??????????), cujo significado é “felicidades”. Para os gregos antigos, ser “makários” (????????), i.e., “bem-aventurado”, era viver livre de sofrimentos e de preocupações, ideia pagã que foi completamente apropriada pela “teologia da prosperidade”.

–  Por isso, os estudiosos entendem que a raiz da palavra grega esteja vinculada à ideia de “grande” e, por isso, usada como sinônimo de “rico”, no seu sentido predominantemente material, sendo, por vezes, aplicada aos deuses, como num contraste com a situação medíocre do ser humano.

Os próprios judeus entendiam que a “bem-aventurança” era, principalmente, um estado de bem-estar material, ainda que como recompensa pela observância fiel da lei. Este significado, entretanto, era, talvez, fruto da influência das ideias da cultura helenística sobre os judeus, visto que, se formos verificar a utilização do termo no Antigo Testamento, a palavra hebraica “ ‘esher” (?????), não tenha esta conotação, mas apenas a de “quão feliz”, o que é, quase sempre, utilizada com um significado senão totalmente, predominantemente espiritual.

– Tanto assim é que o professor judeu David Flusser (1917-2000), um dos grandes pesquisadores do cristianismo primitivo e suas origens judaicas, demonstrou que, entre os essênios (um das seitas judaicas existentes nos dias de Jesus), como mostram os Manuscritos do Mar Morto, a ideia de “bem-aventurança” era muito próxima a que Jesus apresentou no sermão do monte, ideia esta despida de conotações materialistas, mas embebidas de forte conotação social e espiritual.

– Na abertura do sermão do monte, considerado um verdadeiro resumo da doutrina cristã, o Senhor Jesus apresenta as “bem-aventuranças”, ou seja, indica, de pronto, que o objetivo de Deus ao homem é proporcionar a este homem a “felicidade”. Deus quer que o homem seja feliz e a característica dos que resolvem obedecer-Lhe e viver em comunhão com Ele é a “felicidade”. Estas bem-aventuranças também são mencionadas em Lucas, no chamado “sermão da planície” (Lc.6:17-49).

– Esta “felicidade” ou “mais que felicidade”, entretanto, não se apresenta, como entendiam alguns segmentos judaicos, influenciados pelas ideias pagãs, em um estado de bem-estar material. Conforme já tivemos ocasião de estudar neste trimestre, o Senhor Jesus mostrou, claramente, que os ricos não são as pessoas mais propícias à salvação, logo após o encontro com o “mancebo de qualidade”, tendo também mostrado, na parábola do rico insensato, que a vida de qualquer não consiste na abundância do que se possui.

– No início deste Seu sermão, o Senhor Jesus mostra quem é “bem-aventurado”, ou seja, quais são as características daqueles que são os Seus discípulos, que têm recebida a “felicidade” que Deus quer dar aos que Lhe servem com fidelidade e obediência.

As “bem-aventuranças” são nove qualidades, nove características que têm aqueles que servem a Cristo Jesus e não é nenhuma coincidência que o número de características seja o mesmo das qualidades que o apóstolo Paulo elenca como sendo “o fruto do Espírito” (Gl.5:22).

O propósito primeiro de Deus para com o homem é a “frutificação” (Gn.1:28), expressão que não deve ser entendida como “reprodução biológica”, pois, se assim fosse, não haveria a expressão seguinte, “multiplicai”. A “frutificação” mencionada por Deus como primeiro propósito para o homem é a “frutificação espiritual”. Como “imagem e semelhança de Deus”, o homem deveria produzir “o fruto do Espírito”, cujas qualidades foram descritas pelo apóstolo Paulo

– Cada uma das qualidades apresentadas pelo apóstolo como demonstração de que o Espírito Santo habita no servo de Cristo Jesus nada mais é que uma “bem-aventurança” mencionada pelo Senhor no sermão do monte. A comunhão com Deus, por meio de Cristo Jesus, que nos faz com que sejamos habitação do Espírito Santo (Jo.14:17), faz com que sejamos “bem-aventurados”, que apresentemos as características que nos permitem dizer que somos “discípulos de Jesus”, que somos “filhos e herdeiros de Deus” bem como “coerdeiros de Cristo” (Rm.8:17), porque “não mais andamos segundo a carne, mas segundo o espírito” (Rm.8:1 “in fine”).

– Antes de apresentar o Seu ensino para os Seus discípulos, o Senhor Jesus quis identificar quem eram os Seus discípulos, quis mostrar a quem estava se dirigindo, para que não houvesse qualquer dúvida a respeito do que é ser cristão, do que é ser súdito do reino de Deus.

– É importante aqui mostrar que muitos dos estudiosos das Escrituras entendem que o sermão do monte é destinado aos judeus, tratar-se-ia de uma descrição de que como serão os súditos de Israel no reino milenial de Cristo. Tal interpretação, profundamente escatológica, porém, como bem ensina Russell Norman Champlin, não pode impedir que haja a aplicação do texto à Igreja. “…Apesar de Jesus ter proferido essas palavras originalmente a Israel, não há que duvidar que ele queria que se aplicassem plenamente ao Novo Israel, a igreja. O evangelho de Mateus foi escrito quando a era cristã já tinha cinquenta anos e não tem sentido supor que não tencionava ser um documento inteiramente ‘cristão’. Os discípulos de Cristo devem aprender a apegar-se a ele, confiar nele e em suas palavras explicitamente. Não pode haver reservas na dedicação a ele e às suas palavras…” (op.cit., p.488).

