Lição 4: A Prosperidade em o Novo Testamento

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Em o Novo Testamento, a prosperidade é apresentada com ainda maior intensidade espiritual que no Antigo Testamento e uma forma de se revelar o amor ao próximo.

INTRODUÇÃO

– Prosseguindo o estudo da prosperidade bíblica, veremos como o tema é tratado em o Novo Testamento.

– Se no Antigo Testamento, a prosperidade já era apresentada como um estado primordialmente espiritual, este caráter é intensificado em o Novo Testamento, como também como uma forma de se demonstrar o amor ao próximo como prova de que se tem o amor de Deus.

I – A PROSPERIDADE NAS PREGAÇÕES DE JOÃO BATISTA E DE JESUS

– Conforme já vimos na introdução deste trimestre, a palavra “prosperidade” aparece algumas vezes em o Novo Testamento. Em At.19:25, palavra utilizada por Demétrio, ourives da prata que fazia imagens de Diana em Éfeso, é “euporia” (???????), cujo significado é de “riquezas, recursos”.

– Já em I Co.16:2, a palavra grega é “euodóo” (??????), um verbo cujo significado é “ter recebido sucesso”, “ter sido bem sucedido”, tanto que a Versão do Rei Tiago traduz a passagem como “que Deus tem prosperado”.

– Pelo que podemos, pois, perceber, o significado de “prosperidade”, em o Novo Testamento, traz, praticamente, as mesmas ideias dos termos utilizados no Antigo Testamento, ou seja, de um estado de sucesso, de bom êxito, de abundância e de fartura, inclusive em termos materiais, ainda que a utilização do vocábulo com um sentido material tenha sido feita por um idólatra como era Demétrio.

– O que vemos, pois, é que, já na análise do significado dos termos utilizados em o Novo Testamento, não temos uma discrepância com relação ao já estudado no Antigo Testamento, a nos mostrar, portanto, que a passagem do Antigo para o Novo Testamento não altera o sentido que a Bíblia dá à prosperidade que, como já se estudou, tem um significado sobretudo espiritual nas Escrituras hebraicas.

– Este sentido espiritual é, na verdade, intensificado em o Novo Testamento. Disto temos notícia logo no limiar da narrativa dos Evangelhos, quando é apresentada a figura de João Batista, o precursor de Cristo, o último profeta da lei que é um elemento de transição entre a lei e a graça (cf. Jo.1:17;  Mt.11:13; Lc.16:16).

– Em sua pregação, João Batista demonstrou aos judeus que a simples ascendência biológica de Abraão não os livrava da ira futura (Mt.3:9), desfazendo, assim, uma crença arraigada nos corações de Israel de que sua escolha era puramente étnica, hereditária.

– Ao pregar que o fato de serem filhos biológicos de Abraão não garantia a salvação para os judeus, João intensificava o caráter espiritual do relacionamento com Deus, desfazendo, assim, a crença de que Deus estaria pronto a abençoar Israel tão somente pela condição étnica, sem que fosse necessária qualquer alteração sobrenatural.

– Na sua pregação, pois, João Batista desvinculava os aspectos materiais dos aspectos espirituais, passando a batizar judeus, ensinando que eles também, apesar de serem “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, deveriam se arrepender e confessar os seus pecados (Mt.3:2,8).

– Esta desvinculação entre aspectos materiais e espirituais bem se verifica nas afirmações de João aos diferentes segmentos da sociedade. Para a multidão, João mandou que houvesse a repartição dos bens e alimentos com os necessitados (Lc.3:11), a indicar, portanto, que os bens materiais tinham de ser um instrumento de demonstração de amor, a indicar que devíamos ter tão somente o absolutamente suficiente para uma vida digna.

– Aos publicanos, notórios por sua cupidez e ganância, que os levavam a se enriquecer à custa da exploração desmedida e da corrupção, João Batista mandou que não pedissem ao povo mais do que lhes era devido, em síntese, que não usassem de sua função para o enriquecimento próprio, em mais uma atitude de desapego aos bens materiais como prova de sua retidão diante de Deus (Lc.3:12,13).

