Lição 5: As bênçãos de Israel e o que cabe à Igreja

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As bênçãos e promessas de Deusconstantes da Bíblia não são indistintas a todas as pessoas, devem ser analisadas dentro do seu contexto.

INTRODUÇÃO

– Na sequência do estudo sobre a prosperidade bíblica, passaremos a analisar os principais pontos do ensino bíblico sobre o tema, refutando as distorções feitas pela “teologia da prosperidade”.

– O primeiro ponto a ser analisado é de que as promessas e bênçãos de Deus constantes nas Escrituras não podem ser aplicadas indistintamente a todas as pessoas, mas devem ser examinadas no contexto em que aparecem.

I – DEUS É UM DEUS DE BÊNÇÃOS E DE PROMESSAS

– Após termos visto o que é a prosperidade na Bíblia, tanto no Antigo como em o Novo Testamento, oportunidade em que observamos o forte conteúdo espiritual que o tema apresenta nas Escrituras, passamos ao segundo bloco de nosso estudo deste trimestre, em que analisaremos alguns pontos da doutrina bíblica da prosperidade a fim de refutarmos as distorções constantes da “teologia da prosperidade”.

– O primeiro destes pontos é a realidade de que, embora o nosso Deus seja um Deus de bênçãos e de promessas, tais bênçãos e promessas não são indistintas para todos os homens. Uma das principais artimanhas dos “teólogos da prosperidade” é, precisamente, a de “pinçar” das páginas da Bíblia “bênçãos” e “promessas” e aplicá-las, fora do contexto em que foram feitas, para a Igreja.

– O nosso Deus, que ama o homem e quer que todos os seres humanos se salvem, tem prazer em abençoar o homem. Já no relato da criação, vemos o Senhor abençoando o homem, tendo, sido, aliás, a primeira atitude que a Bíblia registra que Deus fez em relação ao homem (Gn.1:28).

– Não há porque, então, duvidarmos deste caráter abençoador primordial de Deus em relação ao homem, mas isto não pode, em absoluto, fazer-nos crer que todas as bênçãos constantes na Bíblia são dirigidas à Igreja, a este povo de Deus formado por judeus e gentios por força do sacrifício vicário de Cristo Jesus na cruz do Calvário (Ef.2:13,14).

A bênção é definida, pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, como sendo “graça concedida por Deus”, ou seja, é um favor imerecido que Deus dá ao homem por força do Seu amor para com o ser humano. Deus, assim que criou o homem, o abençoou (Gn.1:28), pois queria o seu bem, bem este que é concretizado pela comunhão que o próprio Deus estabeleceu com o homem, feito à Sua imagem e semelhança.

– Além de ser um Deus de bênçãos, o Senhor também é um Deus de promessas. “Promessa”, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é “ato ou efeito de prometer”, “afirmativa de que se dará ou fará alguma coisa”, “compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação”, palavra que vem do latim “promissa”, que, por sua vez, era o plural de uma forma verbal “promissum”, do verbo “promittere” cujo significado é “’lançar, atirar longe; deixar crescer para diante (barba); oferecer; propor, apresentar; prometer, dar a sua palavra, obrigar-se”.

No Antigo Testamento, não há uma palavra específica para “promessa”. Como diz o J.W.L. Hoad, em o Novo Dicionário da Bíblia, conforme a tradução de João Bentes, “…onde nossas versões portuguesas dizem que alguém prometeu alguma coisa, o hebraico simplesmente afirma que alguém disse ou proferiu (‘amar – ???, dabhar- ???) alguma palavra com referência ao futuro…” (Promessa. In: DOUGLAS, J.D. O novo dicionário da Bíblia, t.II, p.1330).

Em o Novo Testamento, a palavra “promessa” é a palavra grega “epangelia” (?????????), cujo significado também tem a ver com “anúncio”, “mensagem”, tanto que a palavra é da mesma raiz que “evangelho”.

– A promessa é o ato de prometer e prometer, pelo que vimos, é uma afirmação que se faz para frente, tanto que, no latim, o verbo “promittere” significa “lançar, atirar longe, deixar crescer para diante a barba”. Trata-se, portanto, de uma afirmação que diz respeito a um fato futuro, a algo que ainda não ocorreu. Como afirma J.W.L. Hoad, “…promessa é uma palavra que se prolonga por um tempo indeterminado. Estende-se para além daquele que a faz e daquele que a recebe, assinalando um encontro entre os dois no futuro…” (HOAD, J.W.L., op.cit., p.1330).

A promessa é a afirmação de que se fará ou se dará alguma coisa, é um anúncio, uma palavra que diz respeito ao futuro. A nós, seres humanos limitados no tempo, temos que a promessa exige uma espera, pois a sua afirmação não coincide com o acontecimento. A promessa implica, sempre, numa espera, pois há um lapso temporal entre o seu pronunciamento e o acontecimento que ela prevê. Há um intervalo temporal entre o seu anúncio e a sua realização.

– Não é por outro motivo que a primeira vez que a palavra “promessa” surge na Versão Almeida Revista e Corrigida seja numa “cobrança” do salmista Asafe, como vemos no Sl.77:8: “Cessou para sempre a sua benignidade? Acabou-se já a promessa que veio de geração em geração?” O salmista, angustiado e espiritualmente enfermo (cfr. Sl.77:10), cansa-se da espera e “cobra” a promessa divina.

