Lição 4 – Barnabé e a liderança sinérgica

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Sinergia

Sinergia ou sinergismo deriva do grego synergía, cooperação sýn, juntamente com érgon, trabalho. É definida como o efeito ativo e retroativo do trabalho ou esforço coordenado de vários subsistemas na realização de uma tarefa complexa ou função.

Quando se tem a associação concomitante de vários dispositivos executores de determinadas funções que contribuem para uma ação coordenada, ou seja o somatório de esforços em prol do mesmo fim, tem-se sinergia. O efeito resultante da ação de vários agentes que atuam de forma coordenada para um objetivo comum pode ter um valor superior ao valor do conjunto desses agentes, se atuassem individualmente sem esse objetivo comum previamente estabelecido. O mesmo que dizer que “o todo supera a soma das partes”.

É a ação combinada de dois ou mais medicamentos que produzem um efeito biológico, cujo resultado pode ser simplesmente a soma dos efeitos de cada composto ou um efeito total superior a essa soma.

Sinergia, de forma geral, pode ser definida como uma combinação de dois elementos de forma que o resultado dessa combinação seja maior do que a soma dos resultados que esses elementos teriam separadamente.

Eclesiastes 4:9-12
Interlúdio: Algumas reflexões, máximas e verdades

Companheirismo

4: 9  Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho.

10  Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante.

11  Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará?

12  Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.

Tendo examinado a pobreza do “solitário”, por maior que seja o seu sucesso exterior, agora vamos refletir sobre algo melhor; e melhor aqui será uma palavra-chave (4:9,13; 5:1,5), o que acontece com muita freqüência na avaliação de valores pelos escritores da Sabedoria.

As idéias são simples e diretas; aplicam-se a muitas formas de companheirismo, inclusive (embora não explicitamente) ao casamento. Com uma brevidade graciosa elas descrevem o proveito, a elasticidade, o conforto[1] e a força que existem em uma verdadeira aliança; e por isso vale a pena aceitar suas exigências. Embora tais exigências não estejam explícitas aqui, dificilmente teríamos de expor os benefícios do companheirismo se este não envolvesse algum custo. Um preço óbvio é a independência da pessoa: uma vez comprometida, ela tem de consultar os interesses e a conveniência da outra, ouvir-lhe as idéias, ajustar-se ao seu modo de andar e estilo de vida, e cumprir com as promessas. Quanto às recompensas, são todas benefícios conjuntos: um parceiro nunca haverá de explorar o outro.

O cordão de três dobras talvez seja um lembrete de que o verdadeiro companheirismo tem mais de uma forma. Embora os números, quando erradamente entendidos, possam ser divisivos e desastrosos (veja o versículo 11), na sua forma certa, além de acrescentarem algo aos benefícios da união, também se multiplicam. Um exemplo óbvio deste enriquecimento, e o predileto dos pregadores, é a força de um casamento, ou de qualquer aliança humana, quando Deus é o fio mestre que faz com eles o cordão triplo. Mas talvez o escritor estivesse pensando mais nesta metáfora em termos puramente humanos, de modo que, se aplicada ao casamento, o terceiro fio seria mais apropriadamente os filhos, com tudo o que eles acrescentam á qualidade e à força do laço original. Mesmo assim provavelmente estejamos sendo mais específicos do que ele pretendia que fôssemos.

Barnabé, Um homem que formou sucessores e não seguidores

Para que todos sejam um, como tu, ó Tai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 1721)

Ao orar ao Pai pela unidade, Jesus fala de algo muito maior do que reuniões, conferências, congressos até mesmo cultos de adoração. Em primeiro lugar, Jesus não está orando pela unidade entre denominações, porque estas ainda não existiam em Sua época. Seu alvo é a igreja como um todo. Ele não fala de uma união artificial, mas espiritual, que vem do coração. Algo que somente o Espírito Santo pode realizar porque vem direto do coração de Deus.