– Por fim, aos soldados, que também eram conhecidos por sua avidez por riquezas, João mandou que tivessem um comportamento não-violento com a população, mas que se contentassem com o seu soldo, mais uma vez recriminando a ganância e a busca por enriquecimento (Lc.3:14).

– Diante destas afirmativas de João, vemos que a preparação do caminho do Senhor implicava o desarraigar de crenças que vinculavam a posse de bens materiais aos favores divinos, que relacionavam o bem-estar material com o bem-estar espiritual.

– Quando Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo inicia o Seu ministério, a mensagem não é diversa. Jesus começa pregando a respeito do arrependimento dos pecados (Mc.1:14,15) e, na chamada dos primeiros discípulos, mostra, claramente, que aqueles homens deviam deixar as suas profissões de pescadores para serem “pescadores de homens” (Mc.1:16,17).

– No sermão do monte, o grande sermão doutrinário de Cristo, ao falar das bem-aventuranças, ou seja, do significado da felicidade, o Senhor deixa bem clara a dissociação entre esta felicidade superior e a posse de bens materiais, posse esta que nem sequer é mencionada entre as bem-aventuranças (Mt.5:3-12), como haveremos de estudar em lição própria deste trimestre (a lição 6).

– Na sequência do sermão, o Senhor Jesus é ainda mais explícito com respeito a esta desvinculação, ao afirmar que não devemos ajuntar tesouros na terra, mas, sim, no céu, porque onde ajuntamos tesouros, ali estará o nosso coração (Mt.6:19-21), estabelecendo, mesmo, uma dicotomia entre os que servem a Deus e os que servem às riquezas, não podendo haver servo de Deus que também sirva a Mamom (Mt.6:24).

– Neste ponto, aliás, o Senhor Jesus mostra que o Seu verdadeiro e genuíno discípulo não pode ficar correndo atrás da comida, bebida e vestido, mas deve, sim, buscar o reino de Deus e a sua justiça, que tudo lhe será acrescentado (Mt.6:25-33).

– Temos aqui a nítida retomada do que já havíamos visto anteriormente com relação ao que Deus instituiu para o homem. O importante é que tenhamos acesso à árvore da vida, ou seja, que tenhamos comunhão com o Senhor, que busquemos o perdão dos nossos pecados na pessoa de Cristo e, deste modo, passemos a pertencer ao reino de Deus e a sua justiça. Uma vez restabelecida esta comunhão com Deus, todas as coisas nos serão acrescentadas, não havendo porque nos inquietarmos com as questões materiais.

– O Senhor ensina-nos que, do mesmo modo que Ele cuida da sobrevivência de todos os seres vivos existentes sobre a face da Terra, também haverá de cuidar de nós, mais uma vez nos dando a lição de que as bênçãos materiais prometidas estão relacionadas com a manutenção, com a concessão do necessário para a sobrevivência, não com uma vida regalada e de luxo. O Pai celestial sabe da nossa necessidade de tais bens para nosso sustento e é a isto que está ele atento (Mt.6:32).

– Ainda neste ensino a respeito da promessa da suficiência, o Senhor Jesus faz questão de ressaltar o caráter secundário da posse de bens materiais, ao dizer que a vida é mais que o mantimento e o corpo, mais que o vestido (Mt.6:25).

– O objetivo primordial do Evangelho é a vida, ou seja, a concessão da comunhão com Deus. A verdadeira prosperidade encontra-se na “vida eterna”, trazida pelo próprio Jesus ao mundo, visto ser Ele a vida (Jo.1:4; 14:6). Esta é a razão de ser da vinda de Jesus ao mundo (Jo.3:16; 10:10; 20:31).

– Mais importante, pois, que a própria bênção da abastança, que a promessa da manutenção de uma vida digna durante a nossa passagem terrena é o de termos comunhão com o Senhor, de podermos desfrutar de vida espiritual, de termos sido perdoados por Deus através de Cristo Jesus e de termos garantida a nossa morada no céu.

– Mais importante que o vestido, diz-nos o Senhor, é o corpo. Muito melhor do que termos uma determinada posição na sociedade, de termos “vestido”, ou seja, sermos notados entre os que conosco convivem, é termos um corpo que é templo do Espírito Santo (I Co.6:19), é sermos instrumento de justiça de Deus, instrumento de santificação por intermédio do nosso corpo (Rm.6:13,19).