Ao fazer esta descrição das “bem-aventuranças”, o Senhor Jesus mostra-nos, com absoluta clareza, o que é ser “feliz”, “mais do que feliz”, o que é ser “abençoado” segundo o ponto-de-vista divino, o que, certamente, mostra quão distante das Escrituras estão os ensinos falsos da “teologia da prosperidade”.

– As nove bem-aventuranças, assim como as nove qualidades do “fruto do Espírito” estão também umbilicalmente relacionadas com os “dois grandes mandamentos da lei”, que se resumiram no “mandamento novo” de Cristo, que são as diretrizes, as regras essenciais para que o homem mantenha comunhão com Deus.

– Como de todos nós é sabido, ao ser indagado por um doutor da lei a respeito de quais seria o grande mandamento da lei, Jesus respondeu que o grande mandamento da lei era “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mt.22:37), acrescentando ainda que havia um segundo mandamento, semelhante àquele, a saber: “Amarás o próximo como a ti mesmo”, sendo que a lei dependeria destes dois mandamentos (Mt.22:38-40).

– Dirigindo-Se aos Seus discípulos, porém, o Senhor Jesus lhes deu um novo mandamento, qual seja: “Que vos amei uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo.15:12), mandamento que sintetiza n’Ele e em Seu exemplo os dois grandes mandamentos da lei mosaica, pois, se amarmos uns aos outros como Jesus nos amou, estaremos amando a Deus de todo o nosso coração, e de toda a nossa alma, e de todo o nosso pensamento, como também o próximo a nós mesmos, pois foi assim que Jesus fez, visto que, pela vontade do Pai, deu a Sua vida pelos homens.

– Neste novo mandamento, que sintetiza os dois grandes mandamentos da lei e, portanto, não é inovação alguma, mas a própria concretização da lei na pessoa de Cristo, o único ser humano que a cumpriu, temos três dimensões que são, precisamente, as três dimensões das bem-aventuranças ou das qualidades do fruto do Espírito, a saber:

a) a dimensão vertical – o relacionamento entre Deus e o homem – a “bem-aventurança” é um novo patamar de um relacionamento entre Deus e o homem sem a separação proporcionada pelo pecado e que nos traz comunhão com o Senhor pelo sangue de Cristo.

b) a dimensão horizontal – o relacionamento entre os homens – a “bem-aventurança” é um novo patamar de um relacionamento entre os homens que, libertos do pecado, podem amar o próximo e querer-lhe bem.

c) a dimensão interna – o relacionamento do homem consigo mesmo – a “bem-aventurança” é um novo patamar do relacionamento do homem consigo mesmo, pois a mortificação da natureza pecaminosa permite que haja uma harmonia e equilíbrio entre corpo, alma e espírito.

– Por isso, as “bem-aventuranças” podem, também, ser divididas em três grupos, conforme expressam os efeitos da salvação em Cristo Jesus seja no relacionamento com Deus, seja no relacionamento com os demais homens, seja no relacionamento consigo mesmo. Vejamos, pois, cada uma destas dimensões e as correspondentes “bem-aventuranças”.

II – AS BEM-AVENTURANÇAS ATINENTES AO RELACIONAMENTO ENTRE DEUS E O HOMEM

A primeira bem-aventurança, e por muitos considerada a primordial, é a “bem-aventurança dos pobres de espírito”. Disse o Senhor Jesus: “bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt.5:3), ou, na versão de Lucas: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lc.6:20 “in fine”)..

– Esta bem-aventurança, ao falar em “pobre de espírito” (ou “humilde de espírito”), fala-nos da absoluta necessidade de se entender dependente de Deus, mera criatura, de se reconhecer fraco e incapaz de ter qualquer sucesso espiritual sem que se renda ao Senhor.

OBS: Esta expressão “pobres de espírito”, segundo David Flusser, encontra um paralelo em um pergaminho essênio encontrado entre os Manuscritos do Mar Morto, que foi chamado de “Pergaminho de Ação de Graças”, onde o autor essênio agradece a Deus por ter permitido ao “de espírito contrito” vir a uma salvação de fonte eterna (Cfr. O judaísmo e as origens do Cristianismo, p.124).

– “Ser pobre de espírito” é assumir a necessidade de Deus, é compreender que, por primeiro, o essencial da vida de alguém é o seu lado espiritual, que é eterno e que não está preso às coisas desta vida.  Ser “pobre de espírito” é reconhecer que se é criatura e que, como tal, há uma dependência total junto ao Criador. Ser “pobre de espírito” é reconhecer que se é “imagem e semelhança de Deus” e, como tal, não pode haver real existência sem que se esteja em comunhão com Deus, assim como a sombra não pode existir se não houver a luz.

– Ser “pobre de espírito” é rejeitar a oferta satânica de independência em relação a Deus que fez com que o primeiro casal caísse em pecado (Gn.3:4,5), mesmo mal sofrido pelo próprio diabo, que quis ser maior do que Deus e, com isso, assinou a sua própria ruína (Is.14:14).

– David Flusser, o professor judeu já mencionado, faz interessante estudo em que relaciona a expressão “pobre de espírito” a duas passagens bíblicas do livro do profeta Isaías, a saber, Is.61:1,2 e Is.66:2, a última das quais fala em “contritos de coração”, precisamente a mesma expressão que, numa passagem muito semelhante ao sermão das bem-aventuranças, é utilizada num pergaminho essênio encontrado entre os Manuscritos do Mar Morto.