A Bíblia de estudos Pentecostal faz o seguinte comentário sobre a unidade pela qual Jesus orou: Diz que Ele não ora para que todos tornem “um” mas para que todos sejam “um“. Trata-se do subjuntivo presente e significa “continuamente ser um”. Essa união está baseada no relacionamento que todos eles têm com o Pai e o Filho, e na mesma atitude basilar que para com o mundo, a Palavra e a necessidade de alcançar os perdidos.

Em segundo lugar precisamos observar por em Jesus está orando. Ele ora “por aqueles que pela Sua Palavra hão de crer“, o que inclui cada um de nós. A divisão traz contendas e desgraças, mas a unidade traz progresso. O reinado de Salomão é um grande exemplo para cada um de nós. En­quanto era o “Reino Unido” havia paz, prosperi­dade e progresso. Mas, com o pecado, o reino tornou-se “dividido” e logo em seguida: “reino dis­perso“.

Em terceiro lugar, Jesus orou para que todos fossem perfeitos em unidade e que essa unida­de por si só, sem qualquer meio artificial, produ­zisse fé salvífica e desejo ardente naqueles que a observassem. “Para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17.21). No bom sentido da palavra, o evangelho deveria ser como uma virose que se propaga pelo simples contato com as pessoas.

Não podemos esquecer que o grande suces­so da Igreja Apostólica nasceu após a descida do Espírito Santo e não existe outro meio de haver unidade se Ele não for o Senhor da igreja e o Se­nhor na igreja. Ele é a fonte geradora que nos ins­pira, nos movimenta e nos capacita a desenvolver os propósitos eternos de Deus. É digno de nota observar que os discípulos só passaram a cumprir a Grande Comissão quando foram revestidos de poder no dia de pentecostes (Lc 24.49; At 1.8; 2. 1-35).

Após a inauguração da igreja no dia pentecostes, cada discípulo de Jesus e cada membro que estava agregado, conhecia muito bem qual era a sua responsabilidade. Infelizmente, muitos célebres personagens de nossa época têm arreba­nhado um povo para si mesmo. Eles até os cha­mam de “meu público“. Alguns tornaram-se ver­dadeiros artistas de palco, esqueceram, ou talvez nunca realmente conheceram, o porquê de terem sido escolhidos por Deus.

Quando Jesus estava sendo julgado por Pôncio Pilatos fez a seguinte afirmação: “Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo” (Jo 18.37). Ele co­nhecia o propósito de ter vindo ao mundo. Sabia muito bem qual era a sua missão. Não brincava de cristianismo, não usava seu poder para ficar famoso, não estava preocupado com o reconheci­mento humano, não buscava seus interesses, mas priorizava, mesmo com sofrimento, a vontade daquele que o enviou (Lc 22.42; Jo 4.34). Seria maravilhoso, se encarássemos a vida como Jesus o fez. Conheceríamos nossa missão, compreen­deríamos nossas limitações e trabalharíamos em conjunto como Ele trabalhou.

Um engenheiro desenha um projeto, mas precisa de um mestre de obras para executá-lo. O mestre de obras vê o projeto, mas precisa contratar funcionários para que esse projeto se torne realidade. Ninguém constrói sozinho. Todos pre­cisam de alguém. Ninguém é extremamente bom em tudo. Todos precisam uns dos outros e cada um tem uma participação. Isso se chama unida­de. Embora todos sejam diferentes e trabalhem em diferentes funções, todos trabalham para um só propósito. Foi exatamente por isso que Jesus orou em João 17.

VENCENDO O INDIVIDUALISMO

Você sabe o que é Durepox? Parece até que estou fazendo comercial de algum produto, mas não é esta a minha intenção. Essa massa chamada Durepox é usada para unir partes de utensílios que estão quebrados e alguns até usam esse pro­duto para fazer emendas em tubulações de água. Durepox vem em uma caixa com dois pedaços de massa que ligados entre si tornam-se rígidos e capazes de unir peças quebradas.