– Este ensino do sermão do monte é repisado pelo Senhor Jesus na parábola do rico insensato. Jesus foi procurado por alguém que, do meio da multidão, pediu que o Senhor interviesse em uma briga de herança, pedindo esta pessoa que Jesus instasse o seu irmão a repartir com ele a herança.

– Jesus, numa clara demonstração de que não viera a este mundo para promover o enriquecimento de pessoas, disse a esta pessoa que não havia sido constituído como juiz ou repartidor entre aqueles irmãos e, dirigindo-se à multidão, advertiu-a para que se acautelassem e se guardassem da avareza, porque a vida de qualquer não consista na abundância do que possuísse (Lc.12:13-15).

– Esta passagem é extremamente elucidativa, pois o Senhor Jesus desvincula a prosperidade da posse de bens materiais. Ser próspero não é possuir muitos bens, a abundância prometida por Deus ao homem não é uma medição monetária, não é algo que se vá obter por meio de cálculos matemáticos.

– Para ilustrar esta sua afirmação, Jesus, então, conta a parábola do rico insensato (Lc.12:16-21), onde fala de um homem rico que tinha produzido em abundância. Ora, segundo os conceitos vigentes entre os judeus, naquele tempo, o fato de o homem ser rico e ainda ter produzido em abundância era uma demonstração de que se tratava de alguém que era abençoado por Deus, alguém que tinha, certamente, a salvação garantida.

– Este conceito surgido entre os judeus advinha de uma equivocada interpretação a respeito da prosperidade prometida a Israel, muito similar ao que se defende na teologia da prosperidade. Como o Senhor prometia bênçãos materiais em decorrência da obediência de Israel, tinha-se a ideia de que o fato de alguém ter prosperidade material era um indicador de que tal pessoa era obediente a Deus e, portanto, uma pessoa piedosa.

– No entanto, o Senhor Jesus, ao nos contar esta parábola, ensina-nos que a “vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”. Aquele homem era rico e havia se enriquecido ainda mais, mas, nem por isso, era uma pessoa piedosa, pois Deus o chama de “louco”, uma vez que não havia pensado em sua vida espiritual, tanto que, ao ser pedida a sua alma na noite que se seguiu à solução que o homem encontrou para armazenar tudo quanto havia produzido e que era suficiente para ter uma vida regalada até o fim de sua vida, não tinha se preparado para a eternidade.

– Jesus, então, ensina a multidão que se deve “ser rico para com Deus” e não ajuntar tesouros para si. Assim, repete o mesmo ensino de João Batista, qual seja, o de que a abundância que é dada por Deus ao homem não é para seu próprio deleite, mas, sim, para que isto seja repartido, compartilhado com aqueles que necessitam. O “rico insensato”, apesar de já ser rico e de ter produzido em abundância, fez um cálculo egoísta, pensou apenas em si, tanto que viu que a produção era mais do que suficiente para que tivesse uma vida regalada até o término da sua existência, não tendo, em momento algum, pensado no outro, pensado no próximo.

– O Senhor também aproveitou uma ocasião para demonstrar a desvinculação que deve existir entre a prosperidade verdadeira e a posse de bens materiais. Foi no Seu encontro com o “mancebo de qualidade” (Mt.19:16-30; Mc.10:17-31 e Lc.18:18-30), alguém que, segundo os padrões então vigentes entre os judeus, era alguém que se apresentava como “salvo”, já que, além de religioso, era possuidor de muitos bens.

– Aqui também o Senhor Jesus nos mostra que a posse de bens materiais nada tem que ver com demonstração de salvação ou de comunhão com Deus, pois, além de aquele jovem estar à procura da vida eterna, prova de que não a possuía, ainda rejeitou o convite de Jesus, sendo uma das poucas pessoas que, depois de ter ido à procura do Senhor, deixou Jesus triste e sem salvação.

– Nesta oportunidade, o Senhor foi bem claro ao afirmar que os que se apegam às riquezas, os que confiam nas riquezas, os que vivem em função das riquezas muito dificilmente alcançarão a salvação.