OBS: Segundo David J. Stewart, webmaster do site www.jesus-is-savior.com, há 1.260 promessas em toda a Bíblia Sagrada (God keeps His promises. Disponível em: http://www.jesus-is-savior.com/Basics/gods_promises.htm Acesso em 16 ago. 2007) (tradução nossa do título: Deus vela pelas Suas promessas). Já o pastor e teólogo batista norte-americano Dr. Sam Storms (1951- ) afirma que o número de promessas de Deus na Bíblia é de 7.487, o que corresponde a 85% das promessas registradas no texto sagrado (há, ainda, 991 promessas feitas de uma pessoa para outra, 290 promessas humanas para Deus, 29 promessas feitas por anjos,  9 promessas do diabo, 2 promessas feitas por demônios e 2 promessas feitas por Deus Pai a Deus Filho) (cfr. THE SERMON NOTEBOOK. Acts 27:14-49: four strong anchors for life’s stormy seas. Disponível em: http://www.sermonnotebook.org/new%20testament/Acts%2027_14-29.htm Acesso em 16 ago. 2007) (tradução nossa do título – CADERNO DE SERMÕES. Atos 27:14-49: quatro âncoras fortes para os mares tempestuosos da vida).

Na Versão Almeida Revista e Corrigida, ainda, o verbo “prometer” aparece, pela vez primeira, em Js.22:4, numa fala de Josué, quando o patriarca se dirigiu às duas tribos e meia que haviam pedido para ficar com terras do lado de cá do Jordão, ocasião em que Josué, ao despedi-los, disse-lhes que o Senhor “…como lhes tinha prometido…”, havia dado repouso às outras dez tribos e meia. No texto original, o verbo utilizado é “dabhar”, que, como já se disse, corresponde a “falar algo que somente se realizará no futuro”. No texto em análise, Josué confirma que o que Deus havia dito antes do início das conquistas, havia se realizado, havia se cumprido.

Promessa é o compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação. A promessa é, portanto, uma declaração que, embora diga respeito a fatos que irão ocorrer no futuro, gera, no presente, um compromisso, ou seja, um vínculo, uma obrigação. A promessa é um ato de vontade, é uma declaração de um querer que, entretanto, quando dirigido a outras pessoas, uma vez aceito, gera uma obrigação da parte de quem prometeu.

– Mesmo os homens, tão falhos e perversos, prescrevem em suas leis que a declaração proferida por alguém gera obrigação, a menos que as circunstâncias do caso não permitam concluir que haja este compromisso, não, porém, estando obrigado aquele que prometeu se não houver aceitação por parte da pessoa a quem se prometeu ou se, antes da aceitação, tiver havido retratação por parte de quem prometeu (artigos 427 e 428 do Código Civil Brasileiro).

– Vemos, portanto, que a promessa, embora seja algo que se fará no futuro, já no presente gera implicações, cria obrigações. Por isso, enquanto servos do Senhor, devemos ter muito cuidado com relação às promessas, pois não podemos ser infiéis nos contratos (Rm.1:31,32), visto que temos de ser imitadores do Senhor, que é fiel (Dt.7:9; Is.49:7). O Senhor espera de nós que sejamos cumpridores estritos de tudo quanto temos falado e prometido, pois nosso falar deve ser sim, sim, não, não (Mt.5:37). Por isso, o servo fiel jamais promete aquilo que não pode cumprir.

II – AS PROMESSAS DE DEUS

– Elucidativo que a primeira referência a “promessa” nas Escrituras Sagradas esteja relacionada a Deus. Nenhum outro ser poderia ser o primeiro a fazer promessas a não ser o próprio Criador dos céus e da terra, cuja palavra tudo criou (Gn.1:1; Ap.4:11) e tem sustentado todas as coisas (Hb.1:3).

– Com efeito, sendo Deus o primeiro a fazer pronunciamentos, o primeiro a fazer declarações, pois antes d’Ele nenhum outro ser havia, não surpreende que a primeira referência a “promessa” seja, precisamente, em relação a Deus.

– Também diferente não é com respeito ao verbo “prometer”, pois, como vimos, a sua primeira incidência se dá em Josué, quando o patriarca, ao despedir as duas tribos e meia (Ruben, Gade e meia tribo de Manassés), fala do cumprimento de uma promessa da parte de Deus para o Seu povo, qual seja, o repouso deles na Terra Prometida.

– Se formos adotar o critério cronológico das Escrituras e não o da ordem do cânon, nem assim teremos conclusão diferente. Se o livro de Jó é, como dizem os estudiosos das Escrituras, o mais antigo livro da Bíblia Sagrada, também ali a primeira referência a “prometer” se dá com relação a Deus. Em Jó 17:3, quando o patriarca, angustiado, clama a Deus para que lhe desse um árbitro com o qual poderia contender com Deus, há um pedido da parte daquele homem: “Promete agora, e dá-me um fiador para conTigo; quem há que me dê a mão?” Nesta expressão do patriarca, vemos que a garantia dele estava em uma promessa da parte de Deus. Já sabia que o seu Deus era um Deus de promessas.

– Advém daí, então, mais uma demonstração de quepromessa é algo peculiar a Deus, algo que Lhe é próprio. Isto porque é de Deus a primeira promessa surgida no mundo. Ao criar o homem, Deus prometeu ao homem que este frutificaria, multiplicar-se-ia e encheria a terra, sujeitando-a e dominando os demais seres criados sobre a face da Terra (Gn.1:28), promessa que teve seu cumprimento já no fato de Adão ter dado nome aos seres (Gn.2:19,20), numa clara indicação de que era ele dominador sobre ele.