– Tem-se, pois, que, ser “pobre de espírito” é ter “o espírito contrito”, o “espírito quebrantado”, ser “contrito de coração”, o que significa que o “pobre de espírito” é aquele que admitiu a sua incapacidade, a sua pecaminosidade e clama pela misericórdia do Senhor, reconhece a sua necessidade de salvação e, deste modo, pede perdão pelos seus pecados.

– Notamos, pois, que a primeira bem-aventurança tem a ver com o reconhecimento da necessidade espiritual, do reconhecimento da eternidade, da necessidade de prévio arrependimento dos pecados e pedido de perdão a Deus, algo que nada tem que ver, pois, com bem-estar material. Antes, pelo contrário, é o reconhecimento de que “as coisas desta vida” são passageiras, que o principal é o reconhecimento de que há uma eternidade e que, por causa do pecado, esta eternidade será vivida sem Deus se as coisas permanecerem do jeito que estão.

– Para ser bem-aventurado, pois, é necessário que a pessoa se reconheça pecadora e incapaz de retirar o seu pecado e, assim, peça a Deus, que não despreza um espírito quebrantado e a um coração contrito (Sl.51:17), o perdão e aceita submeter-se à Sua vontade. Como é diferente esta atitude que o Senhor Jesus considera uma bem-aventurança, uma característica de Seus discípulos da arrogância e petulância ensinada pelos pregadores da confissão positiva…

Esta bem-aventurança é correspondente à qualidade do amor, a primeira das qualidades que compõem o “fruto do Espírito” na descrição feita pelo apóstolo Paulo (Gl.5:22). Este amor, que é o amor de Deus derramado em nós pelo Espírito Santo quando nos entregamos a Cristo (Rm.5:1,5), faz com que passemos a ter uma conduta diferente dos demais homens, um comportamento distinto, pois passamos a guardar a Palavra de Deus, a cumprir e fazer a vontade do Senhor (Jo.14:23,24). Passamos a não ter vontade própria, passamos a agradar a Deus em todas as coisas, a fazer o que Ele quer e, por isso, podemos orar: Venha o Teu reino, seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu (Mt.6:10).

– Ser “pobre de espírito” não é, portanto, nem ser rico nem pobre materialmente falando. Não há qualquer confusão entre “pobreza de espírito” e posse ou não de bens materiais. Trata-se de uma atitude de reconhecimento do pecado e submissão a Deus, nada mais, nada menos que isso. Por isso nem a pobreza material, nem a riqueza material são critérios para verificação se alguém é, ou não, discípulo de Jesus Cristo.

– A versão de Lucas, preferida por aqueles que defendem uma “teologia da pobreza”, não apresenta a expressão “pobres de espírito”, mas, somente, “pobres”, o que faz com que alguns estudiosos entendam que o médico evangelista estaria dando ênfase ao caráter social da mensagem. David Flusser, entretanto, entende que houve apenas uma abreviação, o que, inclusive, parece ter sucedido também em relação à segunda bem-aventurança. Não se pode, porém, a partir dessa abreviação, retirar o sentido espiritual, até porque, quando vemos o paralelo da bem-aventurança com os “ais”, que somente são mencionados por Lucas, observamos que os “ricos” são aqueles que “já têm consolação” (Lc.6:24), ou seja, se está repetindo a mesma noção que o Senhor Jesus empregará ao falar da “riqueza” dos crentes de Laodiceia, ou seja, a sensação de independência em relação a Deus (Ap.3:17).

A segunda bem-aventurança é a “bem-aventurança dos que choram” (Mt.5:4; Lc.6:21). Aqui não está o Senhor Jesus a falar de “choro de alegria”, pois completa a bem-aventurança dizendo que “eles serão consolados”, ou seja, trata-se, efetivamente, de um choro de tristeza, a mostrar que os discípulos de Cristo não estão imunes a situações adversas que os levem ao choro e ao lamento.

– Na verdade, ao indicar esta segunda bem-aventurança, Jesus como que antecipa o que revelaria aos Seus discípulos nas últimas instruções, quando diria a ele que, no mundo, teriam eles aflições (Jo.16:33). Jesus não prometeu saúde, riqueza, alegrias a todos os Seus discípulos, pois muitos não teriam isto, mas, ao fazer uma promessa geral a todos os Seus servos, disse-lhes que teriam aflições, pois não há qualquer discípulo de Cristo que, nesta vida, não passe por aflições.

– Jesus, ao dizer que “os que choram seriam bem-aventurados”, mostrou, de forma cabal, que a vida cristã sobre a face da Terra é uma vida cheia de tristezas e de adversidades, visto que o Seu discípulo estaria na contracorrente do mundo (Ef.2:1-3), lutando contra as hostes espirituais da maldade (Ef.6:12), numa batalha sem trégua até o dia em que, pela morte física ou pelo arrebatamento da Igreja, tivermos chegado ao fim e perseverado, concluindo o nosso processo de salvação (Mt.24:13).