– O Senhor mostrou que ser rico não é pecado, mas que confiar nas riquezas, preferi-las à vida eterna é fatal para a vida espiritual de alguém. Assim, lutar por uma vida regalada nesta Terra, estar à busca de obtenção de riquezas, erigir isto como uma prioridade na vida é praticamente assinar a sua sentença de perdição. Como, então, podemos dizer que as pregações e ensinos da teologia da prosperidade tenham algo a ver com o Evangelho que Nosso Senhor pregou?

– E esta situação ilustrada pela parábola do rico insensato e denunciada quando do encontro com o “mancebo de qualidade”, é descrita como algo real e fático quando o Senhor Jesus nos conta a história do rico e Lázaro, que não é uma parábola, como muitos equivocadamente afirmam, mas um fato que o Senhor revela para nos mostrar a realidade da vida humana (Lc.16:19-31).

– Nesta história, o Senhor nos mostra um homem rico que teve uma vida regalada, voltada somente para si, insensível ao mendigo Lázaro que jazia cheio de chagas à sua porta. À vista do conceito então vigente entre os judeus, o rico era um homem abençoado por Deus, enquanto que Lázaro era um maldito. No entanto, sobrevindo a morte, Lázaro foi levado ao seio de Abraão, a aguardar a redenção, enquanto que o rico foi levado ao lugar de tormentos, no Hades, para aguardar o juízo final.

– Jesus não nos diz que a riqueza seja uma maldição, um pecado, mas, no desenrolar da história, revela-nos que, durante a sua vida, o rico não deu qualquer importância à lei do Senhor, a uma comunhão com Deus, da mesma maneira que o “rico insensato”, enquanto que Lázaro, apesar de sua situação miserável, teve a preocupação de servir ao Senhor. Foi por isso que Lázaro alcançou a verdadeira prosperidade, a salvação, a vida eterna, enquanto que o rico nada obteve senão tormentos.

– Por tudo que vimos, pois, a pregação de Cristo Jesus, o Evangelho, mostra-nos que a verdadeira prosperidade encontra-se em entrarmos em comunhão com o Senhor, em termos a vida eterna, algo que se consegue quando nos entregamos a Cristo, quando nos arrependemos de nossos pecados, crendo no Senhor como nosso único e suficiente Senhor e Salvador.

– Jesus também prometeu que, durante nossa passagem por esta Terra, dará o necessário para nosso sustento, nada nos deixará faltar, mas que aquilo que obtivermos devemos, também, repartir com o próximo, mostrando que o amor de Deus está verdadeiramente em nós.  O sucesso, o êxito não está, pois, na posse de bens materiais, mas em uma vida de comunhão com Deus, de obediência à Palavra de Deus.

II – A PROSPERIDADE NOS ENSINOS DOS APÓSTOLOS E DISCÍPULOS DO SENHOR JESUS

– Ao verificarmos como o tema da prosperidade se encontra nos ensinos dos apóstolos e dos discípulos do Senhor Jesus, vemos que esta mesma linha é mantida, o que não é de impressionar, visto que o que os apóstolos ensinaram foi, precisamente, o que aprenderam do Senhor Jesus.

– Logo no limiar da igreja primitiva, vemos que os discípulos eram completamente desapegados à posse de bens materiais, a ponto de os discípulos se desfazerem de seus patrimônios para tudo repartirem com os irmãos (At.2:44,45).

– No registro do primeiro grande milagre de cura da igreja primitiva, Lucas faz questão de deixar consignado que os apóstolos Pedro e João fizeram questão de dizer que não tinham prata nem ouro, mas, sim, o poder de Deus (At.3:6), numa clara alusão de que bem haviam aprendido a lição do Senhor de que a vida não consiste na abundância do que se possui.

– A primeira demonstração de amor do dinheiro e de tentativa de conciliação entre este amor e o serviço a Deus, manifestada pelo casal Ananias e Safira, foi severamente punida pelo Espírito Santo no seio da igreja (At.5:1-11), gerando grande temor em toda a igreja, a demonstrar a desaprovação divina quanto a este tipo de comportamento.

– A reação que teve o apóstolo Pedro em Samaria com relação ao comportamento do ex-mago Simão, que pensou poder conseguir por dinheiro o dom de Deus (At.8:18-24), bem revela qual o pensamento vigente entre os apóstolos a respeito do papel do dinheiro para as coisas espirituais.