Uma parte é cinza e a outra é branca, que se­paradas nada representam. Mas juntas se tornam eficazes no que foram constituídas para fazer. O interessante é que, ao serem misturadas, as duas partes, se tornam de uma mesma cor e não se consegue mais separá-las. Esse é o grande misté­rio da unidade, juntar peças diferentes e torná-las poderosas para que possam consertar o que Satanás quebrou no universo.

O individualismo faz com que tudo seja pas­sageiro. Ele causa no ser humano aquela sensação de superioridade, de sentir-se uma personalidade isolada e pensar que “sem ele nada se pode fazer“. Pessoas tomadas por esse sentimento logo des­cobrem dois grandes companheiros: “o fracasso e a solidão”. Elas não conseguem dividir o brilho, sentem-se ameaçadas quando estão ao lado de pessoas do mesmo potencial. Não compreendem que em grupo tudo fica mais fácil e o poder de produção é maior, e mais eficaz. Não conseguem entender que, em grupo, podem aprender e durar mais.

Por que você acha que Pelé fez mil gols? Você acha que ele criou todas as jogadas sozi­nho? Você não é daqueles que esquecem que com ele estavam outros atletas extraordinários, não é? Você já pensou na hipótese de que se os outros jogadores não funcionassem, ele se tornaria tão inócuo quanto eles? Muito bem. Agora você sabe que ele tem muitos méritos, mas não todos os méritos. Sabe também que se os outros não de­sempenhassem bem as suas funções ele jamais seria o artilheiro que o mundo conhece. A isto chamamos conjunto, unidade.

Pergunte aos grandes empresários de suces­so qual é a característica mais desejável em car­gos de liderança, e eles certamente afirmarão que é a capacidade de trabalhar com outras pessoas. Eles dirão que o que separa o sucesso do fracasso é a habilidade nos relacionamentos. Eles sabem que se uma pessoa não é capaz de alcançar su­cesso junto com outras, então nunca o alcançará. Quando Jesus falou de unidade, falou em relacio­namento, em convivência.

É incrível como vemos pessoas que não se suportam, mas que pertencem a um mesmo mi­nistério, um mesmo coral, um mesmo departa­mento… Você já se imaginou chegando à eterni­dade e, ao cruzar o portão de entrada, ter que cumprimentar as pessoas que você menos supor­ta? Ainda bem que isso não acontecerá. Porque se aqui não existe convivência, Deus poupará algu­mas pessoas de tal constrangimento deixando-as por aqui mesmo. “Segui a paz com todos, e a santificação sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

PREPARANDO CAMINHOS

Roberto Goizueta, era presidente e princi­pal executivo da Coca-Cola Company. A missão desse homem era fazer da Coca-Cola a melhor empresa do mundo, missão que ele buscava cum­prir com diligência quando morreu de forma re­pentina e inesperada em 1997. A respeito de sua morte, observou o presidente Jimmy Carter:

Talvez nenhum outro líder empresarial dos tempos modernos tenha exemplificado tão belamente o sonho ame­ricano. Ele acreditava que, nos Estados Unidos, todas as coisas são possíveis. Ele viveu esse sonho. E em virtude de sua extraordinária capacidade de liderança, ajudou milha­res de outras pessoas a realizar também os seus sonhos“.

Quando Goizueta assumiu a Coca-Cola em 1981, a empresa valia quatro bilhões de dólares. Sob sua liderança, esse valor subiu para 150 bi­lhões. Houve um impressionante e assustador aumento de 3.500% durante sua gestão e a Coca-Cola transformou-se na segunda empresa mais valiosa dos Estados Unidos, à frente de monta­doras de automóveis, de companhias petrolíferas, da Microsoft, do Wal-mart e de todas as outras.

A única companhia que a superava era a General Eletric. A gestão de Goizueta fez com que muitos acionistas da Coca-Cola se tornassem milionários. A Universidade Emory, em Atlanta, cuja carteira de investimentos compreende grande quantidade de ações da Coca-Cola, hoje tem renda comparável à de Harvard. A virtude de Goizueta foi além do alto valor das ações da Coca-Cola. Ele era um homem de visão e sempre pensou no futuro da companhia.