– David Flusser menciona que no já mencionado pergaminho essênio também está dito que “os que pranteiam teriam alegria eterna”, a indicar que, nos dias de Jesus, já havia a ideia de que o sofrimento nesta vida não é para comparar com o que está reservado àquele que resolve obedecer e viver em comunhão com o Senhor, como, aliás, declararia mais tarde o apóstolo Paulo (Rm.8:18).

– Ao dizer que quem chora é bem-aventurado, o Senhor Jesus não está a defender um “sadismo divino” nem tampouco um “masoquismo cristão”, como, infelizmente, alguns incautos têm entendido ao longo da história da Igreja, tendo criado diversos rituais de autoflagelação e de sofrimento tolo e insensato. Deus não quer que ninguém sofra, mas o sofrimento é inevitável para o filho de Deus neste mundo de pecado que está no maligno (I Jo.5:19).

A bem-aventurança não está no choro, mas, sim, no fato de que este choro, este lamento, esta tristeza é consolada por Deus, pois o discípulo de Cristo Jesus tem o Espírito Santo, o Consolador, tem em seu interior, por causa da salvação, o Deus de toda a consolação (II Co.1:3-5).

– A tristeza, as tribulações, as adversidades podem nos abater, mas jamais nos destroem, visto que o Consolador está conosco e, apesar de tudo, somos consolados, não só para prosseguirmos em nossa jornada de fé, mas, também, para consolar os irmãos quando estiverem também passando por problemas. Aleluia!

– A consolação divina, a companhia divina ao nosso lado, pois “Consolador” em grego é “Paráclito”, ou seja, aquele que está ao lado, permite que nós caminhemos ao longo de nossa vida, sem medo de errarmos, pois o Senhor nos orienta, nos conduz e, por isso, podemos chegar até onde Ele chegou em Sua peregrinação terrena, ou seja, até à direita do Pai (Ap.3:21).

– Assim, já na segunda bem-aventurança, o Senhor Jesus mostra que o Evangelho não promete nem poderia jamais prometer que alguém vai “parar de sofrer”, mas promete que, em meio ao sofrimento, o Senhor estará conosco, não nos abandonará, não nos deixará. Como é diferente esta verdade bíblica daquilo que apregoam os falsos mestres da “teologia da prosperidade”…

– De nada adianta, como diz o evangelista Lucas ao relatar o “ai” correspondente a esta bem-aventurança, ter motivos para risos e alegrias passageiras nesta vida se, na eternidade, houver lamentos e choros eternos (Lc.6:25), como vemos no caso do rico da história contada pelo Senhor a respeito do rico e de Lázaro (Lc.16:24,25).

A segunda bem-aventurança está relacionada com a qualidade da alegria ou gozo, uma das nove qualidades indicadas pelo apóstolo Paulo para o “fruto do Espírito”. Todo discípulo de Jesus é alegre, ainda que esteja a padecer, por necessário, algumas provações ao longo de sua jornada terrestre (I Pe.1:6,7).

– Esta alegria, portanto, é algo que vem de dentro para fora, é algo que nasce no espírito do discípulo de Cristo, nada tendo que ver com as circunstâncias externas, tampouco com a saúde física ou com a situação econômico-financeira. Fazer depender a nossa salvação destas circunstâncias externas é negar, completamente, a operação redentora operada por Cristo Jesus na vida de quem é salvo por Ele.

A terceira bem-aventurança atinente ao relacionamento entre Deus e o homem é a “bem-aventurança dos mansos” (Mt.5:5), que não é mencionada por Lucas.  Por primeiro, é interessante notar que as palavras “pobre” e “manso” em hebraico são muito semelhantes (???- pobre e ??? – manso). Por segundo, é importante constatar que a tradição judaica diz que Moisés, o homem mais manso que houve sobre a Terra (Nm.12:3), teria adquirido esta mansidão ao se aproximar de Deus na nuvem da escuridade no monte Sinai (Ex.20:21), o que explica bem o sentido com que Jesus afirmou que era “manso e humilde de coração” e que as pessoas deveriam aprender com Ele esta mansidão (Mt.11:29), mais uma afirmação em que Jesus revelava a Sua deidade.

– A mansidão, considerada aqui como uma humildade de coração, é uma atitude de submissão a Deus, de obediência ao Senhor, de espera em Deus, de renúncia a todos os instintos que nos levam a tomar atitudes baseadas única e exclusivamente na consideração do nosso “eu”, da nossa própria vontade. O “manso” aguarda, aquieta-se, pois sabe que só o Senhor é Deus (Sl.46:10).

– A mansidão está, assim, relacionada com a atitude que o Senhor Jesus denominou de “negar-se a si mesmo”, a primeira providência que tem de tomar aquele que quer seguir ao Senhor (Mc.8:34; Lc.9:23). A abnegação, a negação de si mesmo é um traço característico de quem se diz discípulo do Senhor Jesus.

– Moisés, o homem mais manso que houve sobre a Terra, não mais tomava providências por si só (com exceção do seu grande erro que o impediu de entrar na Terra Prometida), mas apesar de toda a dificuldade, de todas as situações extremamente embaraçosas por que passava, aguardava pacientemente a orientação divina, tendo, por causa disso, sido vitorioso sempre que ouviu a voz do Senhor. Assim, também, deve ser o discípulo de Cristo Jesus, alguém acostumado a ouvir a voz do Senhor, a ponto de conhecê-la muito bem (Jo.10:14,27).