– Não vemos, em momento algum, em o Novo Testamento, qualquer ensino dos apóstolos que dissesse que a salvação viria acompanhada de bênçãos de aumento patrimonial, ou que estava destinado aos salvos uma vida regalada sobre a face da Terra, ou, ainda, que devêssemos buscar em Cristo a abundância material.

– Pelo contrário, vemos que nenhum dos discípulos ou apóstolos era rico ou era dono de um grande patrimônio. Pelo contrário, aqueles que tinham posses, perderam-nas ao longo de seu ministério, como é o caso de Barnabé, que tudo entregou para a Igreja (At.4:36,37) ou do próprio Paulo que, sendo pessoa de destaque na sociedade, quando começou a pregar o Evangelho, não poucas vezes, teve de trabalhar com suas próprias mãos para se sustentar (At.18:3; I Co.4:12; I Ts.2:9; II Ts.3:8).

– Paulo, escrevendo aos coríntios, foi, aliás, bem enfático ao mostrar que quem espera em Cristo somente para esta vida é o mais miserável de todos os homens (I Co.15:19), indicando que a esperança do cristão não está neste mundo, nem em ter benesses nesta Terra, mas na ressurreição de Cristo que é a garantia de que também seremos ressuscitados e glorificados, passando a viver uma vida muito melhor (I Co.15:17, 51-58).

– Escrevendo aos tessalonicenses, o mesmo apóstolo mostra que uma das provas de que legitimamente havia pregado o evangelho àqueles crentes foi o fato de nunca ter usado a pregação como “pretexto de avareza” (I Ts.2:5).

– Como se isso fosse pouco, o apóstolo, ainda, traz um importante ensino do Novo Testamento a respeito de nossa vida material, qual seja, a necessidade e importância do trabalho como forma de aquisição de bens. Quem não trabalhasse, não era sequer digno de comer (II Ts.3:6-12), ensina o apóstolo, mostrando que, apesar de Deus nos prometer a suficiência, isto não isenta o servo do Senhor de trabalhar, como, aliás, foi determinado pelo próprio Criador quando do juízo dado ao homem por sua queda (Gn.3:19).

– Neste ensino a respeito do trabalho, o apóstolo não estava a inovar, pois o próprio Jesus havia ensinado que Ele trabalhava assim como o Seu Pai (Jo.5:17), a indicar que o trabalho é uma demonstração da “imagem e semelhança de Deus”, que é plenamente restaurada na salvação em Cristo Jesus.

– Paulo, também, ao falar com os coríntios a respeito da coleta que se devia fazer aos crentes, traz-nos muitas lições a respeito do sentido da prosperidade material para a Igreja, algo muito distante, contraditória mesmo ao que ensinam estes falsos pregadores da teologia da prosperidade.

– Por primeiro, é importante mostrar que os crentes de Jerusalém e da Judeia que estavam a passar por necessidades são chamados pelo apóstolo de “santos” (I Co.16:1), a provar, pois, que a situação de necessidade pela qual passavam não era resultado de pecado, nem da falta de comunhão com Deus. Assim, a salvação não está vinculada à posse de bens materiais.

– O que se nota é que esta situação de pobreza estava vinculada a circunstâncias sócio-político-econômicas vividas na região àquela época, como também ao próprio fato de que a história da igreja tinha sido de venda de propriedades e repartição de bens sem que houvesse o elemento trabalho como fonte de aquisição de bens, o que resultou no consumo dos bens sem qualquer reposição, o que se agravou com a cruel perseguição sofrida pelos crentes da parte dos judeus (I Ts.2:14,15).

– Por segundo, ao mencionar os crentes da Macedônia, não deixa de dizer que eles eram pobres, apesar de terem se convertido (II Co.8:2), em mais uma indicação que a salvação em Cristo Jesus não traz automático enriquecimento material.

– Por terceiro, o fato de serem pobres materialmente, não os impediu de serem “ricos em generosidade”, tendo, da própria pobreza, dado abundantemente para os crentes judeus, a mostrar, pois, que a multiplicação de recursos, um verdadeiro milagre, é realização que faz o Senhor, mas não com o propósito de acumulação e deleite próprio, mas para que haja a comunicação aos santos (II Co.8:3-8).