– Deus, também, havia dito ao homem, ao pô-lo no jardim, que, se ele comesse da árvore da ciência do bem e do mal, certamente morreria (Gn.2:16,17), promessa que encontrou seu literal cumprimento quando o homem pecou, não dando crédito às palavras do Senhor. Nesta oportunidade, porém, Deus, mostrando o Seu amor para com o homem, trouxe a grande promessa, qual seja, a de que o homem teria oportunidade de se salvar, mediante a vinda de um Redentor (Gn.3:15).

– Percebemos, portanto, que, desde os primórdios da existência humana sobre a face da Terra, foi o homem alvo de promessas da parte de Deus, pois sendo Deus um ser que fala, que faz pronunciamentos, é próprio de Sua natureza fazer promessas, até porque, se promessa é a afirmação de um fato futuro, temos que, para Deus, não há futuro, mas, sim, um eterno presente e, portanto, quando faz uma declaração, para nós ela é futura, mas para o Senhor é mera constatação, é uma mera observação da realidade que, para Ele, é sempre presente.

– Destarte, quando falamos em promessa de Deus estamos a falar sobre Seus pronunciamentos, Suas declarações que, para nós, dizem respeito a fatos futuros, mas que, para Ele, são a plena constatação do que há, do que existe, pois, para Deus, não há o tempo. Por isso, não há como pensarmos em que a promessa de Deus não se realizará, pois ela já é, aos olhos do Senhor, um acontecimento. O intervalo entre a promessa e a sua realização é uma realidade que só existe para nós, seres humanos, não para Deus, pois para o Senhor querer e efetuar são a mesma coisa (Fp.2:13).

– A Bíblia nos diz que Deus é fiel, ou seja, cumpre todas as Suas promessas, os Seus compromissos. Paulo, mesmo, ao dissertar sobre a fidelidade divina, é bem enfático ao dizer que Ele é fiel porque não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm.2:13). O próprio Senhor, em diálogo com o profeta Jeremias, fez questão de dizer que velava sobre a Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12), numa garantia de que Suas promessas são de cumprimento certo e inevitável.

– Assim, se na lei dos homens, temos que, para que uma promessa obrigue, vincule alguém, já no presente, para algo que ocorrerá no futuro, com relação às regras estabelecidas por Deus, temos algo muito mais sublime: quem promete é Deus que, por não poder negar-Se a Si mesmo, é fiel e, desta maneira, cumprirá inevitavelmente tudo o que prometeu e isto em função da Sua própria natureza, do Seu próprio ser.

– Na lei dos homens, como vimos, existem duas possibilidades de a promessa não obrigar: a não aceitação por parte do beneficiário e a retratação do promitente. Na lei divina, esta segunda alternativa é impossível: Deus não é homem para que minta nem filho do homem para que Se arrependa (Nm.23:19), de sorte que não pode Se retratar. Não é por outro motivo, aliás, que o Senhor diz, por intermédio do profeta Isaías, “…a palavra que sair da Minha boca; ela não voltará para Mim vazia; antes, fará o que Me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (Is.45:18).

– A promessa de Deus é de cumprimento certo e inevitável, porque o seu autor é o Deus fiel, o Deus que não muda (Ml.3:6), o Deus em que não se encontra sombra de variação (Tg.1:17). Por isso, Jesus disse que os céus e a terra passarão, mas as Suas palavras não hão de passar (Mt.24:35; Lc.21:33).

– Muitas das coisas que vemos na atualidade nos afligem. A maldade cada vez maior, a apostasia e a sequência de escândalos no meio dito evangélico também se avolumam e está cada vez mais difícil servir a Deus neste mundo tão tenebroso. Entretanto, amados irmãos, tudo isto é cumprimento da Palavra de Deus. A Palavra de Deus tem de se cumprir, pois o que Deus disse, acontecerá inevitavelmente. Pensemos nisto e, das agruras e angústias que nos sobrevêm pelo cumprimento do que está escrito, glorifiquemos a Deus, pois, apesar de tudo, isto é uma clarevidente demonstração de que Deus é fiel e que Suas palavras se cumprem inevitavelmente.

– Se as promessas de Deus se cumprem inevitavelmente, porque o seu autor não pode se retratar, não podemos, porém, deixar de observar que as promessas de Deus que se encontram na Bíblia Sagrada não são dirigidas indistintamente a todas as pessoas e reside aí uma das falácias da “teologia da prosperidade”. Se, de um lado, temos, nas promessas de Deus, o mesmo promitente, que é o Senhor, do outro lado não temos os mesmos beneficiários. A promessa é sempre uma declaração dirigida a alguém e Deus, na Sua excelência, nada faz sem algum propósito.

– Observemos, aliás, o dito do Senhor através do profeta Isaías. Ali, o Senhor não só garante que a Sua Palavra se cumpre integralmente, como também que toda palavra proferida por Deus tem um propósito, uma finalidade, um objetivo: “antes fará o que Me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (destaques nossos).

– Deus, ao fazer uma promessa, ou seja, uma declaração de que fará algo, o que, para nós é um fato futuro mas para Ele é tão presente quanto a Sua afirmação, sempre o faz com algum propósito, algum objetivo e não podemos nos esquecer disto. Muitos, na atualidade, têm procurado servir ao “Deus de promessas”, ao “Deus que não é homem para mentir”, mas tentam se apoderar de promessas que não lhes dizem respeito, que não foram pronunciadas para elas, ou, mesmo, promessas que, embora lhes digam respeito, não estão sendo buscadas para os propósitos delineados pelo Senhor.