– Como isto é diferente do que ensinam os “teólogos da prosperidade” que, ao revés, estão sempre a ensinar que as pessoas devem dizer o que querem e que Deus é obrigado a atendê-las. Aqui, neste falso ensino, não seria o discípulo que ouviria a voz de Deus, mas Deus que teria de ouvir a voz do discípulo. Onde está a mansidão? Onde está a disposição de aguardar a revelação da vontade do Senhor?

– Os “teólogos da prosperidade” gostam muito da segunda parte da bem-aventurança, ou seja, “a herança da terra”. Por primeiro, mais uma vez trazendo os estudos de David Flusser, tem-se que o significado de “terra” aqui é espiritual. Diz o estudioso: “…Jesus parafraseia as palavras do Sl.37:11 ‘eles herdarão a terra’(…) na maneira corrente do midrash (ou pesher) [comentários dos mestres da lei que explicavam as Escrituras para o povo, observação nossa] com “deles é o reino do céu”; de acordo com essa interpretação, a palavra ‘terra’ tem um sentido espiritual e simboliza a ‘terra’ da escatologia — a saber, o reino do céu…” (op.cit., p.127).

– Por segundo, esta “herança da terra”, ainda que seja interpretada em sentido literal, primeiro exige de nós uma atitude de mansidão, ou seja, de abnegação. A herança da terra, necessariamente uma terra nova onde habite a justiça e não o pecado (II Pe.3:13), somente virá como consequência de uma vida de submissão à vontade de Deus, ou seja, uma vida completamente diferente da defendida pelos “teólogos da confissão positiva”.

– Por terceiro, esta “herança da terra”, por ser de uma nova terra e não a presente, nada tem que ver com os tesouros materiais que os “teólogos da prosperidade” desejam para si, pois são “tesouros” da atual terra, que não é o objeto da promessa divina nem tampouco da bem-aventurança mencionada por Nosso Senhor. Como é diferente este falso evangelho da prosperidade do que encontramos na Bíblia Sagrada…

– Esta bem-aventurança da mansidão está explicitamente mencionada pelo apóstolo Paulo como uma das qualidades do “fruto do Espírito” em Gl.5:22.

III – AS BEM-AVENTURANÇAS ATINENTES AO RELACIONAMENTO ENTRE OS HOMENS

– Vistas as bem-aventuranças atinentes ao relacionamento entre Deus e o homem, vejamos agora as que dizem respeito ao relacionamento entre os homens.

A primeira bem-aventurança que diz respeito ao relacionamento entre os homens é a quinta bem-aventurança do sermão de Cristo, qual seja, a “bem-aventurança dos misericordiosos”. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt.5:7), disse Jesus no sermão do monte, não a tendo mencionado no “sermão da planície”.

– A misericórdia é a ação de fazer bem. Deus é misericordioso, tanto que, apesar de nossos pecados, Ele não nos consome, porque nos quer fazer bem (Lm.3:22). Jesus andou fazendo bem enquanto esteve entre os homens (At.10:38) e, portanto, todos os filhos de Deus devem, também, fazer o bem (II Ts.3:13).

– Somente pode fazer o bem quem tenha alcançado a salvação em Cristo Jesus e, arrependido de seus pecados, passa a ser uma “nova criatura” (II Co.5:17), passando a ser participante da natureza divina (II Pe.1:4), pois só Deus é bom e ninguém mais (Mt.19:17).

– Deixar de fazer o bem é uma característica do ímpio (Sl.36:3), daquele que apostatou da fé (Jr.13:23). Por isso, quando o Senhor repreendeu o povo de Judá pela boca do profeta Isaías, mandou que eles aprendessem a fazer o bem (Is.1:17). Quem sabe fazer o bem e não o faz, diz Tiago, comete pecado (Tg.4:17).

– Por isso, uma das características do discípulo de Cristo Jesus e a razão de ser de sua bem-aventurança é a prática do bem, o exercício da misericórdia, motivo por que uma das qualidades do “fruto do Espírito” é a bondade (Gl.5:22). Não nos esqueçamos, aliás, que um dos pontos que serão levados em conta pelo Senhor Jesus no julgamento, na separação entre “bodes” e “ovelhas” será, precisamente, a prática de boas obras (Mt.25:31-46).

– Não foi por outro motivo que o apóstolo Paulo, trazendo à memória um ensino de Cristo que nem sequer constou dos Evangelhos, disse que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (At.20:35), expressão que disse quando se despedia dos efésios, falando da necessidade que temos de exercer as chamadas “obras de misericórdia”, onde se incluem a visita aos enfermos e aos encarcerados, como também a provisão aos famintos e sedentos, do ponto-de-vista material, como também o consolo, o aconselhamento, o conforto e a instrução, do ponto-de-vista espiritual.

OBS: O Catecismo da Igreja Romana tem uma clássica disposição a respeito das chamadas “obras de misericórdia”, “in verbis”: “As obras de misericórdia são as ações caritativas pelas quais socorremos o próximo em suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar são obras de misericórdia espiritual, como também perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporal consistem sobretudo em dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos.…” (§ 2447 CIC).

– Recentemente, em uma reportagem a respeito do trabalho voluntário, que tem crescido em nosso país, vimos que a grande maioria das pessoas prestadoras deste tipo de serviço afirmou que se sentem bem melhor no exercício da misericórdia do que os próprios beneficiários de seus serviços, a demonstrar que, mesmo entre os que não são salvos, há uma clara demonstração de que fazer o bem faz bem.