– Por quarto, a abundância material que é dada pelo Senhor não é como uma prova de salvação, mas a prova da salvação não está na abundância, mas, sim, no fato de que esta abundância suprirá a falta de outros e que, no futuro, isto pode novamente ocorrer, com os que deram no passado sejam os que hão de receber no futuro daqueles que, no passado, haviam recebido (II Co.8:14,15).

– Por quinto, o apóstolo também nos ensina que o que Deus quer nos dar é a suficiência, pois o importante é abundarmos em boas obras (II Co.9:8,9), i.e., as bênçãos espirituais são as mais relevantes, são as que devem ser buscadas por quem serve ao Senhor (II Co.9:10-15).

– Uma das características do salvo em Cristo Jesus é, precisamente, ainda segundo o apóstolo Paulo, o estar completamente desprendido das circunstâncias materiais para exercer a sua fé, como deixa claro na sua carta aos filipenses, o que será objeto de lição específica neste trimestre (lição 7).

– Mas não é apenas Paulo quem traz este precioso ensino a respeito da prosperidade em o Novo Testamento e de seu sentido primordial e intensamente espiritual. Pedro, em sua segunda epístola, é bem claro ao mostrar que uma das características dos falsos mestres é, precisamente, o estar preso aos bens materiais, a ponto de fazerem, por avareza, negócio com os crentes (II Pe.2:3), como também receberem “o galardão da injustiça”, por  “terem o coração exercitado na avareza”, seguindo “o caminho de Balaão” (II Pe.2:13-15).

– Ao apontar que tais são características dos falsos mestres, o apóstolo Pedro nos ensina que dar prioridade aos bens materiais, estar preso a eles é se desviar do Evangelho, repetindo ensino do próprio apóstolo Paulo que nos ensina, também, que “o amor do dinheiro é a raiz de toda a espécie de males e que, nesta cobiça, alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores, mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão, milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas testemunhas” (I Tm.6:10-12).

– O ensino do Novo Testamento, portanto, é que somos salvos para obter a vida eterna, que é felicidade, a prosperidade está em termos a vida eterna, dela tomarmos posse e de que, quando deixamos a vida eterna em busca de bens materiais, quando passamos a amar as riquezas, desviamo-nos da fé, perdemos a salvação.

– O escritor aos hebreus traz mais uma afirmação neste sentido, ao exortar os crentes a que “sejam os seus costumes sem avareza, contentando-se com o que têm, porque Ele disse: não te deixarei, nem te desampararei” (Hb.13:5). Aqui, uma vez mais, há a promessa divina de dar-nos o suficiente para sobrevivermos sobre a Terra, bem como a advertência para que não venhamos a ser presa das riquezas, buscando ter cada vez mais, o que nos levará à ganância e à perdição.

– O escritor aos hebreus volta a lembrar a mensagem de João Batista a respeito do contentamento com o que temos. Uma das grandes armas que o inimigo de nossas almas tem lançado no meio do povo de Deus é, precisamente, a insatisfação com o que se possui, insatisfação motivada seja pelo consumismo desenfreado dominante em nossa sociedade hodierna, seja mesmo pela inveja em relação ao próximo.

– Neste mesmo diapasão, Tiago, o irmão do Senhor, lembra os ricos de que as riquezas terrenas são passageiras, “como a flor da erva” (Tg.1:10,11), como também faz questão de dizer que “Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que O amam” (Tg.2:5).

– Para Tiago, portanto, a chamada divina para a salvação não é para que alguém enriqueça materialmente neste mundo, mas para que alcance “a riqueza na fé e a herança do reino de Deus”, que o Senhor Jesus fez questão de dizer que “não era deste mundo” (Jo.18:36).

– Prosseguindo em sua epístola, Tiago mostra-nos que “a riqueza na fé” tem de ser demonstrada através de obras, através de ações em prol dos necessitados (Tg.2:15,16), uma vez mais mostrando que um salvo pode chegar a ficar nu e a lhe faltar o mantimento cotidiano, sem que isto represente qualquer pecado por parte do irmão.