É comum algumas empresas enfrentarem o caos quando perdem seus presidentes, ainda mais quando eles morrem de forma repentina como Goizueta. Todavia, quando foi anunciada sua morte, não houve pânico entre os acionistas, pois Goizueta já havia passado seu legado para um homem que, durante sua gestão, havia se pre­parado para esse momento. Goizueta fortaleceu ao máximo possível a empresa. Logo em seguida preparou um sucessor para a presidência, um ho­mem chamado Douglas Invester.

Goizueta vinha lapidando Invester para seguir as suas pegadas desde a indicação desse executivo da Geórgia, em 1994, para o segundo posto da empresa.Invester era um contador, um homem muito prático que iniciou sua careira na Coca-Cola em 1979, como auxiliar de contador. Quatro anos mais tarde, assumiu o cargo de dire­tor financeiro. Ficou famoso pela sua excepcional criatividade financeira, e foi um importante arrimo da capacidade de Goizueta, de revolucionar o estilo de investimento e de administração de dívi­das da empresa.

Vendo que Invester possuía um potencial ainda não explorado, Goizueta o tirou de sua fun­ção e o enviou à Europa para que adquirisse experiência internacional e em operações. Um ano mais tarde, Goizueta o trouxe de volta e o fez presidente da Coca-Cola dos EUA, cargo em que supervisionava os gastos e o marketing da empre­sa. Goizueta continuou a lapidar Invester, e em 1994 já não havia dúvidas de que ele seria seu sucessor no cargo mais alto da Coca-Cola. Ele o fez presidente e diretor de operações da empresa.

O que Roberto Goizueta fez foi bastante incomum. Poucos executivos de empresas hoje desenvolvem líderes fortes e os preparam para assumir as organizações. John S. Wood, consultor da Egon Zehnder Inc., observou que “as empre­sas não têm investido muito pesadamente nos últimos anos em aperfeiçoar as pessoas. Mas quem não consegue aperfeiçoar o seu pessoal tem de procurar bons profis­sionais no mercado”. Então por que Roberto Goi­zuetaera diferente? Ele foi treinado por alguém e passou adiante a mesma coisa que aprendeu.

Ele nasceu em Cuba e estudou em Yale, onde se formou em engenharia química. Quando voltou para Havana em 1954, candidatou-se a um emprego, anunciado em jornal, de químico bilíngue. A empresa contratante era a Coca-Cola. Em 1966, ele já era vice-presidente de pesquisa téc­nica e desenvolvimento na sede da empresa em Atlanta. Foi o homem mais jovem a assumir esse cargo na empresa.

Mas, no início dos anos 70, algo ainda mais importante aconteceu. Robert W Woodruff, o patriarca da Coca-Cola, apadrinhou Goizueta e começou a treiná-lo. Em 1975, ele se tornou vi­ce-presidente executivo da divisão técnica da em­presa e assumiu outras responsabilidades, como a supervisão das questões legais. E em 1980, com as bênçãos de Woodruff, tornou-se presidente e diretor de operações.

Um ano mais tarde já era presidente e prin­cipal executivo. E por que Goizueta foi seleciona­do, moldado e lapidado com tanta confiança para ser o homem forte na Coca-Cola nos anos 90? Porque ele se aperfeiçoou com base no legado que recebeu nos anos 70. Assim como no esporte o técnico precisa de uma equipe de bons jogado­res para vencer, as organizações precisam de uma equipe de bons líderes para alcançar sucesso.

Goizueta disse certa vez: “Liderança é uma das coisas que você não pode delegar. Ou você a exerce, ou abdica dela”. Penso que há uma terceira opção: você pode passá-la ao sucessor. Mas, por que estamos falando de Roberto Goizueta? É simples. Esse homem fez em uma empresa o que nós fomos chamados para fazer no Reino de Deus e não fazemos.