Deus, ao fazer promessas, dirige-Se a pessoas certas, bem como estabelece propósitos para que isto ocorra e somente dentro desta perspectiva é que as promessas se cumprirão e de modo inevitável. Muitos, hoje em dia, creem em promessas que não foram, em absoluto, dirigidas a elas, nem tampouco estão de acordo com o propósito de Deus. Tentam tomar aquilo que não é deles e o resultado não poderia ser outro: a decepção, indevida decepção, visto que Deus é fiel e não pode negar-Se a Si mesmo, de sorte que não serão caprichos ou invencionices humanas que mudarão o Seu caráter.

Tudo que se disse com relação às promessas, é válido também para as bênçãos de Deus, já que as promessas nada mais são que bênçãos que se realizarão no futuro, demonstrações da graça de Deus para com os homens, sempre lembrando que esta ideia de futuro existe somente em relação a nós, seres humanos, visto que Deus é atemporal.

III – AS DIFERENTES ESPÉCIES DE BÊNÇÃOS E PROMESSAS

– Ao analisarmos as promessas e as bênçãos de Deus, portanto, devemos verificar que, se de um lado, Deus não pode Se retratar e Suas bênçãos e promessas são sempre sim e por Ele amém (II Co.1:20), de outro, temos de observar para quem se dirigem estas bênçãos e promessas e com que propósito elas foram feitas. Só assim teremos condição de aplicar esta ou aquela bênção ou promessa a nós, pois o compromisso de Deus é com a Sua natureza, com a Sua fidelidade, com a Sua Palavra (Jr.1:12).

Existem bênçãos e promessas que são “gerais”, ou seja, dirigidas a todos os homens. Deus as proferiu para todo o ser humano e, por isso, se aplicam a toda a humanidade. As bênçãos e promessas feitas a Noé após o dilúvio, por exemplo, são desta espécie (Gn.8:22; 9:1-17). Deus prometeu não cessar, enquanto a terra durar, sementeira e sega, frio e calor, verão e inverno, dia e noite. Eis porque, como disse o Senhor Jesus, Deus, até o dia de hoje, continua a dar o sol e a chuva tanto sobre justos quanto sobre injustos (Mt.5:45), o que, à primeira vista, pareceria um contrassenso, mas que é cumprimento de uma promessa geral, de uma promessa feita a todos os homens, indistintamente.

Existem bênçãos e promessas que são “nacionais”, ou seja, dirigidas a uma nação em especial. Neste ponto, aliás, é bom que relembremos que, para Deus, a Terra é composta de três povos diferentes: os gentios, os judeus e a Igreja (I Co.10:32 ARA).

– Os gentios são os homens que pertencem a todas as nações do mundo, nações estas que se originaram da comunidade única dissolvida com o juízo de Babel (Gn.11:1-9), com exceção de Israel, que foi formado por Deus a partir da chamada de Abraão. Os gentios rebelaram-se contra Deus e se mantêm rebelados contra o Senhor. Estão destinados a sofrerem o juízo da Grande Tribulação e a serem governados pelo Anticristo e, por fim, serem encaminhados à eterna perdição por se recusarem a servir a Deus.

– Os israelitas (chamados de judeus o texto mencionado, porque são os que se mantiveram separados das demais nações, pois as dez tribos, que compunham o reino do norte, chamado Israel, se misturaram com outros povos – II Rs.17:6,18) são os homens que pertencem à nação de Israel, descendência de Abraão, Isaque e Jacó. Foi a nação escolhida por Deus para ser aquela que demonstraria a soberania de Deus e o Seu grande amor para todas as demais nações da Terra. Foi a nação escolhida para ser o instrumento da salvação da humanidade, tanto que o Messias veio a este mundo por meio dela. Deus tem um pacto com Israel (Ex.19:3-20:26). Israel está a destinado a ser salvo (Rm.11:26,27), a ter sua transgressão extinta e ser dado um fim aos seus pecados (Dn.9:24), conforme a profecia das setenta semanas de Daniel. Israel rejeitou a Jesus e, por causa disso, foi espalhado entre as nações, mas, desde 1948, ressurgiu como nação, mas ainda está reservado a ele o sofrimento durante a Grande Tribulação e a perseguição que lhe será empreendida pelo Anticristo, que chegará a apoiar, para só então reconhecer a Cristo como Messias e ser completamente restaurado e por Ele governado no Seu reino milenial.

– A Igreja são os homens que pertencem à Igreja, a “nação santa” (I Pe.2:9), formada por gente de toda tribo, língua, povo e nação (Ap.5:9), que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro (Ap.22:14), ou seja, aceitaram a Cristo como seu Senhor e Salvador e perseveraram até a morte ou o arrebatamento da Igreja. A Igreja, formada a partir da morte de Cristo no Calvário, tem por missão a pregação do Evangelho nesta dispensação, estando destinada ao arrebatamento, que ocorrerá antes do início da Grande Tribulação, da ira futura que Deus tem reservado para gentios e israelitas.

– Como se pode perceber, portanto, tendo criado três povos distintos, Deus reservou a eles destinos também distintos, de modo que o propósito existente para cada um destes povos não pode ser o mesmo, até porque Deus é justo. Assim, bênçãos e promessas há que dizem respeito especificamente a uma destas nações, não podendo, pois, ser aplicadas a outros.

– Assim, quando Deus prometeu a Israel que ele seria Seu reino sacerdotal e propriedade peculiar dentre os povos (Ex.19:5,6), estamos diante de uma promessa “nacional”, de uma promessa relacionada com os israelitas e tão somente com eles. É por este motivo que Deus tem sempre tido um cuidado especial para a preservação da nação israelita e para a retomada da Palestina para ela. Nunca na história da humanidade se soube de uma nação que tivesse sido preservada ao longo dos séculos como foi Israel e, mais, que tenha retornado a ocupar um pedaço de terra de que tinham sido expulsos há quase dois mil anos antes. Entretanto, o Estado de Israel é, hoje em dia, uma realidade, única e exclusivamente porque isto faz parte da promessa que Deus fez a Israel.