– Tiago volta a falar sobre o caráter passageiro das riquezas terrenas, chamando-as, mesmo, de “misérias”, uma vez que os vestidos podem ser comidos de traça e o ouro e a prata, enferrujarem, aludindo, assim, ao que o Senhor Jesus ensinara no sermão do monte (Tg.5:1-3).

– Tiago aqui remete, também, a advertência de Paulo que manda aos ricos que não ponham sua esperança na incerteza das riquezas e, por isso, se façam altivos, mas que esperem em Deus, que é quem dá abundantemente todas as coisas para que dela gozemos (I Tm.6:17).

– João, “o apóstolo do amor”, não será dissonante neste sentido que se dá à prosperidade. Já no limiar de sua primeira epístola, mostra que o papel dos apóstolos era “anunciar a vida eterna” (I Jo.1:2), “ a comunhão com o Pai e seu Filho Jesus Cristo” (I Jo.1:3).

– João, entretanto, mostra que a prova de que o amor de Deus está em nós e de que estamos em comunhão com o Senhor é o amor ao próximo, amor este que é demonstrado pelo fato de que, quem tem bens do mundo, vendo o seu irmão necessitado, não cerra suas estranhas, dá a sua vida pelo irmão (I Jo.3:16-18).

– Mais uma vez vemos que, quando Deus nos dá bens deste mundo, o objetivo outro não é senão ajudar aquele que não os tem, a prosperidade material eventualmente concedida a um servo de Cristo é para que ele reparta com o que nada possui, com o que tem necessidade, a fim de fazer desta bênção material uma comprovação do amor de Deus entre os homens, pois o mandamento de Deus é o de crermos em seu Filho Jesus Cristo e nos amarmos uns aos outros (I Jo.3:23).

– Judas, outro irmão do Senhor, em sua epístola, ainda que não de forma explícita, também fala desta realidade, ao fazer coro com Pedro e mostrar que os homens ímpios que se introduziram no meio da Igreja são pessoas que “convertem em dissolução a graça de Deus”, sendo homens “levados pelo engano do prêmio de Balaão” (Jd.11) e que “admiram as pessoas por causa do interesse” (Jd.16), ou seja, são pessoas movidas pelo amor às riquezas, pelas coisas materiais.

– Já os verdadeiros salvos, diz Judas, são aqueles que se edificam sobre a fé, orando no Espírito Santo, conservando-se no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (Jd.20,21), ou seja, pessoas que dão prioridade à “vida eterna”, que estão em busca do céu, que não se prendem pelas coisas passageiras desta vida.

– No livro de Apocalipse, então, o apóstolo João diz que fomos feitos reis e sacerdotes para Deus, lavados dos nossos pecados que fomos no sangue de Cristo (Ap.1:5,6), o que, de pronto, já mostra a razão de ser da nossa salvação, o que significa a prosperidade.

– Neste livro profético do Novo Testamento, aliás, estão presentes sete bem-aventuranças, nenhuma delas relacionada com a posse de bens materiais. A primeira bem-aventurança é a de ler e ouvir as palavras da profecia e guardar as coisas que nela estão escritas (Ap.1:3). Ler, ouvir e guardar a Palavra de Deus é bem-aventurança, é mais do que felicidade, é prosperidade.

– A segunda bem-aventurança é a dos mortos que morrem no Senhor (Ap.14:13), porque descansam eles dos seus trabalhos e as suas obras os seguem. Vemos aqui que a prosperidade do que morre é “morrer no Senhor” e que a única coisa que segue o homem para a eternidade são as suas obras e não o seu patrimônio, os seus bens materiais, que ficam todos aqui neste mundo.

– A terceira bem-aventurança diz respeito aos que vigiam e guardam as suas vestes para que não sejam achados nus e se vejam as suas vergonhas (Ap.16:15). Naturalmente, não se trata de uma bem-aventurança material, mas de se manter devidamente vestido espiritualmente, para que não venha a padecer, na eternidade, a vergonha da perdição.

– A quarta bem-aventurança é a dos que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro (Ap.19:9), ou seja, aqueles que forem arrebatados por Jesus por pertencer à Sua Igreja, aqueles que perseverarem até o fim, que forem fiéis a Cristo até a morte.