Você se lembra qual foi o estilo de liderança de Jesus? Lembra quais foram suas últimas ins­truções na Grande Comissão? Jesus hoje não está presente em corpo físico, não está assentado em um trono aqui na terra, mas seu legado continua. Antes de subir aos céus, Ele formou onze ho­mens capazes de dar continuidade a tudo o que fazia nesta Terra.

Ao escolher o décimo segundo apóstolo, este não fez outra coisa a não ser humanizá-lo. Ele mesmo disse: “sede meus imitadores, como também eu, de Cristo” (1 Co 11.1). Jesus se foi, mas todos aqueles que ensinou conheciam per­feitamente suas responsabilidades. Isto era auto­mático em suas vidas. Você já se perguntou onde estão os sucessores dos grandes pastores e prega­dores de nossa geração?

Já imaginou que se por um momento eles se forem deste mundo não deixarão nada para sua posteridade a não ser uma pilha de DVDs de congressos, livros escritos e talvez um saldo na conta bancária? Seria esse o ensino de Jesus sobre como fazer discípulos? (Mt 28.18-20). Goizueta tinha visão porque a recebera de alguém. Ele foi observado por alguém que investiu em seu talen­to e esse alguém pensou no bem estar da empre­sa. Você não acha que deveríamos fazer o mesmo já que pensamos no bem estar e no crescimento da igreja?

Procure ler um pouco a respeito da His­tória das Assembleias de Deus no Brasil e você verá que Daniel Berg e seu companheiro Gunnar Vingrer possuíam uma indescritível unidade. En­quanto um trabalhava, o outro estudava. O que trabalhava pagava os estudos do outro. Quando o que trabalhava chegava emcasa seu companhei­ro lhe ensinava tudo o que aprendera na escola. São histórias como estas que nos fazem ficar im­pressionados, tornam-se sensíveis à voz de Deus e nos fazem meditar em que tipo de vida ou quali­dade de evangelho estamos disseminando por aí.

O PODER DA SINERGIA

E partiu Barnabé para Tarso à procura de Saulo; Tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia” (At 11.25).

Sinergia é o efeito resultante da ação de vá­rios agentes que atuam da mesma forma, cujo va­lor é superior ao valor do conjunto desses agentes se atuasse individualmente. Uma ilustração famo­sa acerca da sinergia foi feita com dois cavalos. O primeiro conseguia puxar quatro mil e quinhen­tos quilos em um trenó. O segundo conseguia puxar seis mil e trezentos quilos.

O que você acha que os dois conseguiriam puxar arreados juntos e puxando na mesma dire­ção? A maioria das pessoas talvez estimasse cerca de dez mil e oitocentos quilos, mas a resposta é vinte mil duzentos e cinquenta quilos! Assim, ob­servamos que o princípio ensinado por Moisés em Deuteronômio Dt 32.30 não é mirabolante, mas real. “Como poderia um só perseguir mil, e dois fazerem fugir dez mil, se a sua Rocha lhos não vendera, e o Senhor lhos não entregara?”.

Não encontramos explicitamente o peso sentido por Barnabé em Antioquia. Mas, o fato de ele ter ido pessoalmente buscar a Saulo nos faz presumir que ele reconheceu o peso de uma grande responsabilidade. Está claro que Barnabé foi em busca de Saulo porque desejava unir forças para que o Reino de Deus pudesse avançar, e, de fato, havia muitas vantagens na associação entre ambos. Embora Barnabé reunisse qualidades im­pressionantes, tinha plena certeza de que sozinho não conseguiria alcançar tanto sucesso.

A grandeza do trabalho e as nossas limi­tações pessoais devem nos conduzir a uma condição de humildade. Ninguém é completo sozinho, menos ainda quando se trata de lide­rança. Somos cheios de limitações pessoais e nem sempre nos damos conta disso. Felizes são aqueles que podem conhecer seus próprios li­mites e são capazes de abrir o espaço para que alguém mais capacitado faça aquilo que não so­mos capazes de fazer sozinhos. Visto que nin­guém é completo, devemos assumir a realidade de que precisamos uns dos outros.