– No entanto, quando observamos o discurso dos “pregadores de prosperidade”, notamos a grande ausência da beneficência. Até mesmo o famoso bordão “receba”, tão insistentemente repetido por tais falsos mestres, dá a mostra clara de que o que se ensina é diametralmente oposto ao que está nas Escrituras. A “teologia da prosperidade” incentiva tão somente o egoísmo, a avareza, as pessoas querem enriquecer para ter uma vida regalada, tratando os necessitados como o rico tratou o mendigo Lázaro, ou seja, com o mais absoluto desprezo. Fujamos disto, amados irmãos!

Outra bem-aventurança atinente ao relacionamento entre os homens é a “bem-aventurança dos limpos de coração”. Diz Nosso Senhor que “os limpos de coração verão a Deus” (Mt.5:8). Esta bem-aventurança também não é mencionada no “sermão da planície”.

– Ver a Deus é uma das grandes recompensas que terá o “bem-aventurado”. Como, de modo bíblico, afirma o Catecismo da Igreja Romana, “…A promessa de ver a Deus ultrapassa todas as bem-aventuranças. Na Escritura, ver é possuir. Aquele que vê a Deus obteve todos os bens que podemos imaginar.…” (§ 2548 CIC). Para “ver a Deus”, Jesus nos ensina que temos de ser “limpos de coração”.

– Ser “limpo de coração” ou “puro de coração” é ter um coração sem qualquer mácula, qualquer mancha. É tornar-se inocente, o que somente é possível ante a purificação operada pelo sangue de Cristo Jesus, pelo perdão dos nossos pecados. Quando recebemos o perdão do Senhor, somos lavados no sangue do Cordeiro e, assim, passados a ser puros, a ser limpos de coração.

– Quem é limpo de coração quer bem às demais pessoas. Não age mais com malícia nem engano, não quer o mal do próximo, mas lhe deseja o bem. Logo se percebe, portanto, que o “limpo de coração” é benigno, pois benignidade é querer bem a outrem. Quando somos salvos por Cristo, recebemos o amor de Deus e uma das características do amor divino é a benignidade (I Co.13:4), que não por outro motivo é uma das qualidades do “fruto do Espírito” (Gl.5:22).

– Quem é “puro de coração”, portanto, não tem inveja, pois a inveja é o sentimento nascido do querer mal ao próximo, do desejar mal ao próximo, de ficar incomodado e descontente com o sucesso do outro. Ora, quando observamos os “pregadores da prosperidade”, vemos que um dos seus principais estímulos, um dos principais fatores que fazem mover o povo a crer em suas falsas promessas é a inveja. Através da prosperidade material dos ímpios, encontram eles o móvel para levar os seus incautos ouvintes a crer em suas lorotas.

– A Bíblia seguidamente fala para que não tenhamos inveja da prosperidade material dos ímpios (Sl.37:1; Pv.3:31; 23:17; 24:19; Ec.4:4; Rm.13:13; Tg.3:16) e chama, mesmo, a presença deste sentimento de indício de desvio espiritual (Sl.73:2,3). Por isso, quem estimula a inveja, como afirma Tiago, é um agente do inimigo, pois a inveja é produto de perturbação maligna (Tg.3:14,16). Fujamos disto, amados irmãos!

A terceira bem-aventurança que diz respeito ao relacionamento com o próximo é a “bem-aventurança dos pacificadores”, que Jesus chama de “filhos de Deus” (Mt.5:9). Jesus é o Príncipe da Paz (Is.9:6) e nos prometeu dar a verdadeira paz (Jo.14:27), o que começou a fazer já no domingo da ressurreição (Jo.20:21). Esta bem-aventurança também não é mencionada no “sermão da planície”.

– Paz, entre os israelitas, como já temos visto neste trimestre, dentro do significado da palavra “shalom” (???), é um estado de integridade, ou seja, um estado em que a pessoa se sente completa, se sente amparada, se sente segura, se sente inteira, o que somente é possível quando o homem está em comunhão com o seu Criador.

– Embora o sentido bíblico da paz seja o de integridade, o de completude, as Escrituras nos falam, de três ou quatro aspectos da paz. Como afirma Lewis Sperry Chafer, “…a paz é o oposto da ansiedade no coração ou da discórdia ou inimizade entre indivíduos e nações. Quatro aspectos da paz devem ser considerados: com Deus (Rm.5:1)(…), de Deus (Fp.4:7; Cl.3:15; cf. Hb.13:20) (…) No reino vindouro (Is.9:6,7)(…) Em um só corpo (Ef.2:14-18; Cl.1:20)…” (Teologia sistemática. t.4. v.7, p.197).

– Quando somos salvos por Cristo, recebemos a paz com Deus e, por isso, passamos a ter comunhão com Ele, mas, também, passamos a ter a “paz de Deus”, mediante a qual nós podemos ser “pacificadores”, levando a paz aos que nos cercam. O salvo leva paz aos lugares que frequenta, a começar da igreja local onde congrega, pois ali todos devem viver em paz.

– No entanto, os falsos pregadores da prosperidade estimulam e incentivam a divisão, a competição, pois, na ganância para se ganhar cada vez mais as coisas desta vida e no estímulo à inveja, não há como se proliferar, no meio do povo de Deus, o sentimento faccioso e o individualismo, a completa negação da paz de Cristo.