OBS: O renascimento de Israel como nação estabelecida na Palestina é um dos fatos mais impressionantes da história e uma demonstração cabal da fidelidade divina em Suas promessas. O espanto foi tanto que, inclusive, não deixou de ficar registrado quase 2.700 anos de sua ocorrência, pelo profeta Isaías: “Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes? Poder-se-ia fazer nascer uma terra em um só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos.”(Is.66:8). Podemos, então, duvidar do cumprimento das promessas de Deus feitas a nós?

– Mas, também, há bênçãos e promessas que dizem respeito somente à Igreja. O Senhor prometeu à Igreja, assim que revelou sua existência, a promessa de que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (Mt.16:18). À Igreja, também, prometeu o derramamento do Espírito Santo (Lc.24:49), como, ainda, o arrebatamento antes da hora da tentação que há de vir sobre o mundo (Ap.3:10). Tais bênçãos e promessas não são aplicáveis aos israelitas nem aos gentios, como também à Igreja não se aplicam as promessas relacionadas com a posse da Palestina, por exemplo.

– Mas também temos as “promessas a nações específicas”, ou seja, promessas que Deus fez a determinadas nações, já não mais consideradas as três nações sob o ponto-de-vista divino, mas, sim, as nações consoante a divisão ocorrida após o episódio de Babel. Em virtude de um comportamento por parte de um determinado povo, o Senhor fez promessas dirigidas a determinadas sociedades nacionais.

– Foi, por exemplo, o que ocorreu com relação a Amaleque. Por ter ido pelejar contra Israel em Refidim (Ex.17:8), Deus prometeu destruí-la por completo (Ex.17:14), o que se cumpriu literalmente, pois não há mais memória alguma de Amaleque sobre a face da Terra. Mas, também, vemos a promessa de Deus com relação ao Egito, que se converterá ao Senhor e passará a ser considerado por Ele como Seu povo (Is.19:18-25). Esta promessa, ainda não cumprida, não pode ser estendida a ninguém mais senão aos que descendem dos egípcios da época de Isaías, desta nação, porque a ela é dirigida e tão somente a ela.

Mas há, ainda, as bênçãos e promessas “grupais”, ou seja, dirigidas a grupos que não chegam a constituir uma nação, mas que são agrupamentos de pessoas que estão ligados ou por laços de parentesco (tribos, clãs) ou, ainda, por vínculos de outra natureza (profissionais, gênero etc.). É o que se observa, por exemplo, na promessa feita aos recabitas (Jr.35:18,19), uma tribo que descendia de Recabe, que, por sua vez, era da descendência de Jetro, o sogro de Moisés, que vieram a habitar junto com os israelitas (Nm.10:29; Jz.4:11).

– Por fim, temos as chamadas bênçãos e promessas “individuais”, bênçãos e promessas feitas por Deus a indivíduos, única e exclusivamente a eles, e que, logicamente, não podem ser aplicadas a ninguém mais. Muitas são as bênçãos e promessas deste tipo na Bíblia. É o caso da promessa feita a Abrão, de que ele se faria uma grande nação (Gn.12:2), como também a promessa feita a Moisés de que ele faria sinais e prodígios no Egito para a libertação do povo (Ex.4:1-17) ou, ainda, a promessa feita a Davi de que Sua descendência reinaria para sempre sobre Israel (II Sm.7:16), como a promessa a Ebede-Meleque de que teria sua vida poupada quando da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor (Jr.39:16).

– Estas bênçãos e promessas “individuais” não podem, em absoluto, ser apropriadas por outras pessoas. Eram promessas específicas, que demonstram o poder, a benignidade e a fidelidade de Deus e que para o nosso ensino foram registradas, para aprendamos qual é o caráter do Senhor (Rm.15:4). Entretanto, não podemos transportar estes episódios para as nossas vidas, pois não são bênçãos e promessas “gerais”, nem tampouco bênçãos e promessas feitas para a Igreja.

– Hoje, lamentavelmente, a falta de conhecimento da Palavra de Deus por muitos crentes tem ocasionado a destruição de muitas vidas espirituais. Por não conhecerem a Bíblia, ouvem estes falsos pregadores que transportam muitas promessas individuais para a vida de cada um de seus ouvintes. Fazem aquilo que, muito sabiamente, o consultor doutrinário da CPAD, o pastor Antonio Gilberto, denominou de “…transformação indevida de fatos e eventos bíblicos em doutrina…” (A Palavra de Deus é o padrão do genuíno avivamento. Mensageiro da paz, ano 77, n. 1466, jul. 2007, p.21). O resultado tem sido a decepção, porque o que ocorreu na vida daquelas personagens bíblicas, não ocorreu na vida destes incautos que, sentindo-se ludibriados, afastam-se do Evangelho. Entretanto, quando vemos a realidade bíblica, vemos que tais ocorrências não iriam jamais acontecer, pois Deus vela pela Sua Palavra para a cumprir e, de modo algum, alteraria a Sua fidelidade, extrapolando promessas individuais para terceiros.

– Torna-se indispensável que saibamos as bênçãos e promessas de Deus. Elas existem para a fortificação da nossa fé, o combustível pelo qual poderemos chegar até o final da nossa jornada rumo ao céu. Entretanto, precisamos conhecer corretamente as bênçãos e promessas de Deus, tal qual se encontram na Bíblia Sagrada, a inerrante Palavra de Deus, pois o compromisso do Senhor é com a Sua Palavra e nada mais.