Por isso, devemos ser cooperativos se qui­sermos ter a cooperação dos outros na conquista dos objetivos comuns. Isso se chama sinergia. Por exemplo, Barnabé era um homem espontâneo e cooperador dos apóstolos tendo ampla entrada e saída entre eles. Agora era a sua vez de liderar e supervisionar a comunidade cristã de Antioquia. Para isso, ele precisaria de um ou mais elementos capazes, que o ajudassem nesse mister (At 11.25).

Barnabé e Saulo tinham uma perfeita har­monia. Poderíamos até nos perguntar se a ami­zade entre Barnabé e Saulo foi o fator preponde­rante na escolha de Barnabé. Na verdade não foi. Mas, a aliança que formaram em prol da obra e as qualidades que uniram, tornaram Saulo um asso­ciado importante o suficiente para agregar valor ao trabalho de Barnabé, à liderança eclesiástica e à própria igreja em Antioquia.

Quando Barnabé e Saulo retornaram juntos e se puseram a trabalhar, houve uma conciliação perfeita, tanto de afinidade quanto de qualificação e resultados. Barnabé era o líder geral citado em primeiro lugar na listagem de profetas e doutores de Atos 13.1 Paulo aparece como o último da lista. Esse é outro requisito que jamais deve ser despre­zado. Ao fazermos a obra do Senhor ou outra ati­vidade de liderança, precisamos de afinidade com os que trabalham conosco, para que somemos es­forços que produzam resultados concretos, não importando quem seja o primeiro ou o último no sistema hierárquico de nossas organizações.

Mesmo com todo o fogo que havia em An­tioquia, Barnabé visualizava algo mais sólido para a vida dos crentes de lá. Saulo certamente se tornou conhecedor dos fatos e uniu forças com Bar­nabé, para juntos proporcionarem àquela igreja o alicerce necessário para um crescimento maduro e frutífero.

Essa liderança associada deu tão certo, que mesmo havendo outros doutores, o trabalho con­tinuou tomando vulto naquela grande metrópole a ponto de, pela primeira vez, os discípulos serem chamados de cristãos. Note a importância do en­sino, e a sua prática em qualquer tempo pela igre­ja. Eles não se autodenominaram cristãos, mas assim foram chamados pelos de fora da igreja.

Gosto muito da passagem de 2 Reis 4.9 quando a mulher de Suném fala com seu mari­do a respeito de Eliseu. Ela diz: “tenho observado, que este homem que passa sempre por nós é um santo homem de Deus“. Entenda! Ninguém testemunhou a respeito de Eliseu para ela, ele tampouco lhe disse algo. Observe que Eliseu é reconhecido por ela sob dois aspectos diferentes. Primeiro, ela vê que Eliseu é um homem de Deus. Ela conseguiu perceber nele a presença de Deus enquanto ele passava; segundo, ela reconheceu sua qualidade espiritual: “santo“.

Amados, muitas vezes pensamos que ser lí­der ou pastor de uma igreja é juntar muitas pes­soas dentro de quatro paredes, e a isso chamamos de sucesso ministerial. Mas, a grande pergunta que gostaria de fazer é: “quando essas pessoas estão fora das quatro paredes o que representam para a so­ciedade? Que impacto elas produzem fora do aprisco?”. Sabe, dentro da igreja todos são leões, mas fora dela as coisas estão de mal a pior, não somente no Brasil, mas em muitas nações por onde tenho passado.

As vezes observo pessoas trabalhando, es­forçando-se muito nas igrejas, como se fosse um mero ritual de vida, no qual acabam se desgas­tando, se cansando, e vivendo sem alegria. Seria isso o cristianismo? Será que, como líderes, não estamos tolhendo pessoas melhores que nós na missão de fazer a igreja avançar? Será que não precisamos de novas ideias, de mais ajuda, de ca­beças pensantes? Muitas vezes, para afirmar que somos crentes temos que fazer camisetas com dizeres, logomarcas de igrejas, nomes de grupos, uniformes para corais. Tudo isso é valido, mas ser reconhecidos como cristãos sem a necessidade de palavras, rótulos ou camisetas, sem que nada se fale sobre religião, é saber demostrar o quanto há de Cristo em nós.