– A quinta bem-aventurança é a dos que tomam parte na primeira ressurreição, ou seja, aqueles que ressuscitarem para reinar com Cristo por mil anos, seja no arrebatamento da Igreja, seja os que morrerem fiéis a Cristo durante a Grande Tribulação (Ap.20:6).

– A sexta bem-aventurança é a dos que guardam as palavras da profecia do livro (Ap.22:7), ou seja, daqueles que se mantêm obedientes à Palavra do Senhor.

– A sétima e última bem-aventurança é daqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, ganhando o direito à árvore da vida e entrem na cidade pelas portas (Ap.22:14), mostrando claramente que o acesso à árvore da vida, a comunhão com Deus, é a verdadeira e real prosperidade.

– Como se pode notar, portanto, em todo o livro do Apocalipse, vemos que a ideia de felicidade, de bem-aventurança está muito longe da posse de bens materiais, tendo apenas que ver com a comunhão com Deus, com a vida espiritual, com o perdão dos nossos pecados por meio de Jesus Cristo.

– Tanto assim é que, ao longo do livro do Apocalipse, mais de uma vez a posse de bens materiais é apresentada junto àqueles que estão completamente alheios ao Senhor e à Sua Palavra, como é o caso dos ricos mercadores que enriqueceram com o governo do Anticristo, ele próprio envolvido em luxo e riquezas (Ap.18:15,16).

– Por tudo isto, percebemos claramente que, em o Novo Testamento, mantém-se a ideia da prosperidade como algo sobretudo espiritual, o que foi intensificado em relação ao Antigo Testamento.

– Esta intensidade, ensina o pastor batista norte-americano John Piper (1946- ), resulta até do fato de que, no Antigo Testamento, a religião era “venha-ver”, ou seja, Deus precisava mostrar quem era a partir de Israel. “…Há um centro geográfico do povo de Deus. Há um templo físico, um rei terreno, um regime político, uma identidade étnica, um exército para lutar as batalhas terrenas de Deus, e uma equipe de sacerdotes para fazer sacrifícios animais pelos pecados.(…) Com a vinda de Cristo tudo isso mudou. Não há centro geográfico para o Cristianismo (João 4:20-24); Jesus substituiu o templo, os sacerdotes e os sacrifícios (João 2:19; Hebreus 9:25-26); não há regime político Cristão porque o reino de Cristo não é deste mundo (João 18:36); e nós não lutamos batalhas terrenas com carruagens e cavalos ou bombas e balas, mas sim batalhas espirituais com a palavra e o Espírito (Efésios 6:12-18; 2Coríntios 10:3-5). Tudo isso sustenta a grande mudança na missão. O Novo Testamento não apresenta uma religião venha-ver, mas uma religião vá-anunciar (…) As implicações disso são enormes para a forma que vivemos e a forma que pensamos a respeito de dinheiro e estilo de vida. Uma das implicações principais é que nós somos ‘peregrinos e forasteiros’ (1Pedro 2:11) na terra. Nós não usamos este mundo como se ele fosse nosso lar de origem(…) A ênfase do Novo Testamento não são as riquezas que nos atraem para o pecado, mas o sacrifício que nos resgata dele.” (Aos pregadores da prosperidade. Disponível em: http://www.pulpitocristao.com/2011/09/john-piper-aos-pregadores-da-prosperidade/ Acesso em 07 dez. 2011).

– Como se percebe, portanto, o aspecto espiritual da prosperidade, já presente no Antigo Testamento, é reafirmado e ampliado em o Novo Testamento, pois o que se busca é a “vida eterna”, a comunhão com Deus e tão somente isto. Deus, sim, promete-nos bênçãos materiais, bênçãos que têm um duplo propósito: a manutenção de nossa sobrevivência sobre a face da Terra e a oportunidade de, pela repartição dos bens com os necessitados, o testemunho do amor a Deus.

– Vemos quão diferente é esta realidade bíblica que saem das páginas do Novo Testamento do que andam pregando os teólogos da prosperidade. Fiquemos, pois, com a Bíblia e deixemos estas falsas doutrinas de lado, falsas doutrinas que fazem algumas distorções das Escrituras que analisaremos especificamente nas próximas lições.

Ev. Prof. Dr.Caramuru Afonso Francisco

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