– Mas há, ainda, um outro aspecto relevante a verificarmos nas bênçãos e promessas de Deus. Trata-se da circunstância de que não apenas se deve levar em conta a quem o Senhor dirigiu a promessa, mas, ainda, quais as condições estabelecidas para o cumprimento. Como vimos, na lei dos homens, a promessa somente obriga quando há aceitação do beneficiário, ou seja, promessas há que dependem da aceitação daquele que se beneficia desta promessa. Por isso, temos dois tipos de bênçãos e promessas de Deus: as condicionais e as incondicionais.

– A bênção ou promessa de Deus é incondicional quando o Senhor faz uma declaração cujo cumprimento independe da vontade humana. Tais bênçãos e promessas derivam de um ato de vontade do Senhor que o próprio Deus quis manter acima da própria vontade humana, porquanto os pensamentos de Deus são mais altos que os pensamentos do homem (Is.55:8,9).

– Assim, retornando à promessa de Deus feita a Noé de que não faltaria chuva, semeadura, sega, sol enquanto a terra durasse, estamos diante de uma promessa incondicional, pois o Seu cumprimento não foi deixado pelo Senhor à vontade dos homens. Fossem justos ou injustos, obedientes ou rebeldes, o Senhor, por um ato de Sua soberana vontade, resolveu não deixar de dar chuva, sol, semeadura, sega, verão e inverno aos homens enquanto durar esta terra.

– Promessas há, entretanto, em que o Senhor quis que o cumprimento se desse em virtude da vontade humana. Assim, embora não dependa do homem, quis, por Sua soberana vontade, que a promessa dependesse do homem para que se realizasse. Assim, por exemplo, a promessa da salvação, que depende de o homem aceitar a Cristo Jesus como seu único e suficiente Salvador. “Quem crer e for batizado, será salvo; quem não crer, será condenado” (Mc.16:16). A salvação é uma bênção ou promessa de Deus, geral, porque dirigida a todos os homens, mas depende da vontade humana para se tornar algo real na vida de cada um dos seres humanos. É uma promessa que depende da aceitação do homem, uma promessa condicional.

– Destarte, na análise das promessas de Deus nas Escrituras, além de termos de observar a quem se dirige esta promessa, fundamental também que consideremos se a promessa é condicional ou incondicional.

– Uma boa demonstração destas várias espécies de promessas de Deus vemos no capítulo 55 do livro do profeta Isaías. Já no versículo 3, vemos uma promessa condicional do Senhor, onde se promete a vida da alma desde que ela ouça o Senhor. O concerto perpétuo prometido por Deus ao Seu povo, em que se darão as firmes beneficências de Davi, depende de o povo ouvir o Senhor. Tem-se, portanto, uma promessa condicional.

– Em seguida, em Is.55:4, vemos uma promessa incondicional. Deus diz que deu a Davi como testemunha aos povos, como príncipe e governador dos povos. Esta promessa independe de os povos aceitarem, ou não, a Deus. O fato é que o Senhor, da descendência de Davi, levantará um que governará a todo o mundo, promessa que se cumprirá quando o Senhor Jesus instaurar o Seu reino milenial.

– Em Is.55:5, temos outra promessa incondicional da parte do Senhor, onde Deus afirma que se chamará uma nação que Israel não conhecia, uma nação que correrá para Israel por amor do Senhor e Santo de Israel, por causa da glorificação de Israel pelo Senhor. Quisesse Israel, ou não, esta nação surgiria e, como sabemos, já apareceu, que é a Igreja, este novo povo santo do Senhor, que se levantou por causa de todas as promessas que Deus cumpriu para com Israel, máxime a de ter enviado o Messias, que por Israel foi rejeitado.

– Em Is.55:6,7, temos uma outra promessa condicional. O Senhor convida o povo ao arrependimento, a buscá-l’O, a invocá-l’O, pois haveria compaixão de Deus para aquele que deixasse o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos. O perdão de Deus dependeria, portanto, do arrependimento do pecador. Trata-se de uma promessa condicional. O homem maligno que não deixasse os seus pensamentos nem o ímpio que deixasse o seu caminho não receberiam a compaixão e o perdão do Senhor.

– Ao analisarmos estas promessas, não sob o aspecto da condicionalidade, mas pelo prisma dos seus beneficiários, perceberemos que se tratam de promessas dirigidas a Israel, de “promessas nacionais”, mas que, notadamente no que se refere a seu propósito, extrapolam a dimensão nacional, na medida em que há a promessa de surgimento de um novo povo, que serviria a Deus por causa da fidelidade divina a Israel. Por causa disto, notadamente a promessa constante de Is.55:6,7 não se restringe apenas aos israelitas, mas a todos os homens, é uma “promessa geral”, porquanto diz respeito ao próprio caráter divino de imparcialidade no perdão e compaixão. Tem-se, pois, validamente, um texto que se pode aplicar aos gentios e à própria Igreja.

– Por fim, como as promessas mencionadas em Is.55 dizem respeito ao perdão do homem pelos seus pecados, não devemos nos esquecer de que Deus é “grandioso em perdoar”, tudo fez para perdoar os pecados do homem, é Seu propósito trazer a salvação, salvação esta que, em Is.55, fica bem claro que se dá por intermédio da “benevolência que o Eterno concedeu a David” (Is.55:5 “in fine” na Bíblia Hebraica), ou seja, por meio de Jesus Cristo, o Filho de Davi. Desta maneira, a alegria e a paz mencionados em Is.55:12,13 estão relacionadas com a salvação, não com qualquer enriquecimento de ordem material ou com acontecimentos felizes no cotidiano da vida debaixo do sol.