Você acha que os crentes de Antioquia pos­suíam alguma camiseta com o slogan da igre­ja? Não. Mas como foram identificados? Como cristãos. A palavra significa: “pequenos Cristos ou semelhantes a Cristo”. Desculpe a colocação que vou fazer agora, mas ser semelhante a Cris­to é o estágio final do trabalhar de Deus em nós ao longo de toda uma vida. Mas, de forma sur­preendente, os crentes de Antioquia foram vis­tos como semelhantes a Cristo em apenas dois anos de vida e ensino cristão.

Como será que estão nos vendo quando pas­samos? Será que as pessoas identificam a nossa qualidade espiritual como a mulher de Suném? Amados, não há outra explicação para o que aconteceu em Antioquia senão a qualidade dos líderes que lá haviam. Eles impregnaram aquele povo, não com religiosidade, ou com “não use isso”, “não toque naquilo”, “não faça isso”, “não entre ali”. Eles apresentaram Jesus Cristo, eles fizeram o povo se unir a Ele, eles passaram a visão.

A SINERGIA MULTIPLICA AS VANTAGENS

O esforço associado de duas pessoas sempre gera uma maior produção. Pensamos em termos de soma, mas o que acontece é uma multiplica­ção de forças. Isso parece fantasia, entretanto, é realidade ensinada não só em Eclesiastes, mas em vários outros pontos das Escrituras (Lv 26.8; Dt 32.30; Js 23.10). Quando Barnabé assumiu a su­pervisão da igreja em Antioquia ela cresceu. Mas a unidade de forças entre Saulo e ele produziu tanta qualidade, que ela cresceu ainda mais e se popularizou a ponto dos crentes receberem o tí­tulo de “semelhantes a Cristo”.

A figura de Barnabé não saiu por acaso da pena do sábio escritor Lucas. Ele foi notável ao buscar fazer as coisas para Deus com um cora­ção inteiro e agregar junto a si pessoas capazes de trabalhar por um mesmo propósito. Barnabé não somente levou Antioquia a um padrão elevado ao lado de Saulo. Ele foi também o principal degrau da vida deste grande apóstolo do Senhor. Afinal, quem seria Saulo sem o amigo Barnabé?

Barnabé cooperou sobremodo na formação de Saulo e na liderança local de Antioquia. Quando ambos precisaram deixar Antioquia, segundo a or­dem do Espírito Santo, para outro campo de ação missionária, eles não deixaram apenas saudades, mas uma igreja que pôde continuar crescendo sem a presença deles, e ficou servindo-lhes de ponto de partida e base posterior.

Por que isso aconteceu? Porque eles não fi­caram apenas criando programações com nomes pomposos como nós fazemos, não ficaram enxertando os cultos com campanhas sem funda­mento, eles instruíram o povo, formaram líderes, fortaleceram ministérios, deram oportunidades às pessoas. É um caos quando um líder deixa a sua igreja, equipe ou departamento estes sofrem queda ou deixam de existir, por não terem um sucessor.

Paulo e Barnabé eram dois homens comple­tamente diferentes que se uniram em um mesmo propósito. É engano nosso acreditar que as pessoas que trabalham ao nosso lado devem pensar como pensamos. Paulo era extremamente zeloso, Barnabé totalmente flexível; Paulo era inteligente, sábio eficaz, Barnabé era gracioso, compassivo e acima de tudo possuía uma visão futurista.