A paz é apresentada explicitamente pelo apóstolo Paulo como uma das qualidades do fruto do Espírito (Gl.5:22). O verdadeiro e genuíno servo do Senhor Jesus tem paz e lev a paz aonde vai.

IV – AS BEM-AVENTURANÇAS ATINENTES AO RELACIONAMENTO DO HOMEM CONSIGO MESMO

– Por fim, temos as três últimas bem-aventuranças mencionadas pelo Senhor Jesus no sermão do monte e que dizem respeito ao relacionamento do homem consigo mesmo.

A primeira delas, que é a quarta bem-aventurança do sermão do monte, é a “bem-aventurança dos que têm fome e sede de justiça” (Mt.5:6), mencionada em Lucas como “a bem-aventurança dos que têm fome” (Lc.6:21). Aqui o Senhor Jesus mostra que os Seus discípulos são aqueles que sabem suportar as carências, tendo esperança que, um dia, serão elas supridas por Deus, pois o Senhor diz que estes bem-aventurados “serão fartos”.

– Cumpre observar que o Senhor Jesus mostra que os Seus discípulos têm necessidade de “justiça”, ou seja, não estão atrás de coisas desta vida, de coisas materiais, mas, sim, de coisas espirituais. Do que eles sentem falta? De dinheiro? De saúde? Não, não e não! Eles sentem falta de “justiça”. Por isso, a exemplo de Ló em Sodoma, os salvos se afligem dia após dia com as obras injustas dos pecadores (II Pe.2:7,8), pois quem tem o amor de Deus não folga com a injustiça (I Co.13:6).

– O íntimo do salvo em Cristo Jesus, do discípulo de Nosso Senhor clama por justiça, alegra-se com a justiça, deseja a justiça. Não está interessado na posse de bens materiais, mas na realização da justiça.

– David Flusser, já tantas vezes mencionado neste estudo, mostra que a expressão de Cristo nesta bem-aventurança faz alusão a uma antiga oração judaica, onde se diz: “Teu povo e Tua herança, que têm fome de Tua bondade, que têm sede de Tua graça e que almejam a Tua salvação, reconhecerão e saberão que ao Senhor, nosso Deus, pertencem a misericórdia e o perdão” (op.cit., p.142). Como se percebe, a fome é da “bondade de Deus”; a sede, da “graça de Deus”. O que o povo e a herança de Deus mais querem é a realização da bondade e da graça de Deus.

– Ora, num mundo de pecado e sabemos que o pecado é iniquidade, ou seja, injustiça (I Jo.3:4), ter esta carência é, necessariamente, ter de ter fé e esperança de que um dia virão novos céus e nova terra onde habita a justiça (II Pe.3:13) e isto leva o cristão a ser comedido, equilibrado, a ter autocontrole, pois sabe que “não pode fazer justiça com as suas próprias mãos”, embora a anseie grandemente. Daí advém que a bem-aventurança da fome e sede de justiça nos remete à qualidade do “fruto do Espírito” denominada “temperança” (Gl.5:22).

– Os pregadores da confissão positiva, no entanto, assim não agem nem pregam. Não estão interessados na justiça, mas no bem próprio, no seu bem-estar. Pouco importa que haja injustiça, se eles estiverem “por cima”, tudo bem. Eles folgam com o próprio bem, não se importam se a injustiça perdura, o importante é que “sejam cabeça, não cauda”.

– A “teologia da prosperidade” não prega a “temperança”, muito pelo contrário, são insaciáveis, gananciosos, querendo sempre cada vez mais, não sabendo controlar seus instintos, que estão tão fora de controle que acham, inclusive, que “comandam” e “obrigam” Deus a saciá-los. Aliás, a cobiça do homem é insaciável (Ec.6:7). Como isto é diferente do que ensina o Senhor Jesus a respeito de Seus discípulos…

– A propósito, para os que se sentem bem apesar de toda a injustiça na Terra, há, da parte do Senhor Jesus, um “ai”, como fez questão de registrar o evangelista Lucas: “Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome” (Lc.6:25). Uma vez mais, lembramos a situação de carência irremediável que sofreu o rico no Hades (Lc.16:24-26). Que Deus nos livre disto, amados irmãos!

A segunda bem-aventurança atinente ao relacionamento do homem consigo mesmo é a “bem-aventurança dos perseguidos por causa da justiça”, que deles é o reino dos céus (Mt.5:10), não mencionada por Lucas. Flusser entende que esta expressão de Jesus está relacionada com Is.51:1, que fala daqueles que “perseguem a justiça”, que “buscam ao Senhor”. “…A palavra ‘justiça’ em Mt.5:10 é explicada, em geral, como se referindo àqueles que forma perseguidos por sua devoção à religião, por sua obediência aos mandamentos de Deus, ou aos justos que se opõem às causas iníquas.(…). Desse modo, uma das explicações da frase em Mt.5:10 é: Bem-aventurados são aqueles que perseguem a justiça e que, por conseguinte, são perseguidos.…” (op.cit., p.143).

– Mais uma vez percebemos que o salvo em Cristo Jesus tem, em seu interior, uma necessidade de justiça, sabendo que ela se encontra em Deus e, por isso, vai ao encontro d’Ele, quer encontrá-l’O, pois sabe que somente tendo intimidade com Ele poderá colaborar, cooperar para que a injustiça deste mundo diminua, enquanto não vêm os novos céus e a nova terra.