– Como em todo o estudo da Bíblia, as bênçãos e promessas devem ser analisadas de acordo com o contexto interno e externo, em harmonia com demais textos bíblicos e devem ser confirmadas em duas ou três passagens. Jamais nos deixemos levar por promessas criadas em textos isolados das Escrituras e que não têm qualquer fundamento nem sequer no texto de onde são extraídas.

– Por isso, devemos ter muito cuidado com as chamadas “caixinhas de promessas”, textos bíblicos selecionados e que são retirados aleatoriamente pelos crentes, quando desejosos de “ter uma palavra” da parte de Deus, agindo como aqueles que buscam mensagens de ânimo e de bem-estar seja nos velhos realejos, seja nos “pensamentos” em “biscoitos da sorte”, tão comuns hoje em atividades que procuram reproduzir o misticismo oriental. As promessas de Deus fazem parte da Bíblia Sagrada e devem ser analisadas e cridas enquanto tal, o que nos impede de recorrer a tais subterfúgios, que, embora sirvam de um bom estímulo psicológico, nenhum valor espiritual têm.

– Por fim, devemos lembrar que nosso Deus continua a falar e, portanto, continua a fazer promessas ao Seu povo. Cada um de nós pode ser alvo de uma promessa de Deus. Tal promessa, em sendo individual, somente terá cumprimento para nós, faz parte de nossa intimidade para com Deus. Se foi efetivamente Deus quem o prometeu, ela se cumprirá, podendo, ademais, ser condicional ou incondicional, tudo dependendo da vontade do Senhor. Ao recebermos promessa da parte de Deus, se vier ela por intermédio de sonho, visão, profecia, deve tal promessa ser submetida ao crivo da Palavra de Deus, pois tudo deve ser submetido à Bíblia Sagrada. Se tal promessa estiver de acordo com as Escrituras, devemos, então, se se tratar de promessa condicional, fazer a nossa parte para demonstrar aceitação do prometido pelo Senhor e, no mais, aguardar, porque nosso Deus é fiel e o que prometeu, Ele certamente cumprirá.

– As promessas de Deus são importantíssimas para fortalecer a nossa fé, mas devem ser cridas conforme a revelação que Deus nos deu, sem quaisquer subterfúgios, diminuições ou acréscimos. Deu é a verdade (Dt.32:4; Jr.10:10), a Sua Palavra é a verdade (Jo.17:17) e somente pela verdade alcançaremos a glória eterna. As promessas de Deus não falham, estão aí para que creiamos nelas e as vivenciemos, mas tudo de acordo com a Palavra do Senhor.

IV – AS BÊNÇÃOS DE ABRAÃO, ISRAEL E DA IGREJA

– Já vimos que, para Deus, há três povos na face da Terra: os gentios, os judeus e a Igreja. Vimos, também, que os gentios rejeitaram a Deus e, por isso, o Senhor quis formar um povo Seu para ser Sua “propriedade peculiar dentre os povos”, a saber, Israel, cuja formação se iniciou com Abrão, depois tornado em Abraão.

– Por ser o pai desta nação escolhida para ser a testemunha divina dentre os povos, Abraão é chamado de “patriarca” e os filhos de Israel gostavam de se denominar como “filhos de Abraão” (Mt.3:9; Jo.8:33). Esta filiação, ainda que em termos espirituais, é reafirmada pelo apóstolo Paulo em relação à Igreja (Gl.3:29).

– Por causa desta vinculação entre Abraão e Israel e entre Abraão e a Igreja, os “teólogos da prosperidade”, de forma sutil, buscam trazer as bênçãos e promessas que Deus deu a Abraão para a Igreja, indistintamente, afirmando que como a Igreja é “filha de Abraão”, tudo quanto o Senhor deu e prometeu a Abraão se aplica aos que são salvos em Cristo Jesus.

– Temos aqui, aliás, por parte dos “teólogos da prosperidade”, o mesmo erro que havia entre os judeus e que foi severamente denunciado tanto por João Batista quanto por Jesus, que mostraram aos judeus que o fato de eles serem descendentes biológicos do patriarca não os fazia “filhos de Abraão”. João chamou este pensamento de “presunção”, dizendo que Deus poderia das pedras “suscitar filhos a Abraão”, mandando que eles, primeiramente, produzissem frutos dignos de arrependimento (Mt.4:8,9).

– Já o Senhor Jesus, também respondendo à presunção dos judeus em se considerarem “filhos de Abraão”, mostrou-lhes que somente pode ser “filho de Abraão”, quem praticar as obras de Abraão (Jo.8:39), apesar de reconhecer a descendência biológica, que nada significava em termos espirituais (Jo.8:37).

– Notamos, pois, de pronto, que a “filiação de Abraão” que tanto se busca demonstrar no discurso da “teologia da prosperidade” é uma “filiação espiritual”, um relacionamento que a pessoa tem com Deus do mesmo modo que teve Abraão, relacionamento este firmado na fé e na prática de obras que demonstrem a fidelidade a Deus e à Sua Palavra.

– O apóstolo Paulo, ao apontar esta “filiação abraâmica” para a Igreja, fez questão de ressaltar que se tratava de uma filiação decorrente do fato de “sermos de Cristo” (Gl.3:29), ou seja, “sermos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, por estarmos batizados em Cristo e já revestidos de Cristo” (Gl.3:26,27).