Existe uma diferença entre lealdade e fideli­dade. A lealdade é horizontal (lado a lado) e, mes­mo não concordando com alguns princípios, não significa que não possamos andar juntos e traba­lhar por um mesmo fim. Já a fidelidade é vertical (de cima para baixo), ela é prestada a alguém que está acima de nós. Assim, por serem fiéis ao mes­mo Deus, eles conviveram em lealdade mesmo sendo diferentes. Disse o rabino Harold Kushner: “O propósito da vida não é ganhar. O propósito da vida é compartilhar“.

UM GRANDE LÍDER SEMPRE ESTÁ DISPOSTO A ARRISCAR-SE

As vezes, ajudar uma pessoa pode ser um negócio arriscado, porém, isso não deve nos im­pedir de estender a mão a alguém. Ao contar uma história passada nos jogos olímpicos de 1936, em Berlim, Ken Sutterfield ilustra o impacto que se pode causar ao correr esse tipo de risco. Antes das olimpíadas, o corredor americano Jesse Owens estabeleceu três recordes mundiais em um dia, incluindo um salto de 8,13 metros na prova de salto a distância, recorde que não seria quebrado por 25 anos.

Porém, Owens sofreu uma grande pressão durante os jogos. Hitler e seus camaradas nazis­tas queriam usar a competição para consagrar a superioridade ariana, e Owens, negro, podia sen­tir a hostilidade que o cercava. Durante os saltos classificatórios para as finais, ele ficou inquieto ao ver um alemão alto, louro e de olhos azuis dando saltos de reconhecimento na casa dos 7,9 metros.

Em sua primeira tentativa, Owens passou vá­rios centímetros da tábua de salto. Também quei­mou na segunda vez. Tinha mais uma chance. Se falhasse, seria eliminado. O alemão alto se apro­ximou de Owens. Seu nome era Luz Long. Sob os olhos dos nazistas, Long incentivou Owens e lhe deu um conselho: como a distância classificatória era de apenas 7,15 metros, ele sugeriu que o concorrente pulasse vários centímetros antes da tábua para não queimar o salto.

Owens se classificou no terceiro salto. Nas finais, ele estabeleceu um recorde olímpico e ga­nhou quatro medalhas de ouro. E quem foi o primeiro a lhe dar os parabéns? Luz Long! Owens nunca se esqueceu da ajuda de Long, embora ja­mais o tenha encontrado novamente. “Poderia derreter todas as medalhas e taças que ganhei’ ele escreveu, “mas elas não bastariam para revestir a amizade de 24 quilates que sinto por Luz Long”.

Sempre que olharmos para trás, para tudo o que realizamos na vida, encontraremos mais sa­tisfação nas alegrias que trouxemos à vida de outras pessoas do que nas ocasiões em que às supe­ramos. As pessoas sempre irão apreciar e admirar alguém que é capaz de ajudá-las a alcançar outro nível, alguém que se lhes faça sentirem importan­tes e capacite-lhes para alcançar êxito. O rendi­mento das pessoas é o reflexo das expectativas daqueles a quem respeitam.

Precisamos aprender uma coisa. Crer no ser humano como uma criatura tratável, capaz de mudar e responder positivamente ao bom senso, ainda que nem sempre, é assumir grandes riscos. Investir de diferentes maneiras sob o risco de sofrer decepções, é algo que só será tentado por alguém capaz de pensar grande e que não tem medo de perder.

Barnabé pensava grande. Pelos olhos da fé assumiu grandes riscos, assim como o seu Mestre de Nazaré também o fez. Somente alguém com a visão do Reino, e não de si mesmo, poderia ir a Tarso para unir-se com alguém muito superior como Saulo, pô-lo a seu lado e ajudá-lo a cres­cer (At 11.25). Barnabé se tornou um homem inesquecível porque fez o que Deus mandou, do modo que precisava ser feito. Todavia, com uma abrangência de alcance universal. Isso só foi pos­sível porque procurou fazer tudo com excelência para Deus e não para si próprio.

 

Bibliografia

Wikipédia

A Mensagem de Eclesiastes – Derek Kidner

Barnabé , O filho da Consolação – Pr Abner Ferreira

 

 

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