– O “perseguido por causa da justiça” busca a Deus e, por buscar a Deus, acaba sendo perseguido neste mundo. Assim, vemos, com absoluta clareza, que o bem-aventurado é aquele que dá prioridade às coisas espirituais, que busca primeiramente o reino de Deus e a sua justiça (Mt.6:33), que não está atrás da comida, da bebida e do vestido, como fazem os gentios (Mt.6:31,32).

– Mas o que ensinam os falsos pregadores da prosperidade? Ensinam os crentes a serem gentios, a se comportarem como os incrédulos, pois querem que eles corram atrás da comida, da bebida e do vestido, deixando de buscar primeiramente o reino de Deus e a sua justiça. Estão no caminho oposto ao previsto pelo Senhor Jesus. Acordemos, amados irmãos, e deixemos de seguir estes falsos e diabólicos ensinos!

– O “perseguido por causa da justiça” está atrás das bênçãos espirituais, de uma intimidade com Deus e sabe que a perseguição que está a sofrer é resultado desta busca e aguarda, pacientemente, que novos céus e nova terra sejam estabelecidos onde, então, haverá a justiça para todos, justiça de que já desfruta em sua comunhão com Deus. É, pois, completamente refratário a estímulos de “impaciência” que são trazidos pelos “teólogos da prosperidade”, que conclamam o povo a não esperar, a exigir isto ou aquilo de Deus, a “não aceitar a situação”. Como este ensino é totalmente diverso do que nos ensinou o Senhor Jesus.

– O “perseguido por causa da justiça” sabe esperar com paciência no Senhor (Sl.40:1) e não tem ilusão a respeito deste mundo, pois sabe que não haverá justiça plena nesta Terra. O melhor é buscar a justiça em Deus, pois Ele é a nossa justiça (Jr.23:6). Não é por outro motivo que o apóstolo Paulo elenca entre as qualidades do “fruto do Espírito” a longanimidade (Gl.5:22).

A última bem-aventurança, que é também atinente ao relacionamento do homem consigo mesmo, é a “bem-aventurança dos injuriados e perseguidos por causa do nome de Jesus”, que têm um galardão nos céus (Mt.5:11,12), que, na versão de Lucas, é a “bem-aventurança dos aborrecidos, dos que sofrem separação, dos injuriados e rejeitados” (Lc.6:22).

– Muito relacionada com a bem-aventurança anterior, temos aqui, porém, como que uma especificação, visto que aqui não se tem apenas perseguição, mas a injúria, ou seja, a ofensa, o aviltamento por causa do nome de Jesus. Tem-se um degrau a mais de sofrimento por se ter ido buscar o reino de Deus e a sua justiça.

– Pelo que se verifica, o discípulo de Cristo tem perdas neste mundo, exatamente por tê-lo rejeitado, por tê-lo desprezado por algo melhor, que é o próprio Jesus. E, para estes bem-aventurados, é prometido um galardão, uma recompensa, que não é aqui neste mundo, mas, sim, no céu. A recompensa por se manter leal a Jesus, por não esmorecer diante da injúria e da ofensa é no céu e não aqui.

– Tem-se, pois, que um dos requisitos para se ter esta bem-aventurança é a lealdade, a manutenção do compromisso assumido de servir a Cristo Jesus até a morte, motivo por que a qualidade do “fruto do Espírito” correspondente a esta bem-aventurança é a fé, pois aqui a palavra “fé” significa “fidelidade, lealdade”. Não foi por outro motivo que o Senhor Jesus prometeu dar “a coroa da vida” a quem for fiel até a morte (Ap.2:10).

– Os “pregadores da prosperidade”, no entanto, ensinam exatamente o contrário, pois afirmam que uma das demonstrações da salvação seria, precisamente, o reconhecimento dos outros, o estar “por cima” nos conceitos da sociedade, o ter poder econômico, o ter poder político, enfim, o ter poder segundo os padrões mundanos. Como isto é diferente do que ensinou o Senhor Jesus…

– Os “pregadores da prosperidade”, também, insistem que o galardão por servir a Jesus é obtido nesta Terra, mas o Senhor Jesus disse que o galardão está nos céus, não sendo, pois, saúde física, nem tampouco riquezas materiais a demonstrar que alguém é salvo, ou não, na pessoa de Cristo Jesus. Não se pode trocar a fidelidade a Cristo pelas coisas desta vida. Não se deve esperar recompensa neste mundo por servirmos a Cristo. Lembremos disto, amados irmãos!

– Pelo contrário, na versão de Lucas, a esta bem-aventurança está associado um “ai” que se refere precisamente ao reconhecimento da sociedade, ao reconhecimento do mundo. “Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc.6:26). Estar “de bem com o mundo”, gozando da fama e de prestígio segundo os conceitos mundanos é ser um “falso profeta”, é negar a sua própria salvação. Quantos que estão correndo atrás deste “ai” em nossos dias…

Como se pôde perceber, pois, na análise do sermão das bem-aventuranças, nada, absolutamente coisa alguma do que é propalado pela “teologia da prosperidade” está entre as características e qualidades que o Senhor Jesus deu para os Seus discípulos, para os “bem-aventurados”. Por que, então, confiarmos nestas mentiras? Fiquemos com a Palavra de Deus, fiquemos com o Senhor Jesus, que é a verdade (Jo.14:6)!!

Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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