– Deste modo, o que se aplica de Abraão à Igreja é algo estritamente espiritual. Somos “filhos de Abraão”, porque “somos de Cristo” e “Cristo é a posteridade de Abraão” (Gl.3:16). Portanto, o que temos recebemos como crentes é “a promessa pela fé em Jesus Cristo” (Gl.3:22), ou seja, a mesma justificação pela fé que recebeu Abraão (Rm.4).

– Destarte, não se pode dizer que como Abraão era rico, também os crentes serão ricos por serem “filhos de Abraão”, até porque, quando Abraão foi chamado, já era rico, pois saiu de Ur com “toda a sua fazenda” (Gn.12:5), prova de que as bênçãos materiais não faziam parte da promessa dada quando de sua chamada (Gn.12:2), o que ainda mais se confirma quando saiu do Egito muito rico, apesar de sua estada ali ter sido contra a vontade de Deus (Gn.13:1,2).

– As bênçãos recebidas por Abraão e que também, por Cristo, se destinam à Igreja, pois, são as bênçãos espirituais, a saber, a justificação pela fé (Gn.15:6), a capacitação para a realização de boas obras, visto que Deus prometeu que Abraão seria “uma bênção” (Gn.12:2), o que se cumpriu, quando ele foi o instrumento de libertação dos sodomitas e de Ló (Gn.14:14-16); o bom testemunho diante dos gentios (Gn.23:6); o discernimento espiritual, inclusive para saber quando as riquezas provêm, ou não, de Deus (Gn.14:22-24); o gozo por causa da salvação da humanidade em Cristo Jesus (Jo.8:56).

Não se aplicam à Igreja, as bênçãos de Abraão relacionadas com a posse da terra de Canaã, visto que isto se referia à nação escolhida e formada a partir do patriarca (Gn.12:2,7; 13:14-17; 15:18-21).

– De igual forma, as bênçãos e promessas destinadas a Israel não podem ser aplicadas automaticamente à Igreja. Os “teólogos da prosperidade” gostam muito de citar os quatorze primeiros versículos do capítulo 28 do livro de Deuteronômio para os crentes, “esquecidos”, entretanto, que são bênçãos relacionadas com o papel de Israel como “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”.

– Como já vimos em outra lição, as bênçãos mencionadas no referido capítulo dizem respeito à “exaltação de Israel pelo Senhor sobre todas as nações da terra” (Dt.28:1 “in fine”). Trata-se, pois, de bênçãos “nacionais”, que não podem ser transferidas para a Igreja, como, lamentavelmente, vemos sendo pregado pelos “teólogos da prosperidade”.

– A “benção dos celeiros”, por exemplo, tão propalada pelos “teólogos da prosperidade”, tem como local de sua incidência, como vemos claramente em Dt.28:8, “a terra que te der o Senhor teu Deus”, ou seja, trata-se, nitidamente, de uma bênção “nacional”, vinculada à posse da terra de Canaã.

– Se quisermos, pois, fazer uma “aplicação” à Igreja, teremos de, em relação à “bênção dos celeiros”, por exemplo, interpretarmos do ponto-de-vista espiritual, ou seja, de que o Senhor nos promete “celeiros espirituais”, já que a nossa terra de Canaã não é literal, mas, sim, “a Canaã espiritual”, a “Nova Jerusalém” (Ap.21:2), “ a nossa cidade que está nos céus” (Fp.3:20), aplicação mais do que adequada, já que o apóstolo Paulo diz que devemos ser “despenseiros dos mistérios de Deus” (I Co.4:1).

– É evidente que as bênçãos espirituais prometidas a Israel são aplicáveis à Igreja, visto que ambos são “povos santos e sacerdotais” (Ex.19:5,6; I Pe.2:9,10), mas, como sabemos, não é a estas bênçãos que se referem os “teólogos da prosperidade”.

– Notemos, ainda, que, na quase totalidade das vezes, os “teólogos da prosperidade” sempre se referem a passagens do Antigo Testamento, procurando dali extrair elementos para a sua apologia da ganância e do materialismo. Não podemos, porém, nos iludir, devendo sempre lembrar que devemos verificar estas “bênçãos” e “promessas” dentro do contexto em que foram feitas nas Escrituras, pois “nenhuma Escritura é de particular interpretação” (II Pe.1:20) e que nenhuma doutrina bíblica se firma em um texto isolado, pois a verdade é sempre confirmada “por duas ou três testemunhas” (Dt.17:6; 19:15; Mt.18:16; II Co.13:1).

– Não podemos, também, nos esquecer que, em se tratando de bênçãos referentes a Israel, na antiga aliança, no tempo da lei, devemos sempre estar atentos para o fato de que a lei era a “sombra dos bens futuros” (Cl.2:16,17; Hb.10:1) e que, portanto, muito do que é material na antiga aliança era sinal e símbolo de uma realidade espiritual, o que também se aplica às bênçãos e promessas materiais, que devem ser entendidas, em sua relação com a Igreja, do ponto-de-vista espiritual.

– Não estamos, obviamente, a eliminar toda e qualquer bênção material para a Igreja, pois a bênção espiritual tem seus reflexos materiais, mas, como já também estudamos em outra lição, a bênção material está vinculada à suficiência e à beneficência, ou seja, nada tem que ver com a abundância egocêntrica defendida pelos “teólogos da prosperidade”, mas como uma forma de criação de condições para a realização da obra de Deus e para a demonstração do amor ao próximo.

– Estejamos, pois, sempre vigilantes para que as falsas interpretações dos “teólogos da prosperidade” venham a nos iludir e a esperar bênçãos e promessas que Deus jamais fez à Sua Igreja.

Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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